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Oneiroikos: o espaço simbólico da casa e do sonho na Brotéria

A poética do espaço (1958) escrito pelo filósofo Gaston Bachelard debruça-se sobre as imagens poéticas que podem surgir nos espaços íntimos da casa, um lugar nosso ao qual pertencem os sonhos, recordações, desejos, medos e solidões. A casa como nosso primeiro universo é um lugar íntimo, que protege o nosso Eu. Nela existem também outros pequenos espaços — gavetas, cofres ou armários—, lugares íntimos, capazes de guardar lembranças e sentimentos.

É sobre este princípio que nasce a exposição Oneiroikos na Brotéria, que se apresenta como uma reflexão sobre a casa como lugar do sonho e da imaginação. Com curadoria de Eva Oddo, Oneirokos reúne Carlos Bunga, Diogo Costa e a dupla Eduardo Fonseca e Silva e Francisca Valador, artistas de diferentes disciplinas que exploram a relação entre a intimidade e o mundo, o micro e o macrocosmo.

Na primeira sala, Eduardo Fonseca e Silva e Francisca Valador mostram-nos duas aguarelas onde observar requer a aproximação do nosso corpo devido à pequena dimensão da composição. São aguarelas de pequena escala, quase microscópicas, que nos mostram ambientes carregados de mistério. Nestes pequenos cenários, o fundo é negro, e o que nele se pinta é nos elucidado pelo título das obras. Papel arroz (2022) mostra dois pequenos bagos de arroz, e Dobra sal (2022) carrega a presença e a ausência de uma pedra de sal que parece ter derretido. São as palavras que dão luz a estas duas imagens simbólicas, que poderiam representar fragmentos das cozinhas de todos nós. As imagens do quotidiano continuam com mais quatro obras onde meias são o principal objeto da composição. Estes indispensáveis objetos ganham solidez e elevam-se ao estatuto de escultura. Novamente, as palavras — (Leviatã (2022), Diamante (2022), Oroboros (2022) e Rosa (2022)— que dão título às obras, iluminam a nossa imaginação, guiando as formas que observamos para irem ao encontro do que lemos. Ainda nesta sala, Diogo Costa apresenta-nos Iminente (2019), uma pequena maquete onde um ovo está em perfeito equilíbrio, em cima de uma mesa em miniatura. Este pequeno mundo criado pelo artista introduz a magia que se desenrola nas salas seguintes.

De seguida, a imagem poética é construída por casas em miniatura, onde o artista é agente da sua construção e destruição.  No vídeo Construction (2002), Carlos Bunga utiliza as suas mãos ansiosas em várias pequenas casas de brincar, reconfigurando as suas formas, nesta que é uma representação convencional de uma habitação. O som aqui também é poético, é o som da ação, das mãos e do material. Já a casa, é de brincar, de sonhar, de imaginar: uma imagem de infinitas possibilidades. Na sala em frente, o ambiente escurece quase completamente, e o sonho é produzido por Diogo Costa. Novamente com uma maquete, mas agora de maiores dimensões, colocada no chão da galeria. O artista apresenta um cenário mágico, constituído por um espelho que serve de base para uma placa de latão e um ovo de avestruz.  O equilíbrio da composição é acentuado por duas velas assentes neste cenário, que iluminam e deixam rastos de cera e tempo. Em Plano de Intenções (2022) é o onírico que prevalece.

Na última sala, a fantasia de Diogo Costa continua com outras quatro pequenas maquetes assentes no chão da galeria. Num ambiente de baixa luz, os pequenos cenários são dispostos em perfeita harmonia com o espaço, criando uma composição luminosa nas paredes, que se forma de reflexos (originados pelos espelhos que fazem parte de cada maquete). De aspeto ritualístico, as obras parecem divisões imaginadas, onde habitam objetos estranhos, sem funcionalidade, que se apresentam em perfeito equilíbrio uns com os outros. É um ambiente recheado de possibilidades, podiam ser maquetes arquitetónicas, casas de bonecas ou cenários para filmes. É uma dinâmica de cheio e vazio, de interior e exterior, marcada pela fragilidade de um ovo ou pela potência de uma vela. Na mesma sala, habita ainda More space for another construction #13(2007-2008) onde Carlos Bunga pinta sobre uma página de uma revista de arquitetura, uma estrutura de linhas negras, brancas e douradas. Nesta página é um espaço arquitetónico moderno que suporta a composição de Bunga, que constrói um novo espaço sobre a imagem existente. Aqui, é a intimidade que invade o exterior.

Em Oneiroikos, Carlos Bunga, Diogo Costa e a dupla Eduardo Fonseca e Silva e Francisca Valador reúnem-se para pensar o sonho (do grego Oneiroi) e a casa (do grego Oikos). Entre a casa do sonho, a casa imaginada ou a casa que nos habita, os mundos discretos de cada artista, originam imagens poéticas que se situam entre a intimidade e o mundo, a realidade e o sonho.

A exposição está patente na Brotéria até 31 de dezembro de 2022.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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