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Three Colours: Green de Evy Jokhova na 3+1 Arte Contemporânea

Há um tom de verde que permeia as obras da mais recente exposição de Evy Jokhova na 3+1 Arte Contemporânea: é denso, hipnótico, já o vimos noutros contextos fora desta exposição – no lodo que cresce das ribeiras paradas, nas florestas banhadas a sol e terra ou, fora de maneirismos contemplativos, no pesto, no esparregado. É o verde percebido como sinónimo de natureza, com a capacidade de contrariar a anemia das paredes e transportar-nos a uma cosmologia biológica, vivencial, mas íntima.

Introduz-nos Green: Briol, simples, descomplexada, a fotografia de um lago de água verde – o mesmo verde – circular, unificador. Cortam-se as arestas do círculo no olhar fotográfico para lhe formar uma bacia, talvez um berço – uma origem, nascimento.

Ao lado, bastante maior, dispõe-se Green Sun, bordado comprido em tons de verde e terra – observa-se um sol ofuscado, pontuado por mãos e olhos, espalhados, pendurados, esbatidos, querendo desencadear uma consciência, como um objeto ritualístico que nos fita na sua aparente imobilidade. Resulta uma peça de uma texturalidade sedutora, mas algo literal nos seus motivos – serve de declaração de intenções no seu imaginário utópico, new-age, sugerindo um qualquer sentido de partilha.

Vistos os primeiros mapas é agora que entramos na floresta: Picoesque, Azoreana e Tapadinhas mostram-se esculturas altas, de 2 e 3 metros, assentes no chão, parecendo situar-se algures entre uma árvore e um marco cerimonial. A sua posição hirta, vertical, leva o nosso corpo a engajar-se nelas, objetos estranhos entre o natural e o moldado. Todas evocam uma presença seca, gasta, árida: assentam numa cama de cascalho vulcânico, como terra queimada; em Picoesque, flores negras  despontam de um vaso como um coração apodrecido. O seu corpo de grês cerâmico quebra-lhes, no entanto, a gravidade, levando-os a uma beleza mais calma, premeditada, que os identifica enquanto objetos válidos na turma das restantes obras. Tapadinhas, a última destas esculturas, revela-se já num beco que finda o primeiro espaço da exposição – nela destacam-se a incorporação de plantas naturais em contraposição ao caráter deslocado, alienígena das primeiras duas – escultura e natureza coabitam de modo espontâneo e complementar: o grês compõe o corpo, tecendo outros pormenores entre ramos e insetos; fardos espigados de ervas secas despontam do corpo esculpido, indo de uma vassoura artesanal às Respigadoras de Millet. A conivência de um sentido ritualístico nestes objetos com a escolha de plantas que parecem pertencer a um contexto distante, tropical – a anatomia da palmeira é recorrente – revestem-nos de um olhar exterior, algo exotizado, provavelmente decorrente da convivência da artista com a comunidade indígena Shipibo-Konibo no início de 2022, que terá informado a criação destas obras. Ainda em Tapadinhas, o leque de folhas secas na base da peça parece lembrar as saias de dança Hula, levitando do chão.

Este piso terminará, no entanto, em verde: em Green: Necessidades, dois close-ups de catos compõem fotografias musculadas, texturadas; em Green Wall Drawing, uma gradação de verdes parece sombrear, como um fantasma, o que terá sido visto – sugerem uma forma escalada, misteriosa, mas brilhantemente simples: algures entre a copa de uma árvore e uma escada. A escada que iremos descer agora até ao piso subterrâneo.

Observa-se uma longa mesa de refeição onde se repartem pequenas esculturas que se querem fazer comida; os aventais estendem-se em cada uma das cadeiras, convidando alguém a sentar; talheres exageradamente compridos penduram-se na parede, a lembrar uma cozinha palaciana, aqui convertida a vazio branco.

Num qualquer sonho, pessoas terão comido ali: os jarrões verdes enchiam-se de água límpida, iguarias desconhecidas aglomeravam-se à mesa para gula dos presentes. Também eu lá estava sentado. Cada um servia aos outros os melhores folhados, o mais delicioso pesto, recorrendo apenas àqueles talheres gigantes. Alguns serviam a comida à boca dos outros, embriagados de prazer e partilha. A comida e a escultura esbatiam-se, mas o prazer absorvia-os, voluptuoso. Uma multidão voyeurística aglomerava-se à volta da mesa, vendo o que estas pessoas de gula interminável faziam, deliciando-se mais e mais, falando, rindo. Nada lhes foi dado a comer. A multidão que se aglomerava era cada vez maior e observava como vigilantes todo o espaço, todas as caras. Ninguém à mesa se embaraçava. Será que também queriam comer, ou era a curiosidade que as saciava? Quem eram aquelas pessoas à mesa, e porque teriam o direito de estar ali? O banquete estendia-se despreocupado, aglomerava-se como uma boca que engolia todas as obras e paredes.

De repente, caí em mim e subi as escadas. Tudo mudou. As cores vibrantes do cato tornaram-se suculentas; o cascalho vulcânico lembrava agora raspas de chocolate que polvilham as formas; o bordado era uma tolha de mesa pronta a ser estendida. Se calhar aqui, como na vida, estivemos só a fazer tempo até à próxima refeição. Comamos juntos.

Three Colours: Green de Evy Jokhova está presente na 3+1 Arte Contemporânea em Lisboa até ao dia 7 de janeiro. A performance relatada terá decorrido no dia 9 de dezembro.

A última performance vai acontecer no dia 4 de Janeiro, às 17h30.

 

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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