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Daniel Moreira e Rita Castro Neves – Faca na Pedra na Appleton

Até dia 3 de dezembro deste ano, está patente na Appleton, em Lisboa, a exposição de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Faca na Pedra.

A galeria, fundada em 2007, é um espaço independente e sem fins lucrativos que tem como o seu mote promover a divulgação do conhecimento e da prática artística dos nossos dias. A Appleton divide-se no seu interior em três espaços distintos, nomeadamente: a GARAGEM, com uma programação nómada feita pelos músicos Manuel Mota e David Maranha, a BOX “um espaço mais experimental” e a SQUARE, que simula um white cube mais tradicional (porém não menos surpreendente), onde decorre a exposição Faca na Pedra.

Daniel Moreira e Rita de Castro Neves são dois artistas que se encontraram em 2015 após um percurso profissional distinto para formar um caminho comum, que transita entre diversas práticas; como a fotografia, o desenho, o vídeo ou a performance.

Faca na Pedra surgiu a partir do convite da própria galeria Appleton para que os dois artistas realizassem uma residência no espaço durante duas semanas. Uma vez in situ, Moreira e Castro Neves optaram por dar continuidade ao projeto em que trabalham já há algum tempo sobre os mais raros testemunhos do passado do solo continental português: o património arqueológico de Vila Nova de Foz Côa.

 

O Parque Arqueológico do Vale do Côa

Em 1991, quando acompanhava a construção da barragem do Côa, o arqueólogo Nelson Rebanda identificou a primeira rocha gravada (1 da Canada do Inferno) como uma possível amostra de uma figura rupestre na região. Apesar de diversos outros exemplares de figuras similares já terem sido notados por locais, como pastores e moleiros, desconhecia-se popularmente a origem longínqua das tais gravuras. Fenómeno este que se explica devido à viragem tardia no pensamento ocidental em relação às imagens rupestres, que só foram reconhecidas como produções humanas complexas do período paleolítico, graças ao desenvolvimento do método científico nas investigações que atravessaram o século XIX[1].

Tal dificuldade em reconhecer a importância e a origem das figuras, ocasionou nos diversos casos de negligência assistidos nos sítios arqueológicos ao longo da história, como as imensas situações de vandalismo e também pelo excesso de exploração dos sítios com objetivos capitalistas. No entanto, em Foz Côa, durante os cinco anos que seguiram a primeira identificação, especialistas trabalharam de maneira incessante para que o governo português abandonasse a construção da barragem. Uma vez que, caso a barragem fosse concluída, as figuras rupestres seriam permanentemente submersas pela água da represa. Felizmente, em 1996 a obra foi abandonada, e o Parque Arqueológico do Vale do Côa foi criado, com o intuito de proteger o maior conjunto de arte paleolítica ao ar livre do mundo.

 

A dupla de artistas

Daniel Moreira e Rita de Castro Neves apresentam no seu percurso enquanto dupla um grande interesse em questões que permeiam a relação do indivíduo e da sociedade com a natureza e o natural. Através de exposições como a Cortelho, patente no ano passado no Porto que versava justamente sobre o modelo de construção ‘cortelho’, um abrigo em forma de iglu característico da paisagem rural do noroeste português.

No espaço SQUARE da Appleton, a dupla exibe Faca na Pedra, uma exposição sobre o espaço liminal entre o ser e a natureza através de quatro obras que deambulam entre fotografias, desenhos e instalações.

 

A exposição

Como de costume, em exposições de arte contemporânea com um texto de sala denso e invulgarmente grande, que apesar da sua premissa exposta no título “Sobre a magia”, afinal diz muito sobre muitas coisas – e o melhor e mais extraordinário, realmente configura o tom da exposição.

O texto de Susana Ventura apresenta na sua introdução, o momento da ruptura irreparável entre o homem e a natureza, ocorrida na revolução galaico-cartesiana em adição ao inerente esquecimento (ou apagamento) do seu agente intermediário, a figura do mago.

Podendo às vezes também ser nomeado como alquimista, este personagem seria o detentor do conhecimento do poder do homem sobre os elementos naturais. Segundo o texto supracitado, o mago representa a síntese vivente do cosmos, que somente num estado de equilíbrio poderia dominar as forças do conhecimento natural, sem deixar-se levar pelo poder concedido. De acordo com Ventura, é necessário reconhecer a figura do mago e a do seu subsequente abandono na nossa tradição cartesiana, para pensarmos na noção de território apresentada em Faca na Pedra. Que revela através das suas obras, a “atitude de penetração titubeante nos segredos do mistério” em lugares como o Vale do Côa.

A partir das constantes visitas que fizeram ao sítio arqueológico, a dupla concebeu e exibe hoje na galeria as peças Vale, Côa, Animalistas e Cavalo, todas feitas neste ano de 2022. Ao adentrar na exposição, de luzes baixas e focalizadas, o visitante é impactado pela enormidade da instalação Vale, localizada no centro da sala. Após o primeiro impacto, o percurso sugere a apreciação dos doze desenhos da obra Côa, que permeiam o nosso imaginário como uma deambulação do significado das figuras ancestrais, numa série liminal entre a figuração e a abstração. Talvez, o desenho que formaliza um cervo (localizado na parede frontal à esquerda), seja uma das peças da série mais caras para mim. Uma vez que nela, reflete-se na simplicidade dos seus traços, a graça ancestral da percepção, a capacidade de vermos tudo que há no mundo com olhos inocentes.

Por falar em ver, confesso que o detalhe magnífico dos pequenos olhos localizado na direção frontal do Vale à diagonal da sala escapou-me à primeira, no entanto, este novo pormenor gentilmente instigou-me a explorar novamente a instalação central. Desta forma, pude apreciar as linhas esguias dos troncos suspensos no centro do Vale, em menção a arte rupestre móvel, em contraste com a intensidade na frontalidade dos pequenos olhos bestiais que convidaram-me a voltar ao início.

Ali, fui novamente induzida a percorrer um novo caminho, atraída pelo rigor técnico e pela alta qualidade das fotografias animalescas, que me tomaram uns bons longos momentos de apreciação. Quando me dei conta, percebi que estava a faltar uma obra na sala, a quarta e última, Cavalo.

Como as melhores surpresas ficam para o fim, Cavalo surpreendeu-me num rompante e arrancou-me suspiros pela bela aparição. Apesar de ter descrito o percurso ao pormenor até então, guardo esta possibilidade para o visitante, pois o mistério é o que me acendeu o fulgor em relação à obra.

Talvez se eu não estivesse tão imersa nas fotografias, ou se não tivesse voltado ao início, não teria dado tempo ao tempo para ser surpreendida mais do que positivamente pelo trabalho Daniel Moreira e Rita de Castro Neves. Porventura, se Nelson Rebanda não tivesse olhado ao lado e reconhecido uma pintura rupestre, o Vale do Côa sempre teria o seu destino selado pela água, como uma Atlântida que fora castigada pelo homem e não pelos deuses.

Quiçá se os nossos antepassados não tivessem utilizado dos olhares da magia para tentar ver além, ou marcar para o além, nunca pudéssemos ter a chance de experienciarmos a arte no nosso estatuto atual.

É verdade, confesso que sou suspeita em relação ao tema. Pois as pinturas rupestres fascinam-me de maneira inexplicável.

Uma vez que as enxergo como o início de tudo que conheço como Arte. Não por serem os ancestrais das gravações formais, mas sim por representarem a capacidade humana em olhar para o mistério, e pensar sobre o que há além.

Vá com calma e aprecie cada momento oferecido por Faca na Pedra, aceite o abismo temporal que a mesma propõe. Pois uma exposição destas, demanda tempo, e atenção. Abandone a porta da Appleton os quinze segundos dos stories do Instagram, e internalize o tempo da natureza, assim como todo o tempo que as rochas do Vale do Côa tomaram para revelarem a nós, a magia.

 

 

[1] Lewis-Williams, D. (2016). The Mind in the Cave. Thames and Hudson.

Maria Eduarda Wendhausen (Rio de Janeiro, 2000). Licenciou-se em Ciências da Arte e do Património (FBAUL), estudou no Sotheby’s Institute of Art e atualmente é aluna do mestrado em Crítica, Curadoria e Teorias da Arte (FBAUL). Atua como escritora e curadora na cidade de Lisboa, onde reside e versa sobre as marginalidades do cotidiano. Colabora com o Manicómio e habita o Pavilhão31, um espaço conceito único em Portugal onde se exibem artistas do CHPL em diálogo com artistas contemporâneos como Jeff Koons, Pedro Cabrita Reis, etc. Destaca-se ainda a sua última atuação como curadora na ARCOLisboa2022 no espaço do Prémio Arte Jovem Millennium bcp, um projeto Carpe Diem Arte e Pesquisa.

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