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The Shape of a Circle in the Dream of a Fish: Festival londrino de ecologia e arte na cidade do Porto

The Shape of a Circle in the Dream of a Fish organizado pela Galeria Municipal do Porto em colaboração com o programa General Ecology das Serpentine Galleries, ocorreu de 26 a 27 de novembro de 2022 na Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva/MHNC-UP (Porto), contando com conversas, debates, performances, concertos e visionamento de filmes, juntando figuras de várias áreas do conhecimento, com o objetivo de refletir sobre o papel dos sonhos nas nossas vidas. O festival que decorreu pela primeira vez fora de Londres, assinalou a sua quinta iniciativa, celebrando o cruzamento entre ciência, magia e espiritualidade, com curadoria de Lucia Pietroiusti, fundadora do projeto de investigação das galerias londrinas e de Filipa Ramos, Diretora Artística da Galeria Municipal do Porto e do Departamento de Arte Contemporânea da Ágora.

O nome surgiu pela conceptualização de que o peixe-balão, durante o acasalamento, desenha círculos no fundo arenoso do mar, gerando uma hipotética imagem para os humanos, assim como um rastro de movimento de uma possível dança, permitindo um questionamento acerca da comunicação, criatividade e inteligência nos vários seres vivos, que poderá ecoar num melhor aprofundamento ecológico nas nossas vidas.

As curadoras, no texto que acompanhou a iniciativa, explicam pretender instigar as noções de centralidade e excecionalidade da humanidade, deduzindo que quando afirmamos que outros seres vivos não amam, pensam ou criam, é porque nos fundamentamos em ideias criadas à nossa imagem. Ainda ressalvam que intentam entrar no reino dos sonhos, na senda de uma continuidade entre ciência, conhecimento ancestral, magia e espiritualidade, especulando, imaginando e debatendo a interdependência, a profunda e ancestral relação que une sistemas de descoberta, compreensão e cura do corpo e da mente, através dos tempos, passados e futuros. De facto, The Shape of a Circle in the Dream of a Fish possibilitou uma reflexão sobre o modo como os sonhos se constituem e se manifestam em todos os seres, através de relatos históricos, científicos, artísticos e espirituais, enquanto experiências que ocorrem durante o sono, que ajudam a pensar para além das convenções, extrapolando harmoniosamente a fronteira entre o consciente e o inconsciente, potenciando uma plenitude e um diálogo profícuo com os demais seres vivos e o meio ambiente, esclarecendo que o ser humano não é o único capaz de sonhar.

No primeiro dia, sob o esqueleto de uma baleia azul, pendurado no átrio principal do Centro Ciência Viva, imbuídos por luzes de tons cor-de-rosa, violeta e azul, imergimos num ambiente acolhedor, surreal e onírico, primeiramente com a performance de Yussef Agbo-Ola, 12 Dreams as Coral Hair. De seguida, Alex Jordan, responsável pelo grupo de investigação sobre Evolução Comportamental do Instituto Max Planck, em Munique, apresentou A Fish’s Sense of Self. Uma partilha do estudo sobre a evolução do comportamento social em animais, mais concretamente os resultados da exposição aos peixes bodiões-limpadores ao teste do espelho, com vista a compreender a sua vida social e individual, através de uma técnica de autorreconhecimento visual, questionando o modo como os humanos tentam compreender os outros animais. Por outro lado, o filósofo e escritor italiano, Federico Campagna em How to Dream Better, demonstrou a tese de que desde o início da mitologia existe uma intuição de que o mundo é um sonho e os seres vivos as suas personagens. Argumentando que filósofos, teólogos e cientistas têm investigado este mistério, concluindo que por existir consciência no sonho, criamos um mundo, definindo uma narrativa, tentando maximizar a alegria das personagens por razões éticas à semelhança do mundo em que vivemos. No entanto, a historiadora e professora de patrística Sophie Lunn-Rockliffe em Restless Souls and Porous Bodies: Dreaming between Animals, Demons and Humans in Antiquity, revelou que desde a antiguidade clássica a ideia de reencarnação é algo intrínseco, pelos relatos de sonhos em que surgiam memórias de vidas anteriores encarnadas, e que até mesmo os cristãos resistentes a estas noções, referiram sonhos em que demónios lhes possuíam a alma, obrigando-os a comportar-se como animais. E se a escritora e designer de ficção especulativa Onome Ekeh apresentou um excerto do seu romance gráfico, ainda em curso, Untitled Kingdom, um conto realista mágico que explora o poder e a geopolítica através da lente espectral do xamanismo ao longo de um turbilhão de linhas temporais alternativas. A artista e arquiteta Rain Wu mostrou o filme-ensaio As Above, So Below (2020), em parceria com Mariana Sanchez Salvador, demonstrando que temos uma relação muito íntima com os alimentos, pois permitem estabelecer ligações com os nossos antepassados, história, cultura e mitos, desde uma perspetiva do cosmos, ao território terrestre, até ao microscópico, proporcionando novas perspetivas em relação ao mundo em que vivemos. Por último, assistimos ao concerto da intérprete vocal japonesa Hatis Noit, Aura, em que nos sentimos imersos pelas sonoridades ancestrais, místicas e contemporâneas, com influências do canto gregoriano ao gagaku japonês, que juntamente com toda a envolvência da Galeria da Biodiversidade, outrora Casa Andersen, se tornou numa experiência potentíssima.

No dia seguinte, o átrio do palacete do século XIX, estava com uma disposição diferente, as cadeiras estavam em semicírculo, havendo um maior espaço para as enormes almofadas que estavam dispostas à sua frente, convidando a um ambiente mais relaxado, intimista e de partilha de conhecimentos, não descurando a iluminação, capaz de nos ter feito entrar no reino dos sonhos. Assim, refletimos como o cinema, a performance, a música e a poesia se relacionam com o pensamento mágico, o sonho e a realidade, mas também como o espectro onírico, o espiritual e o oculto se ilustram e aludem através da arte. Começamos por presenciar Stories From Home, em que o artista e músico Nahum Mantra, após uma breve sessão de hipnose, apresentou uma leitura musicada de histórias escritas por inteligência artificial, baseadas em dados de satélite, que nos comoveram pela sua forma poética e relatos sobre catástrofes ambientais, incêndios e o impacto humano nocivo no planeta. Logo depois, a investigadora e professora de Cognição Comparativa, Nicola S. Clayton, partilhou as suas experiências com gaios, fundamentadas em metodologias da magia, de modo a compreender as suas capacidades cognitivas. E a seguir assistimos à sessão de filmes, All is Leaf, em que destacamos A Journey to Avebury (1973) de Derek Jarman, Palomacia(2022) de Mariana Caló e Francisco Queimadela e ljen / London (2022) de Ben Rivers, pela sua plasticidade, experiência hipnagógica e imersão imagética, onírica e mágica. Por fim, Cru Encarnação apresentou a performance The Back of Five, envolvendo o público num exercício entre a prática artística e a mágica, o conhecido e o desconhecido, medos e ansiedades, controlo e descontrolo de um corpo, as práticas científicas e as experiências incompreensíveis e ocultas.

Durante os dois dias esteve em permanência a videoinstalação de Hatis Noit, Aura, aludindo ao título do concerto, tratando-se de um vídeo musical, em que a artista a partir de imagens do arquivo do British Film Institute (BFI) e de inteligência artificial, cruzou filmes recentemente restaurados do Japão do início do século XX e imagens em movimento do país nas décadas de 1990 até à atualidade, recorrendo ao sistema de reconhecimento de imagem, por forma a identificar os seres humanos, salientando as suas características imagéticas em linguagem de programação. Estabelecendo uma comparação entre passado e presente, tanto nos elementos construtivos, como naturais, nas características culturais e artísticas, mas também nos diferentes ritmos e tempos.

Em última análise, o festival resultou numa experiência intensa, em que refletimos sobre a constituição e a manifestação dos sonhos em todos os seres vivos, pelo meio de várias perspetivas, sobretudo como as práticas artísticas e científicas integram, para além de uma lógica de pensamento positivista eurocêntrico, manifestações no espectro do onírico, espiritual, oculto e mágico, com vista a um melhor entendimento sobre o cosmos, o mundo e a ecologia.

The Shape of a Circle in the Mind of a Fish iniciou com uma reunião de dois dias no Porto e continuará em Londres e online, pelo meio de podcasts, vídeos e outros lançamentos até ao início de 2023.

Ana Martins (Porto, 1990) é investigadora doutoranda do i2ADS – Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade, na qualidade de bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (2022.12105.BD). Frequenta o Doutoramento em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tendo concluído o Mestrado em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais pela mesma instituição. Licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Atualmente, desenvolve o seu projeto de investigação: Arte Cinemática: Instalação e Imagens em Movimento em Portugal (1990-2010), procedendo ao trabalho iniciado em O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020), propondo contribuir para o estudo da instalação com imagens em movimento em Portugal, perspetivando a transferência e incorporação específica de elementos estruturais do cinema nas artes visuais.

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