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Resistência Visual Generalizada, Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, Anos 1960-80

Linho, algodão, juta e sisal. Cordas, madeira, homens e navios. Conquista, coragem, desespero e invasão. Morte, domínio, exploração e colónia. Ultramar, guerra, independência e vida.

Qual o sentido de exporem-se fotografias numa antiga fábrica de cordas?

Para desvendarmos esta questão, precisamos definir alguns artigos e também alinharmos num único sentido a sequência das palavras dispostas nas linhas acima.

No final do século XVIII, após o terramoto que destruiu a cidade de Lisboa, muitas obras de remodelação e edificações foram iniciadas na cidade. Sob o comando de Marquês de Pombal, os habitantes da porção continental do território testemunharam a criação de diversos novos tipos de estabelecimento que viriam a desenvolver as condições estruturais do império português em constante expansão.

A infraestrutura necessária para suportar tal crescimento, por sua vez, não podia depender dos bens importados de Inglaterra. Facto este que, estimulou a reformulação interna do setor secundário, com o forte incentivo ao desenvolvimento industrial, financiado pela arrecadação de riquezas das colónias ultramarinas. Neste período, vieram a florescer diversos novos empreendimentos na capital, dentre eles a Real Fábrica da Cordoaria, construída a partir da necessidade em suportar a demanda crescente da Esquadra portuguesa com a ampliação e reorganização da Marinha.

Surpreendentemente concluída a tempo, o que não era “vulgar em obras grandes”[1] na época, o edifício da Cordoaria tornou-se uma insígnia do poder central. No entanto, o tempo passa e novas histórias desvelam-se com o correr dos ponteiros. Eventualmente, a necessidade da manufatura do seu produto principal perdeu o seu estatuto inicial, assim como a sua importância dentro de um império em decadência. Com o passar dos anos, o edifício abrigou um colégio para menores infratores, um hospital, passou por dois incêndios comprometedores e ainda foi a sede do Depósito de Tropas do Ultramar e do Instituto Superior Naval de Guerra. Em 1996, o edifício foi classificado como um Monumento Nacional, e consequentemente desativado enquanto fábrica de maneira permanente no ano de 1998. Desde o início dos anos 2000 abriga dentro dos seus corredores longitudinais diversos tipos de exposições. No Torreão Nascente, uma das partes integrantes do complexo predial da Cordoaria é hoje parte das Galerias Municipais, onde já estiveram as exposições retrospectivas de Sofia Areal, José Pedro Croft, assim como a célebre Génesis de Sebastião Salgado e a grande Rapture de Ai Weiwei no ano passado, tornando-se um pilar no circuito expositivo do país.

Patente até o dia 27 de novembro, exibe-se na Galeria do Torreão Nascente, a exposição Resistência Visual Generalizada, Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, Anos 1960-80. Desde 2019, Catarina Boieiro e Raquel Schefer vem a desenvolver uma investigação intensa sobre o potencial político da imagem, no advento dos movimentos de libertação e descolonização das antigas colónias lusófonas do continente africano. A exposição é composta por livros “que compõem um corpus inédito e rico para analisar a história destas longas lutas pela independência”[2].

Esta é a segunda vez que Resistência Visual Generalizada é exibida. No ano passado, em 2021, esteve exposta no Instituto Nacional de História da Arte em Paris. Na ocasião, Raquel Schefer em entrevista ao veículo de imprensa RFI, explicou que:

“Um dos objectivos da exposição é criar uma cartografia das formas visuais e de formas visuais que assentam numa imbricação entre resistência política e resistência estética porque, na altura, se concebia a descolonização num sentido vasto. Ou seja, enquanto processo político e económico, mas também um processo de ordem cultural, estética, cognitiva. Teria de haver, segundo a visão daquele período, uma descolonização cultural, cognitiva, pedagógica”[3]

O MPLA, FRELIMO e o PAIGC foram movimentos de libertação política e social que tiveram papel ativo no processo de descolonização de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde no período correspondido entre os anos 60 e 80. Neste contexto, foram produzidos livros de fotografias e documentos anticoloniais que desenvolveram funções cruciais na luta pela resistência. Estes, exibem-se ao lado de produções de fotógrafos, jornalistas e cineastas estrangeiros, em confronto com obras e lutas políticas do nosso presente com os artistas Daniel Barroca, Welket Bungué, Silvestre Pestana, Filipa César e Sónia Vaz Borges.

O jornal, a revista, os livros e as imagens podem ser entendidos como instrumentos para a mobilização e o apoio da população. De acordo com Amílcar Cabral, fundador do PAIGC, partido responsável por iniciar a marcha para a independência de Cabo Verde, a luta da libertação é em si mesma um “facto cultural” e um “fator de cultura”.

Resistência Visual Generalizada, Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, Anos 1960-80 busca traçar paralelos entre as produções das imagens e a sua responsabilidade intrínseca em libertar. A partir do passado ainda presente nos diversos processos de independência o qual experienciamos e que ainda vivemos nos dias de hoje.

As imagens produzidas pelos habitantes dos territórios que hoje entendem-se como Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Brasil, Macau e Portugal carregam consigo fatores indissociáveis. Por causa de uma grande trama de linhas narrativas que se cruzam no coração da problemática lusófona, o colonialismo.

Neste emaranhado de contextos, uma exposição de fotografias nunca terá o seu significante ileso do passado, assim como uma fábrica de cordas nunca poderá ser somente uma manufatura qualquer. São imagens complexas, muitas vezes terríveis e assombrosas, que gozam da coincidência do destino e promovem novas conversas a respeito desta grande cama de gato de ligações.

Esta não é mais uma exposição de fotografias numa antiga fábrica de cordas. É a exposição da imagem da decolonização no local da manufatura do produto que possibilitava o alcance ultramarino.

O sentido de Resistência Visual Generalizada é apontar para o futuro enquanto desatam-se os nós feitos pelo colonialismo.

 

 

 

 

 

[1] José Pedro Ferraz Gramoza, Sucessos de Portugal— Memórias históricas, políticas e civis, apud Manuel Jacinto Pereira, Subsídios para a História da FNC— Proposta para a construção da Fábrica Nacional de Cordoaria, nº 13, janeiro de 1972.

[2] Resistência Visual Generalizada – Livros de fotografia e movimentos de libertação: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, anos 1960-80 – Temporada Portugal-França 2022. (s.d.). Temporada Portugal-França 2022. Resistência Visual Generalizada – Livros de fotografia e movimentos de libertação: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo-Verde, anos 1960-80 – Temporada Portugal-França 2022

[3] Branco, C. (2021, 24 de novembro). Em directo da redacção – Paris expõe “resistências visuais” das lutas de libertação. RFI. https://www.rfi.fr/pt/programas/em-directo-da-redacção/20211124-paris-expõe-as-resistências-das-lutas-de-libertação

Maria Eduarda Wendhausen (Rio de Janeiro, 2000). Licenciou-se em Ciências da Arte e do Património (FBAUL), estudou no Sotheby’s Institute of Art e atualmente é aluna do mestrado em Crítica, Curadoria e Teorias da Arte (FBAUL). Atua como escritora e curadora na cidade de Lisboa, onde reside e versa sobre as marginalidades do cotidiano. Colabora com o Manicómio e habita o Pavilhão31, um espaço conceito único em Portugal onde se exibem artistas do CHPL em diálogo com artistas contemporâneos como Jeff Koons, Pedro Cabrita Reis, etc. Destaca-se ainda a sua última atuação como curadora na ARCOLisboa2022 no espaço do Prémio Arte Jovem Millennium bcp, um projeto Carpe Diem Arte e Pesquisa.

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