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UM~BRAL #1 na vitrina do Teatro da Garagem

Umbral é uma das peças de guarnição de um vão. No mesmo vão, a padeira é o teto e a soleira o chão. Esta composição de elementos, aliada à profundidade, remetem para a ideia romântica do vão como o limiar (o limiar de uma passagem). A porta de entrada do lugar, não-lugar, onde ocorre o devaneio do sonhador. É neste intervalo tridimensional de sonhos entre o que está fora e o dentro, a rua e o teatro, o físico e o virtual que se movimentam Bruno José Silva e Reina del Mar, sonhadores do projeto UM~BRAL.

Os curadores propõem a ocupação voluntária de uma vitrina no Teatro da Garagem (Teatro Taborda), voltada à encosta do castelo e orientando o sistema de vistas para a Lisboa de vales e colinas (que por estes dias tanto se deseja ter à janela). O lugar é especial, ora porque aglutina o exterior, o interior e novamente o exterior, ora porque o léxico da porta, que ali é janela ou montra ou vitrina, é mimetizado, tirando partido da espessura do vão para propor um diálogo. O primeiro diálogo é entre Adriana João e Rebeca Letras. O público, que passa, é espectador desse diálogo em dois atos. Primeiro em frente àquela montra iluminada, como um aquário que oferece a dualidade da frente e do verso. Uma segunda vez, usando um blackmirror que rapidamente tiramos do bolso para fotografar. A exposição acontece, portanto fisicamente, com uma peça-instalação acorrentada a um manifesto escrito pelos autores, que falaremos adiante, e virtualmente solta, por um domínio de acesso rápido, através de um smartphonehttps://um-bral.net/.

Adriana João e Rebeca Letras, não se conheciam antes do projeto, mas cedo entraram na aula de “sonic crochet para absolute beginners” proposta pelos curadores. Lê-se, no texto de acompanhamento, em jeito de manifesto de iniciação à manualidade: “experimentas a imaterialidade translúcida das matérias, ouves atentamente o raspar cintilante das argilas queimadas”. Em concreto (e se língua portuguesa nos permitisse usaríamos um estado mais líquido) é exibido na vitrina uma atmosfera de correntes circulares, ciclos cerâmicos, “lunares”, “energéticos”,“sonoros” e “hidrológicos”, apegos luminescentes e desapegos luminosos, lembrando que a prática artística é além de um ritual um ato de meditação e aprendizagem.

A experiência da instalação pensada por Adriana João e Rebeca Letras só se mostra plena ao som do tilintar que se faz ouvir vindo do ecrã, de uma outra janela menos analógica e mais virtual (momento que devemos pôr os headphones e abandonar o real para mergulhar no azul virtual daquele aquário futurista). Talvez tenha sido intenção da curadoria explorar a fácil confusão e corrupção da palavra janela: abrir uma nova janela, minimizar ou maximizar a janela, espreitar pelo ecrã, fazer scroll à persiana, swipe no caixilho, desligar a cortina com os dedos, zoom in, zoom out

No fim, a janela tem essa capacidade, a de emoldurar um sentido, atribuindo significado à abertura na construção, imaginando um escape ficcional ao plano opaco. Abre o campo visual e na cultura popular é mesmo palco de conversa e namoradeira. Daquela janela, sobretudo no lusco-fusco, o som e a fúria dos materiais é visual e audível (1).

UM~BRAL é um projeto transitório, sem curadoria contínua, atento a espaços não convencionais, reativando outros e novos discursos. UM~BRAL #1 inaugurou-se na apresentação do Volume IV – Colonialismo, na comemoração dos 20 anos da Revista Umbigo e pode ser visitado na vitrina do Teatro da Garagem até dia 30 de janeiro, ficando alojada a peça virtual no domínio até dia 24 de julho.

 

 

 

(1) Em jeito de nota de rodapé, sublinhando no texto curatorial que “seremos sempre beginners, começamos, começando”, ocorre-me acrescentar, no mês que se comemora a efeméride do nascimento e desaparecimento de David Bowie, um dos versos da canção “Sound and Vision” : “Don’t you wonder sometimes /About sound and vision?”

Frederico Vicente (Lisboa, 1990) mestre em arquitetura (FA-UL), investigador e curador independente (pós-graduado na FCSH-UNL). Em 2018 funda o coletivo de curadoria Sul e Sueste, plataforma que pretende ser charneira entre arte e arquitetura, território e paisagem. Tem colaborado regularmente com o INSTITUTO, no Porto, cruzando diferentes disciplinas, de onde se destacam exposições como “How to find the centre of a circle” de Emma Hornsby e “Handmade” de Ana Paisano. Recentemente foi curador da exposição “Fleeting Carpets and Other Symbiotic Objects” de Tiago Rocha Costa, no AMAC, Barreiro. A atividade profissional orbita sobretudo em torno das múltiplas ramificações da arquitetura.

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