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Office for Neanderthal Tourism & Crucifixion, de Nathaniel Mellors

O Colégio da Patafísica não acabou. Está bem vivo. Nada consegue, aliás, explicar tão bem o absurdo da existência, dos mecanismos que regem e orientam a vida, involuntária e resignável para uns, necessária e planeada para outros.

A patafísica não tem limites morais, científicos, sociais; é a institucionalização do absurdismo e da crítica abrasiva que lhe subjaz. A ciência que não existe, inventa-se. As soluções cosmicamente impossíveis, tornam-se comicamente possível. Tem diploma, tem cátedra, e tanto o comité como os sátrapas recusam a utilidade do saber, da imaginação e da instrumentalização do que quer que seja. Eadem mutata resurgo. Surjo outra vez, diferente, mas igual.

Apesar da sua matriz vincadamente francófona, na qual constam grandes nomes da história da literatura e da arte – Marcel Duchamp, Boris Vian, Groucho, Man Ray ou Alfred Jerry –, a patafísica constitui-se de uma retórica conceptual universal e transversal. Vêm à memória os Monty Python, Seinfeld, os desenhos animados South Park e, se quisermos ser mais radicais, toda a cultura instantânea e caótica dos memes, que cruzam o humor e a sátira com a doutrina inopinada da pós-ironia ou da pós-sinceridade, cujos contornos críticos e políticos permanecem ainda imprecisos e por explicar.

Aqui podemos encontrar também a obra de Nathaniel Mellors, que faz uso recorrente das ferramentas conceptuais do humor britânico e da patafísica nos seus vídeos e instalações. Office for Neanderthal Tourism & Crucifixion é a sua mais recente incursão nestes campos, onde o artista baralha o natural curso cronológico num absurdo trilho a-histórico ou atemporal.

É importante deixar claro que o absurdo, aqui, não constitui algo desprovido de razão ou sentido. O absurdo, aqui, como na patafísica, é antes um dispositivo narrativo que serve para sublinhar conceitos filosóficos tão prementes como a existência, a verdade, a factualidade, o individual, o coletivo, a moral, a ética e a política – no limite, a linguagem e os poderes instituídos. Em Mellors, contudo, acresce ainda a montagem discursiva da História, da contemporaneidade e dos fenómenos que minam a atualidade mediática e quotidiana.

O Neandertal é a personagem resgatada do passado. É ele quem sobrepõe temporalidades, depois de chegar tarde à Península Ibérica. Porque o Neandertal chega, de facto, tarde à Península, sendo este território o último a ser ocupado pelo Neandertal, pouco antes de se extinguir no resto do continente europeu. A pré-história é, então, escalpelizada por Mellors, num exercício arqueológico emulado pela tecnologia e o absurdismo contemporâneo para questionar o conhecimento sobre a construção da História, o que julgamos saber sobre os nossos antepassados e todos os preconceitos ideológicos que pontuam e subjazem a essa construção.

Office for Neanderthal Tourism & Crucifixion é uma exposição que sintetiza a produção dos últimos 20 anos de Nathaniel Mellors: as esculturas antropomórficas e animatrónicas, o vídeo satírico, o cruzamento entre disciplinas, a pintura que pede emprestado ao cartoon caricatural, num corpo de trabalho verdadeiramente multimédia, não apenas na aceção material do termo, mas na ligação teórica que propõe às produções dos media populares anglófonos.

Em Neanderthal Container o artista encena a metáfora bíblica da queda. Nesta perspetiva, é o Neandertal quem desgraçadamente cai do céu em direção à falha, à incompletude, à morte, à doença, ao pecado, para se tornar depois num Homo sapiens. Esta viragem e queda denunciam a passagem de uma existência plenamente ecológica, como a do caçador-recoletor, para uma existência que redunda no antropocentrismo extrativista, massificado e de população crescente, como a do Homo sapiens mesopotâmico. É possível, no entanto, que durante essa viagem gravitacional o Neandertal tenha uma experiência psicadélica, extasiante e eufórica, em linha com o que projeção oblíqua e quase estroboscópica nos parece fazer crer.

Ao lado, The Sophisticated Neanderthal Interview ensaia uma entrevista entre Truson, a caricatura do homem moderno, e Voggen Williams, um Neandertal e personificação da pré-história. O evolucionismo e a teoria ocidental sobre o primitivismo são postos em causa. Truson julgar-se-ia iluminado por séculos de ciência positivista e cultura universal, mas é Williams quem se mostra realmente sábio e inteligente, emprestando voz a um artista que, novamente, confunde e contraria a tese de que é a arte que distingue e separa o Neandertal do Homo-sapiens. Há, contudo, um sentido crítico mais profundo neste vídeo: ao dotar o Neandertal de qualidades artísticas e discursivas, Mellors insere esta especulação numa crítica à institucionalização da arte e ao sistema da arte, que aqui se mostra em caves e grutas e não nos acéticos e pristinos museus e galerias.

Numa produção mais recente, Neanderthal Crucifixion é uma stop-motion concebida durante a pandemia, que desafia as dinâmicas de poder e de classes dentro das cavernas. Nele, o Neandertal discorre sobre o seu passado artístico, para dessa forma ampliar a mordacidade da crítica à separação entre a chamada alta e baixa culturas presente em Super Brow Super Hands.

Office for Neanderthal Tourism & Crucifixion pode ser entendido como um ensaio sobre o humor, o que tem de libertador e catártico, de dúbio e inquietante, quando a sua sinceridade é posta em causa. Ou seja, é uma exposição inesgotável, que tem qualquer coisa de delirante, mas também de alarmante, capaz de cavar em nós, como todas as grandes obras de arte, um fosso de ambivalências, dúvidas e questões sem resposta. O Neandertal pode muito bem ser a materialização fictícia do Diógenes em Mellors. Ou então, só mais um dispositivo humorístico, irónico, satírico, metafórico, sem qualquer tipo de consequências.

Até 31 de dezembro, na Monitor Lisbon.

José Rui Pardal Pina (n. 1988), mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo.

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