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Selva: Cristina Lamas e Francisca Carvalho na Brotéria

A selva, enquanto ecossistema, é caracterizada como um lugar onde existe a maior biodiversidade do planeta Terra. De vegetação densa, as selvas são florestas húmidas presentes nas zonas equatoriais e tropicais. São símbolo da vida, apresentam-se como paraísos impenetráveis que pertencem ao mundo natural, longe de centros urbanos, de poluição sonora e visual. É um lugar distante, onde as tranquilizantes faixas de luz que penetram pela densa vegetação, reclamam o sonho e o sublime.

Na Brotéria, a escadaria principal do edifício (Palácio dos Condes de Tomar) foi ocupada por Selva, uma instalação site-specific concebida por Cristina Lamas e Francisca Carvalho, que contou com a curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues. Esta escadaria, torna-se num lugar de partilha entre duas artistas que combinam os seus métodos, técnicas e conhecimentos. O cariz orgânico e natural de Selva opõe-se ao rigor clássico deste edifício do século XVI. Os relevos de estuque que decoram as paredes e teto do edifício, respiram agora a leveza desta instalação, tornando as escadarias do Palácio dos Condes de Tomar num lugar de encontro entre o passado e o presente.

O processo de Selva, passou por cortar inúmeros retângulos de tecido e tingi-los com pigmentos naturais. Posteriormente, foram costurados uns aos outros, formando uma única peça têxtil de grandes dimensões. Com diversas variações da cor verde que aludem a diferentes vegetações, cada secção da obra tem as suas particularidades. Este corpo têxtil que dá origem a Selva, encontra-se suspenso, levitando por entre a verticalidade da escadaria. A configuração da instalação e as direções que o tecido percorre, tiram partido da luz que atravessa a claraboia do edifício (fonte de iluminação de toda a escadaria). Há momentos em que o caminho tomado pelo tecido ofusca a luz que vem da claraboia, enquanto noutros, a luz atravessa as diferentes saliências da composição. O percurso faz-se entre o encontro e a descoberta, onde os momentos de luz e escuridão, inundados pelos diferentes tons de verde, lembram uma densa floresta húmida.

Não há um itinerário. Subindo ou descendo, em cada degrau a leitura da obra é diferente. Cada patamar dá-nos gradualmente uma nova perspetiva sobre a composição. Este enorme lençol flamejante, parece possuir uma estrutura invisível que possibilita a sua flutuação e as diversas contorções que apresenta.  O tecido desenha-se no ar, tomado por um espírito que o levita, criando um ambiente imersivo e misterioso.

O verde enquanto cor, sugere consciência ecológica e preocupação com a vida orgânica do planeta. Por outro lado, é uma cor que afeta o corpo, baixando a pressão sanguínea e dilatando os vasos capilares. Produzindo um efeito repousante, o verde é usado contra a insónia e a fadiga[1]. Selvalembra-nos assim da importância de permanecer em contacto e equilíbrio com a natureza.

Selva gravita sobre nós. É uma composição envolvente e grandiosa, onde nos sentimos pequenos e jovens, capazes de nos perdermos na imaginação.

A instalação Selva pode ser vista na Brotéria até ao dia 11 de novembro de 2022.

 

[1] Huyghe, René. “Color and the Expression of Inner Time in Western Art”. In Ottman, Klaus, org. 2005. Color symbolism: The eranos lectures. 2nd ed. Woodstock, GA, USA: Spring Publications. Pág.38

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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