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Factory of Disposable Feelings: Edson Chagas no Hangar

Na sua segunda exposição individual em Lisboa, Edson Chagas (Angola, 1977) apresenta a série fotográfica Factory of Disposable Feelings no Hangar – Centro de Investigação Artística, que se centra na história coletiva e na memória individual em volta da Fábrica Irmãos Carneiro em Luanda, Angola: um símbolo de um país marcado pelos vestígios do período colonial.

A Fábrica Irmãos Carneiro, situada no bairro de Cazenga em Luanda (Angola), e fundada durante o período colonial, tratava da produção de materiais têxteis como lençóis, fraldas ou uniformes militares. Após a independência de Angola em 1975, continuou a trabalhar até 2002 enfrentando as várias fases da Guerra Civil. A fábrica foi parcialmente abandonada, não resistindo à inundação da indústria têxtil chinesa e ocidental que invadiu Angola num período mais recente, marcado pelo capitalismo e pela globalização.

O que resta deste legado são as pessoas, os donos deste espaço, mas principalmente, os seus antigos trabalhadores, que aqui se tornam protagonistas de um trabalho fotográfico marcado pelo diálogo, pela partilha de memórias e sentimentos em relação a um lugar abandonado. Edson Chagas, à semelhança de um antropólogo, realiza nesta fábrica o seu trabalho de campo durante dois anos (entre 2017 e 2018), descobrindo as memórias das pessoas que se relacionaram de perto com este lugar, e os sonhos que ficaram por cumprir. O resultado desse trabalho é uma série de fotografias que contemplam o interior e o exterior do edifício, onde num olhar demorado e atento, o artista usa o close-up como lupa de investigação.

Começamos pelo interior do edifício, onde de imediato a imagem capta a destruição e o abandono. Num primeiro conjunto de fotografias, realça-se os detalhes da passagem do tempo: teias de aranha invadem as paredes e os materiais; o pó inunda as entranhas das máquinas e das linhas que ficaram por usar; vemos pilhas de sacos com materiais e tecidos. A lente da máquina fotográfica não receia em se aproximar dos objetos, da sujidade, da ferrugem, do pó. A procura por matérias, formas e texturas é constante. O close-up transforma os objetos em imagens quase abstratas, marcadas pela geometria das matérias, da cor e da poeira.

Num outro conjunto de imagens, evidencia-se as estruturas estagnadas desta fábrica. Vemos estantes cobertas por panos, materiais empilhados ou móveis degradados. Ao fim da primeira parede, o foco centra-se no exterior do edifício, onde fica em evidência a sua arquitetura e geometria. A fachada desta fábrica também é alvo de degradação, nas paredes a pintura escama, e o chão torna-se local de ajuntamento de resíduos, materiais descartados e até mobília. A fragilidade do edifício sobressai, tanto pelo seu interior como pelo exterior deteriorado. Ainda assim, a fábrica permanece de pé, suportando os sonhos e as expetativas de quem por lá passou.

Os objetos e as máquinas têm um destaque importante, quase como se neles ainda sobrevivessem os desejos de quem lá trabalhou. Numa outra imagem, um tear, e as bobinas de linhas de diferentes cores que parecem ter sido acabadas de posicionar, esperam o movimento de mãos humanas. Entretanto, o tempo passa, os corpos afastam-se e a poeira instala-se. Estes objetos carregam uma memória afetiva, respiram o passado, mas também o presente. A fotografia torna-se também num arquivo documental que ilustra os fracassos da indústria e do comércio de um país que ficou em suspenso.

Edson Chagas ressuscita as experiências da Fábrica Irmãos Carneiro, carregando no corpo as memórias de quem lá trabalhou enquanto caminha pelos espaços que fotografa. E com um olhar desacelerado, mostra-nos um retrato afetivo sobre um lugar do presente angolano, marcado ainda pelo peso da colonização portuguesa.

A exposição Factory of Disposable Feelings de Edson Chagas está patente no Hangar – Centro de Investigação Artística até ao dia 12 de novembro de 2022.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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