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Libertar a Besta (ou a Catarse)

A coreógrafa francesa Betty Tchomanga, apresentou o espectáculo Mascaradas, no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do Alkantara Festival 2022, entre 18 e 20 de Novembro, depois de o ter vindo a mostrar em vários países, desde 2019, e já com apresentações previstas ao longo de 2023.

A performance retrata Mami Wata, uma sereia encalhada e deusa da água, por muitos considerada um monstro, figura mitológica da África Atlântica e Central e em alguns locais do Brasil, que encarna o espírito de uma mulher branca na forma de um mito pós colonial. Um mito que surge do encontro entre os colonos e os ancestrais africanos.

Mami Wata é uma figura com o poder da sexualidade, que está também associada à dor, um ser ambivalente que, se por um lado atrai, por outro, provoca repúdio e aversão, sendo tão admirada quanto temida pela população. E é desta ambivalência de que se alimenta Mascaradas.

Este espectáculo é a vivência cénica do desejo, mostrada na forma física, rítmica, vibrante, visceral, em que a performer utiliza o corpo e o som para expressar os diversos sentimentos que a personagem lhe vai transmitindo.

São momentos de uma exaltação única, pujante e bela, em que Tchomanga deixa visível ao público os seus recursos de entrada na personagem. É necessário um alto nível de concentração e centramento para que, uma vez parida, Mami Wata não volte a sair de cena. E Tchomanga aguenta-a até ao último segundo.

Mami Wata começa a narrativa na sua voz de sereia, a entoar uma sucessão de sons, oscilantes entre o tom grave e o agudo, que vão criando uma atmosfera sonora propícia ao encantamento da plateia.

Depois, arrasta o corpo ondulante pelo chão, como uma crescente preparação (da actriz e do público) ao que está para vir, até que a deusa se ergue e entra em processo de libertação dos sentidos.

Vibra, estremece, sua, salta de forma ritmada e constante até chegar ao auge da sua possessão, em que revela o desejo de chegar ao outro, sentir o outro, compreender o outro, mas também a estranheza e o medo da decepção desse encontro, que vai tornando num manifesto em forma de revolta. Mas Mami Wata não desiste e vai até ao limite da coragem para poder mergulhar no mundo misterioso dos demais.

A música tem um papel muito importante neste espectáculo, pela forma como ajuda a performer a atingir o clímax da personagem. São ritmos marcantes, da electrónica sul africana a ressonâncias mais minimalistas, a que Tchomanga vai dando expressão física.

Num intenso balbucio, são mastigadas palavras da poderosa letra Libérez la Bête, de Casey J., enquanto o movimento do corpo as acompanha. 75 min a dançar e a declamar, em simultâneo, não é obra para todos. Só mesmo uma deusa.

O que é impressionante na prestação de Tchomanga, é a visibilidade de um corpo muito presente, de um corpo totalmente vivo da cabeça aos pés, na expressão do interior no exterior e na coerência absoluta desta ligação. Não há um acto que seja falhado, nem a procura da perfeição, tudo é já presente.

O gesto é puramente ritual, a via ancestral de comunicar-se no tempo, para fazer acontecer alguma coisa em palco, para criar. Tchomanga encarna e cria com uma pulsação central, assente no salto vertical, que é um salto que evoca o poder. E o que Mami Wata nos revela é que o seu poder é gerado a partir da sua vulnerabilidade e em precisar dos outros para manifestar-se. Por isso na “Despedida” desta catarse, a deusa profere:

“Please be well

And all I true love

Is the light in my sister’s darling eyes.”

 

 

Nota: Jini Afonso não escreve ao abrigo do AO90

 

Ficha técnica

Criação e interpretação Betty Tchomanga

desenho de luz Eduardo Abdala desenho de som Stéphane Monteiro

olhar externo Dalila Khatir,

Emma Tricard

consultoria vocal

Dalila Khatir

direção de produção Aoza – Marion Cachan

agradecimento especial Marlene Monteiro Freitas, Gaël Sesboüé,

Vincent Blouch

produção Lola Gatt com o apoio

Endowment Fund of Quartz, national scene of Brest parcerias

Le Pacifique – CDCN of Grenoble, L’Atelier de Paris CDCN, La Gare – Fabrique des Arts en mouvement em Relecq- Kerhuon, Festival La Bécquée – Un soir à l’Ouest, le Cabaret Vauban – Brest patrocínio

SARL SICC Saint-André-de Cubzac

título original Mascarades

Duração 75 min.

Público-alvo a partir dos 12 anos

 

Este projeto recebeu apoio à criação da Cidade de Brest e do Ministério da Cultura – DRAC da Bretanha.

A associação Lola Gatt é apoiada pela região da Bretanha.

 

equipa TNDM II

direção de cena Pedro Leite

operação de luz Pedro Alves

operação de som Rui Antunes, Rui Dâmaso

auxiliar de camarim Carla Torres

produção executiva Rita Forjaz

Jini Afonso formou-se e fez mestrado em Filosofia pela Universidade NOVA de Lisboa, tem uma pós-graduação em Ciências da Informação pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e o mestrado em Curadoria e Crítica de Arte pela University of the Arts London, Chelsea College of Art & Design. Participou em alguns projectos como co-curadora: no Brilliant Sound at Late at Tate, na Tate Britain e One Night Stands Projects (1,2,3) no Wimbledon College, em Londres, e como curadora-assistente: no Project Flags na Kunstfack School of Art and Design, Stockholm, na Berlin Fair of Contemporary Jewellery e no projecto Impressions on Contemporary Jewellery em Nuremberga. Foi directora do Centro de Documentação do INETE, formadora em Comunicação e Gestão da Informação no mesmo instituto e professora de Filosofia e Psicologia em diferentes Escolas Secundárias. Na Índia, fez a sua formação em Yoga na Yoga Vidya School, o Curso de Kundalini na Agama Yoga School e especializou-se em Meditação com Dev Narayan; e na Suíça especializou-se em Yoga Therapy com Doug Keller. Já em Portugal fez a Formação Introdutória à Terapia Somática (Somatic Experience) pela Somatic - Escola de Psicoterapias Corporais, os cursos Diploma e Expert de Hipnose Clínica, Transpessoal e Regressiva, pela Transpersonal Internacional e a Formação do dISPAr, grupo de Teatro do ISPA. Jini é hipnoterapeuta, formadora em Hipnose Clínica, professora de Yoga e Meditação e crítica de Arte. Tem especial interesse pelas teorias das Artes Performativas (com destaque para o Teatro Físico e o Improviso) pelo Psicodrama, as viagens, a poesia e a fotografia.

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