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FPM#4 – Bons, menos Bons e outros Sobreviventes, o culminar de duas décadas da Fundação PLMJ

“Civilization is defined by law and art”. É com esta declaração categórica, emprestada de Camille Paglia, no seu controverso Glittering Images: A Journey Through Art from Egypt to Star Wars, que Luis Sáragga Leal, sócio-fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação PLMJ, indica o caminho para a Galeria de Exposições daquela instituição que tem como premissa “Uma Sociedade de Advogados como Espaço de Cultura”. O enunciado, como é claro, cabe impecavelmente para a ocasião. Após assistirmos ao documentário que celebra, enfim, os 20 anos da Fundação – assinalados em 2021, em plena pandemia –, a frase ecoa pelo auditório e persegue-nos até ao 14.º piso do Edifício Fontes Pereira de Melo 41, Lisboa, para a abertura da exposição FPM#4 – Bons, menos Bons e outros Sobreviventes.

Paglia explica: de um lado, está a lei, que estabelece as regras do jogo na vida exterior da sociedade; do outro, a arte, que governa o espírito e a subjetividade humana. Ambas as palavras aliciam-nos para o emprego de iniciais maiúsculas, protagonistas recorrentes na tradição filosófica ocidental e representantes de realidades e significados tão abstratos quanto concretos. Posicioná-las em paralelo, no entanto, talvez nos dê a falsa impressão de que os seus campos de atuação permanecem imunes, incontaminados. Afinal, em que medida a lei não encontra também os caminhos de dentro para invadir o terreno das paixões e intimidades? E, ainda, quem é que pode delimitar ao certo o ponto de partida e o ponto de chegada de uma obra de arte?

De alguma forma, a própria jornada da PLMJ seria, assim, testemunha da perturbação dessas fronteiras, local onde a arte é ferramenta de transformação social e política, e a lei, investidora do desejo humano. Nesse sentido, é de se destacar – como o fazem os diversos agentes culturais portugueses nos seus depoimentos para o filme institucional da Fundação, assinado pelo realizador Abílio Leitão – a relevância dos programas culturais levados a cabo pela entidade: projetos como Autores Lusófonos ou Opções & Futuros já concretizavam uma vontade, rara em Portugal à época do início do milénio, de afirmar a criação emergente no país e na diáspora lusófona. Como divulgadora da arte e da criatividade na Europa, mas também em África, na América do Sul e na Ásia, a Fundação PLMJ desvenda novos vínculos geográficos, novas sensibilidades e – até bastante literalmente – novos espaços para a interação entre artistas, público e cidade.

Desde a sua mudança para a zona de Picoas, em 2019, a coleção de mais de 1400 peças, das mais diversas tipologias, acomoda-se por entre as várias salas de reuniões e um espaço expositivo com 40 metros de extensão e um desenho claramente inspirado na arquitetura interna do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP), de Lina Bo Bardi. Depois de uma primeira mostra que pensava, justamente, sobre este recém-lançado contexto instalativo, seguiram-se uma exposição representativa da obra fotográfica no acervo da Fundação e outra intitulada Espaços Imaginados, que propunha um olhar e um questionamento multidisciplinar acerca dos limites entre dentro/fora, natural/artificial, real/ficcional, material/imaterial. Agora, a quarta exposição anual com curadoria de João Silvério, inaugurada a 9 de fevereiro, elege o corpo como a morada principal da Grande Pergunta: “quem somos?”.

Valendo-se do título da obra de Susanne Themlitz (1999), Bons, menos Bons e outros Sobreviventes arrisca respostas múltiplas, a partir de 28 artistas: o herói, a vítima, o cético, o ofendido, o instinto. Um camaleão condenado ao triste destino de querer ser quem não é, segundo Acting #3 (2007), de Vasco Araújo, ou o cruzamento de uma infinita genealogia de rostos que, ao contrário, querem se fazer vistos pelo que são – estou a pensar em Memórias para 14 bustos #0 (2022), de Mário Carvalho. Um punhado de matéria, que se irá desfazer num inútil, oco esqueleto – fragilmente equilibrado nas mãos registadas por Eduardo Guerra em Inverted Vanitas, da série Do you know about the fall? (2008) –, ou uma alma que aspira a perenidade num outro plano metafísico, como parece atestar a anónima A mulher na religião, da série Os Marizones (2010), de Mário Macilau.

Talvez essa indagação irresoluta, embora irresistível, seja mesmo, antes de tudo, uma questão de lugar. Supõe-se que habita a vizinhança do corpo – mas em qual rua? Qual beco? Qual buraco? Onde está Wally, Wally, Wally (2007, Joana Bastos)? Onde estou eu – onde está eu? Curiosamente, quase todas as obras em exibição incluem faces – mas estas são obliteradas, manipuladas, mascaradas, parecendo indicar que há mais sobre a singularidade do que apenas um par de olhos com traços e brilhos específicos. Uma espécie de surrealismo faz-se ali presente, desautorizando, até, a inferência de que estamos diante de um ser social, dotado de sensibilidade, inteligência e vontade humanas, com nacionalidade, nome e número de identificação. Contudo, há, também, um confronto estranho entre pessoalidades, um realismo subentendido que nos atrai de volta aos critérios da objetividade, ao reconhecimento alheio como algo próximo ou distante. No limiar entre o informe e a forma, entre o múltiplo e o unitário, entre o possível e o Eu, talvez se descubra, no alto de um prédio envidraçado, numa quinta-feira qualquer, que nem a lei, nem a arte são capazes, verdadeiramente, de nos definir.

FPM#4 – Bons, menos Bons e outros Sobreviventes está patente na Fundação PLMJ até 9 de janeiro de 2024.

Laila Algaves Nuñez (Rio de Janeiro, 1997) é investigadora independente, escritora e gestora de projetos em comunicação cultural, interessada particularmente pelos estudos de futuro desenvolvidos na filosofia e nas artes, bem como pelas contribuições transfeministas para a imaginação e o pensamento social e ecológico. Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Cinema (PUC-Rio) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (NOVA FCSH), colabora profissionalmente com iniciativas e instituições nacionais e internacionais, como a BoCA - Biennial of Contemporary Arts, o Futurama - Ecossistema Cultural e Artístico do Baixo Alentejo e, enquanto assistente de produção e criação de Rita Natálio, a Terra Batida.

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