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Ana Beatriz: Ana Vidigal na Balcony

Todos nós, em algum ponto da nossa vida, passamos pelo ritual de escolher objetos que pertencem a casas e espaços que, por algum motivo, fomos obrigados a abandonar, vender ou destruir. Neste processo, há sempre um objeto mais especial que o outro, e a nossa memória ou intuição encarregam-se de salvar certos objetos e deixar outros para trás.

Ana Vidigal enfrentou este desafio com os seus irmãos, demorando dois anos a desconstruir a casa dos seus pais. Agora, na Balcony, os objetos salvos aparecem recontextualizados, numa exposição acerca da memória e do tempo — os grandes temas que inundam a prática artística de Ana Vidigal—. Nas palavras da própria, este trabalho é “a memória do que nos passa entre os dedos, o que se escolhe preservar, o que se descobre em secretárias com gavetas de fundo falso ou em filmes de há cinquenta anos bem como o que resolvemos ‘matar’ definitivamente”[1]. Já o título da exposição Ana Beatriz, remete para os dois primeiros nomes da artista, e era como a sua mãe lhe chamava quando Vidigal “ultrapassava os limites”, como a própria confessa.

Em Ana Beatriz, a plasticidade das obras encontra-se muito no caráter dos materiais e objetos utilizados, que quase sempre carregam marcas da passagem do tempo. Vidigal utiliza panos, tecidos, papéis, revistas, livros de banda desenhada, bonecos de borrachas e até cabaças. Destes objetos com história, destaca-se no primeiro piso da exposição, uma cabaça vestida com um pano bordado de flores. Ana Beatriz #12 (A Liberdade rimou com a puberdade), faz crescer o mistério que existe na junção destes dois objetos de natureza tão distinta, e que aqui se transformam num só. Neste objeto escultórico, renasce a lembrança de quando assistíamos a nossa mãe ou avó a bordar.

No piso inferior, o tema marítimo instala-se com uma obra que tem como base um estrado de um barco de madeira—disposto na parede horizontalmente— com oito pequenas telas sobrepostas. As pinturas sobre o estrado são paisagens simples e desprendidas de rigor, que ilustram a Ponta de Sagres (como indicado no título da obra), em tons esbatidos pelo tempo. Ao lado desta obra vemos Ana Beatriz #2 (“A Ana o Nuno e o meu filho Egas”), composta por dois remos de madeira suspensos ao teto e pequenos bonecos de borracha (que vinham como brinde nos gelados Rajá e Olá durante os anos 60). Esta grande coleção de bonecos, pousa sobre os remos que levitam e remam contra o tempo.

De seguida, surgem um conjunto de pinturas semelhantes no seu processo de construção. Vidigal reúne um conjunto de folhas de revistas, livros, papéis ou banda desenhada, e executa a sua colagem sobre um lençol, que acaba por pintar, seja em acrílico ou tinta spray. Construído por camadas de tinta e diferentes malhas, desse processo nasce uma composição sobre lençol que simultaneamente revela e omite o que nele existe.

A obra que encerra a exposição Ana Beatriz #7 (“Ao vencedor as batatas”) é composta por um conjunto de cabaças de diferentes formas e tamanhos que formam uma composição quadrangular na parede. Aqui, a atenção vai para os pequenos olhos que em todas elas estão colados, que parecem pertencer ao universo do célebre Tio Patinhas.

Com Ana Vidigal, a galeria passa a parecer um espaço doméstico, que remete para as nossas memórias mais antigas, para as coisas dos nossos pais, avós ou bisavós. Coisas que vimos, conhecemos, relembramos e que aqui têm um novo propósito. Numa linguagem peculiar, Ana Vidigal reúne um conjunto de objetos que carregam o legado da sua infância e da sua família, mas também a memória coletiva que existe em cada um de nós.

Ana Beatriz está patente na Balcony até ao dia 25 de fevereiro de 2023.

 

 

 

[1] Citação de Ana Vidigal retirada da folha de sala da exposição Ana Beatriz.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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