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É na Terra não é na Lua[1]

Terra é o chão que pisamos e escavamos, para conhecer e criar a memória, desocultar a ruína, extrair e subtrair. Terra é o lugar onde pertencemos; de onde vimos. Terra é um território circunscrito. Terra é o terceiro planeta a contar do sol e é também o mote para a edição de 2022 da Trienal de Arquitetura de Lisboa.

Para uma melhor contextualização, a Trienal é um fórum que se realiza a cada três anos para debater um tema, ou conjunto de temas, tratando a disciplina da arquitetura além do seu caráter formal e construtivo (que é relativo à construção).

A primeira edição aconteceu em 2007, com a curadoria de José Mateus, atual presidente e o motor da associação cultural, e debateu os Vazios Urbanos. Os não lugares e terrenos vacantes como vocábulos de um texto chamado cidade. Seguiu-se Falemos de Casas, comandada por Delfim Sardo em 2010 e orientada para um inquérito nacional à morada e aos modos de habitar contemporâneos. Expandiu horizontes e em 2013 trouxe Beatrice Galilee para Close, Closer. A curadora procurou uma abordagem e pensamento crítico contemporâneo apelando ao fazer – à ação. Possivelmente foi com a curadora que a Trienal ganhou a voz e a projeção internacional.  Em 2016, a curadoria foi bicéfala. André Tavares e Diogo Seixas Lopes põem a cidade a falar da Forma da Forma. Um debate sobre o modo como o mundo se transforma através da arquitetura, trazendo a Lisboa múltiplos discursos sobre os seus sentidos e significados. Éric Lapierre assume a curadoria em 2019 para nos falar da Poética da Razão. A arquitetura é talvez umas das disciplinas que mais oscila entre os domínios da ciência e dos alicerces da física das construções; e a poética da vida nos espaços, em diálogo com quem a habita. O arquiteto e curador quis desmistificar a linguagem ou o linguajar e os gestos próprios da universalidade da disciplina – talvez não o tenha exatamente concretizado.

À sexta edição, a trienal volta-se para casa, o tal terceiro planeta a contar do sol, e mostra-se à cidade em quatro exposições nucleares para apontar direções de futuro(s). Cristina Veríssimo e Diogo Burnay são os maestros desta nova edição, levando para a mesa das negociações temas como a urgência das alterações climáticas, a sustentabilidade e a ecologia nos modos e meios de fazer e pensar projeto.  Quatro exposições marcam o evento, em torno das quais orbita um programa complementar com projetos independentes. Projetos esses que são o resultado de uma chamada de propostas e trabalhos autofinanciados, que são bem vindos, mas ficam ainda muito dentro dos limites de Lisboa urbana, pouco suburbana e ainda menos metropolitana. Além disso, três dias de conferências e quatro livros, que há semelhança de outras publicações da Trienal não são catálogos, mas sistematização de conhecimento(s).

“Alunando” na Culturgest. Visionárias, são visões de futuro e outras perspetivas de pensar e projetar. São ainda estratégicas retro-revisitadas. Anastasia Smirnova, a curadora desta exposição, com o irrepreensível desenho expositivo de Bureau, instala uma cortina opaca que dança pelo espaço, escondendo e revelando, ocultando e desvelando. Um brainstorming de diferentes pensamentos que encaramos como protótipos e modelos de verdade orientados para um futuro-mais-que-perfeito, ou para a simples salvaguarda do futuro-simples. Dividida em três seções, ou capítulos: Monovisões, Pensamento Catedral e Futurologia no Íntimo, a exposição é uma narrativa que se estrutura entre a escala do indivíduo e do coletivo. Resgata figuras do passado com visões de futuro e sublinha outros fluxos contemporâneos.

Multiplicidade na Galeria Millennium bcp (Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado) assenta na ideia de que grande parte do planeta se transforma (talvez constrói, ainda não atingimos o momento da transformação neste Antropoceno) sem um projeto de arquitetura; sem um técnico especializado. As arquiteturas informais, ou sem arquiteto são a resposta imediata ao crescimento desenfreado das cidades, à sobrepopulação, alimentando ainda mais as desigualdades, as tensões e por consequência os conflitos. Não são geradoras desses conflitos, são a resposta possível à inércia da disciplina. De que modo a Arquitetura se pode reinventar na construção? Com curadoria de Tau Tavengwa e Vyjayanthi Rao, Multiplicidade procura inventariar e documentar soluções e respostas. Os curadores propõem no espaço expositivo um arquivo de conhecimento lido, que pode ser assistido e transportado para ser ouvido – uns totens prismáticos fazem as delícias dos curiosos. Esta, das quatro exposições, talvez seja aquela pensada para ser itinerante e informativa. Por concretizar ficou a biblioteca pública e comunitária numa qualquer praça do município de Lisboa, ficamo-nos pela maqueta na exposição do projeto BookWorm Pavilion do gabinete Nudes.

Retroactivar no MAAT – Central Tejo, com curadoria de Loreta Castro Reguera e José Pablo Ambrosi, assenta a tónica nas comunidades que habitam as múltiplas-cidades que cabem dentro de uma metrópole, nos lugares marginalizados, nos territórios quebrados e nos 99% da população global que mais precisa de um arquiteto. Não da assinatura de um autor de projeto de arquitetura, mas do conhecimento de um técnico e coordenador. São apresentadas propostas e intervenções de arquitetos e não só; organizações de indivíduos formadas pela necessidade comum de solucionar ou projetar melhores futuros.

Ciclos, na Garagem Sul, o braço da arquitetura no CCB, desperta e consciencializa para o desperdício e a acumulação de materiais num edifício que ora se constrói, reabilita e destrói, para dar lugar a um novo, no mesmo sítio e com novíssimas matérias. “Os arquitectos que nunca deitam nada fora” poderia ser o nome para um repositório de materiais – e numa pesquisa rápida percebemos que é um nicho de negócio a explorar no país, que pode e deve ir além dos azulejos. Pelo contrário, a frase é a divisa e o subtítulo que os curadores Pamela Prado e Pedro Ignacio Alonso usam para explicar a quem visita a exposição que cada edifício tem um ciclo de vida e é composto por materiais com ciclos próprios de extração e transformação com real impacto no planeta. Afinal, a indústria da construção continua a ser uma das mais poluentes do mundo e a origem, o transporte e a transformação dos materiais que compõem o desenho final, têm um grande impacto nessa taxa. Destaque ainda para as várias intervenções de artistas subjacentes ao tema. Por responder ficam os benefícios da economia e a futurologia dos materiais a usar nas próximas eras.

Cristina Veríssimo e Diogo Burnay extrapolam os limites da arquitetura para o vasto campo da sociedade civil. Os arquitetos aterraram em Lisboa com o objetivo de questionar como a arquitetura e a forma como construímos e habitamos as casas, as cidades e o território, tem um sério impacto no processo de preservação dos ecossistemas e da biodiversidade. O campo das ideias pode ser na lua, mas o campo de ação urge que seja na terra. Enquanto aguardamos o eco desta trienal, podemos visitar Visionárias até 4 de dezembro; Multiplicidade até 8 de janeiro de 2023; Retroactivar até 5 de dezembro e Ciclos até 12 de fevereiro de 2023.

A Trienal de Arquitetura de Lisboa decorre até 5 de dezembro.

 

[1] É na Terra não é na Lua – título de documentário de Gonçalo Tocha sobre a ilha do Corvo, Açores, 2011.

Frederico Vicente (Lisboa, 1990) mestre em arquitetura (FA-UL), investigador e curador independente (pós-graduado na FCSH-UNL). Em 2018 funda o coletivo de curadoria Sul e Sueste, plataforma que pretende ser charneira entre arte e arquitetura, território e paisagem. Tem colaborado regularmente com o INSTITUTO, no Porto, cruzando diferentes disciplinas, de onde se destacam exposições como “How to find the centre of a circle” de Emma Hornsby e “Handmade” de Ana Paisano. Recentemente foi curador da exposição “Fleeting Carpets and Other Symbiotic Objects” de Tiago Rocha Costa, no AMAC, Barreiro. A atividade profissional orbita sobretudo em torno das múltiplas ramificações da arquitetura.

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