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Como uma Ilha sobre o Mar: Lourdes Castro, no MUDAS

Perdemos a nossa sombra. A individual, que nos acompanha silenciosa à luz estroboscópica da noite, das cidades, dos faróis de automóveis em movimento; a coletiva, porque o Tempo é outro, não mais como dantes e agora solitário; a da Humanidade, cujo conceito se relativizou, depois se eclipsou, para nunca mais se encontrar. Foi a modernidade, que por tudo o que trouxe de bom, removeu também o significado da existência face às Luzes, a sombra dos nossos desvarios, espalmada no chão, na parede branca, essencial, próxima de nós – arquivo das nossas falhas e fraquezas. Essa coisa negra, baça, abstrata; essa coisa vagamente melancólica, que zomba do seu agente, que condensa o horror e testemunha as debilidades das nossas ações está a desaparecer. Porque temos de ser positivos ou positivistas. Porque temos de ser rápidos e omnipresentes. Porque temos de ser a luz de tudo, incandescentes como Sol que não tem sombra. Porque temos, enfim, de esquecer o negro, triste e informe, que traz a alteridade, aspereza, peso à vida que se quer limpa, polida, leve.

Quando crianças, brincamos com a sombra, acompanhamo-nos mutuamente; em adultos, separamo-nos dela, lestos a driblar a vida, os acontecimentos, a aceleração do Tempo e do Espaço, a chutar o que é feio; já velhos, olhamos para ela com suspeição, com medo, como se tivesse nela explanada a síntese do que fomos e não pudemos ser, do que conseguimos ou tentámos ser, e desejamos afastá-la de novo, para sempre, livrarmo-nos dessa coisa detestável, repressiva.

Em The Child and the Shadow, Ursula K. Le Guin relembra o conto de Hans Christian Andersen em que o personagem se separa da sua sombra ao ponto de nem um nem outro conseguirem alguma vez entrar na Casa da Beleza, cuja guardiã é a Musa da Poesia. Para entrar nessa casa era preciso estar disposto a encarar a verdade nua e sibilina que a sombra oferece. Segundo Le Guin, “Reduzida à linguagem diurna, a estória de Andersen diz que o homem que não confrontar e aceitar a sua sombra é uma alma perdida”, e que à arte é devida essa sombra. Recorrendo à obra e complexa terminologia Junguiana, o resto do ensaio serve para reconciliar a sombra com o seu dono, reafirmando o poder da imaginação, da literatura e da poesia, na mais vasta aceção do termo.

Todos somos uma expressão de Lúcifer, o portador da luz. Sempre que acendemos uma vela, fazemos surgir uma sombra, ensinou-nos Le Guin.

Relembram-se estas palavras a propósito da obra da artista Lourdes Castro, cuja obra é agora amplamente apresentada no MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira como celebração de uma longa vida entregue à arte.

De facto, a sombra tem uma presença constante na obra de Lourdes Castro. É a representação de uma personalidade, de um ego, de uma consciência que se deixa mostrar na singeleza do traço depurado, minimal, essencial. É a sombra que nos confidencia as horas mortas do dia, os momentos íntimos a dois, o perfil psicológico do retratado, o cansaço, a alegria, a tristeza, a vibração da vida. É a sombra, bidimensional, que se sobrepõe ao seu amo, tridimensional. E ainda assim é nela que vemos todas as cores possíveis de uma personalidade.

Como toda a grande arte, a obra de Lourdes Castro reconcilia-nos com as nossas sombras. É aquele fenómeno anagógico, místico-religioso, em que os símbolos adquirem um enlevo transcendental e nos conduzem novamente à nossa sombra, depois de a afastarmos com as luzes da modernidade e a velocidade do quotidiano.

A artista celebra a sombra como elemento fundamental ao equilíbrio, pleno de opostos em síntese perfeita, não fossem os ensinamentos budistas tão cruciais na obra de Castro. A sombra é a realidade nua e crua, é ela que dá substância ao indivíduo: yin-yang, cheio-vazio, claro-escuro, vida-morte.

Castro imortalizou a sua sombra, a dos seus amigos e familiares. Cerziu-a em panos, teceu-a em tapetes, pintou-a em azulejos, cortou-a em justaposições de planos coloridos. Os gestos ganham uma natureza abstrata, indefinível, mas não menos presente; os corpos ganham uma qualidade quase inocente, mas sobretudo fantasmática. Pequenos nadas: um cigarro na mão, uma palavra esgaravatada, um abraço, uma criança deitada, um casal a dormir – o espanto das formas reduzidas à linha, o espanto do Espaço demarcado e subtraído em planos diversos, do Tempo Cristalizado na tela, no vidro, na parede, no chão, no plástico luminoso e fluorescente. Pequenos mundos: uma gaivota, uma estrelícia, um saco, muitos sacos, tantos sacos… porque apesar da sua devoção à Natureza, a obra de Castro é sobre a modernidade, tão evidente no período parisiense e abundantemente demonstrado na exposição Como uma Ilha sobre o Mar: Lourdes Castro, com a curadoria de Márcia de Sousa.

Não sendo uma antológica completa, Como uma Ilha sobre o Mar mostra os grandes momentos de Lourdes Castro, a sua inventividade, o gozo pela materialidade que o desenho podia adotar, a utilização das linguagens tradicionais, como a Tapeçaria de Portalegre ou o Bordado da Madeira, as possibilidades que o plexiglás oferecia, a dedicação às séries e aos livros de artistas, etc. Da pintura à instalação, da serigrafia à assemblage de materiais gráficos ou objetos, a sua obra foi um mundo imenso, aqui plenamente exposto, com mais de 300 obras de diversas instituições públicas e privadas e um denso material de pesquisa e documentação a secundar a curadoria.

Habitamos essa ilha infinda, entre sombra, cores garridas, folhas secas e pedras gravadas. Lourdes Castro não morreu, transformou-se. Ganha agora corpo a cada exposição, citação ou recordação. Ela soube-o antes de morrer, como quando alguém olha a sua sombra de frente uma última vez e a abraça.

Por ventura poder-se-ia ter tentado uma aproximação mais benigna à sombra – ou ao modo como Lourdes Castro entendeu a sombra. Certamente, a sombra não será sempre tão negra quanto Jung a fez pintar, nem tão trágica quanto as visões de Shelley, Shakespeare ou Stevenson. Mas essa coisa estranha que nos persegue, essa companhia enigmática que nos escuta é a repressão simbólica em nós, que tentamos expurgar e ocultar, jogando mais luz para a esquecermos, para mais tarde reconhecermos que só ela diz a verdade das coisas – a mesma verdade que a arte pretende desocultar.

Longa, densa, suficiente para nela nos perdermos e deleitar, Como uma Ilha sobre o Mar: Lourdes Castro está patente no MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira até meados de 2023, com a curadoria da diretora do museu, Márcia de Sousa.

José Rui Pardal Pina (n. 1988), mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Curador do Diálogos (2018-), um projeto editorial que faz a ponte entre artistas e museus ou instituições culturais e científicas, não afetas à arte contemporânea.

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