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Reading Against the Grain: Rudolfo Quintas na Galeria Foco

A prática artística de Rudolfo Quintas centra-se num diálogo contínuo entre filosofia, ciência e tecnologia, interessando-se em particular pelos sistemas invisíveis de poder e controlo que existem nos domínios social, político e psicológico. Através de obras que utilizam técnicas interativas, generativas e inteligência artificial, o artista explora o efeito cognitivo da informação processada e deixa-o para auto-exploração do público.

Em Reading Against the Grain, a sua nova exposição individual na Galeria Foco, Rudolfo Quintas apresenta uma investigação artística que se debruça sobre o impacto dos media na saúde mental, o excesso de informação e, a influência que as notícias têm sobre a opinião pública e comportamentos sociais. Dentro do conjunto de obras, encontram-se data paintings, desenhos, esculturas e instalações algorítmicas e informáticas.

Rudolfo Quintas inicia a mostra com a obra News Reader System (2022), onde um monitor mostra em tempo real as notícias que vão saindo nos vários meios de comunicação social a nível mundial. Esta extensa e detalhada lista em constante mutação, transmite-nos uma série de informações impossíveis de assimilar. O algoritmo que determina esta recolha de informação em grande escala, é o grande impulsionador do trabalho de Rudolfo Quintas, que desde 2018 tem vindo a desenvolver um estudo sobre o excesso de informação. Para isto, o artista trabalha com inteligência artificial, recolhendo dados não só da comunicação social, mas também de redes sociais. As obras que tem apresentado desde então, são desenvolvidas a partir da criação de sistemas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) que se refere ao “campo da linguística e das ciências da computação, e mais especificamente, ao ramo da inteligência artificial que permite aos computadores compreenderem texto e palavras faladas da mesma forma que os humanos conseguem”[1]. Em colaboração com cientistas de dados e programadores de visualização de informação, Rudolfo Quintas une a ciência e a tecnologia à arte, incentivando a nossa compreensão e tornando percetível sistemas que normalmente nos seriam incompreensíveis.

O artista apresenta-se como um mediador de informação. Mas e se essa informação não corresponder à verdade? É o que acontece com as obras Screengrab (2022), que inventam as suas próprias notícias. São três obras feitas com placas de cobre, expostas na parede à semelhança de uma pintura tradicional. No cobre foram inscritas frases que copiam a estrutura semântica de manchetes de jornais, onde lemos “Trump disqualified for the olympics games” ou “Astronaut travels to the past”. A escolha do cobre é interessante já que, como material refletor, possibilita olharmos o nosso reflexo assim que enfrentamos a obra.

No piso inferior, a atmosfera escurece e os nossos sentidos amplificam-se. Em Type Dataset (2022) vemos três pequenos cristais iluminados, onde foram gravadas informações que pertencem à base de dados reunida pelo artista. Neles vemos datas, horas, e o nome dos meios de comunicação que integram este arquivo. É um universo que pertence ao digital, mas que aqui é transformado numa peça física, acentuando a ligação entre estes dois mundos.

As últimas duas obras fazem parte de um processo que traduz a informação semântica de notícias em sentimentos, com o intuito de revelar a carga emocional presente nas manchetes que lemos diariamente, e que têm sobre nós um efeito a nível psicológico impercetível. Para isto, o artista utiliza um software inteligente que analisa as palavras, traduzindo-as em elementos visuais que se distinguem num espectro de cores quentes e frias. As cores quentes, como o amarelo, correspondem a um sentimento mais positivo, e as cores frias, como o roxo, representam um sentimento negativo. Em Sentiment Data Painting – Memory (2022), cinco ecrãs mostram o resultado desta experiência que deu origem a pinturas digitais— geradas a partir de um arquivo de notícias—, onde diferentes manchas deslizam na vertical e alternam de cor.

Seguindo o mesmo princípio, Sentiment Data Painting – Memory (2022) é constituída por uma projeção em grande formato de uma data paintingque aqui é “pintada” em tempo real, traduzindo notícias que saem em direto nos meios de comunicação social. Os títulos das manchetes aparecem no rodapé do vídeo e, assim que surgem, as manchas de cor começam a desenhar-se, arrastando-se da esquerda para a direita num movimento horizontal. Cada notícia corresponde a uma camada de tinta digital e a uma cor, e vão-se acumulando à medida que as várias notícias vão saindo. A acompanhar este vídeo em tempo real, está um som murmuroso e contínuo, que cria uma atmosfera delicada de introspeção. Aqui, somos convidados a abrandar o ritmo, a sentar e observar.

Reading Against the Grain mostra-se um grande organismo vivo repleto de informação, que transmite verdade, mas que também a manipula. É um grande sistema que opera e lê informação, e que apresenta formas de visualizar o poder manipulativo — normalmente invisível — dos meios de comunicação social.

A exposição está patente na Galeria Foco até 23 de dezembro de 2022.

 

 

[1] Informação retirada da folha de sala da exposição Reading Against the Grain.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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