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Carlos Nunes: Abasedotetodesaba na 3+1 Arte Contemporânea e Proncovô na Appleton Square

Carlos Nunes (São Paulo, 1969) apresenta em Lisboa duas exposições individuais que incentivam um jogo especulativo com o espetador. Entre a escultura, a instalação, desenho ou gravura, o artista apresenta-se com um cuidado artesanal, fazendo uso de uma mistura alquímica dos materiais. ABASEDOTETODESABA na 3+1 Arte Contemporânea e Proncovô na Appleton Square, complementam-se, quase como extensão uma da outra para a compreensão da natureza diversa do trabalho de Carlos Nunes.

Na 3+1 Arte Contemporânea a dualidade dos objetos sente-se de imediato. Na entrada da galeria, a direção dos ventos podia ser decifrada por Biruta (2022), onde um bloco de pedra em bruto estabelece-se como base do objeto escultórico e uma bola de ping-pong serve de indicador de um possível movimento. Adiante, vemos a obra GOD DOG / DOG GOD (2021-2022), composta por três elementos, uma matriz em madeira onde foram gravadas as palavras ‘Dog’ e ‘God’, e duas impressões em papel da primeira imagem. A transferência resulta na leitura correta da imagem que se torna acessível quando transmitida da madeira para o papel, um processo próprio da gravura. A obra faz parte da série palíndromos, que compromete palavras, grupos de palavras ou números que se leem da mesma maneira da esquerda para a direita ou vice-versa. Desta série, o artista aplica a mesma regra a objetos semelhantes: em OMISSISSIMO (2022) a composição faz-se com duas bolas de ping-pong de cores diferentes, colocadas nas extremidades de um estreito pau de madeira. Carlos Nunes faz-nos olhar para as palavras e objetos de uso comum de forma desafiadora, reposicionando o seu significado ou função.

O nosso caminho é interrompido por Pipa (2022), um objeto feito em papel de seda e linha que faz alusão aos papagaios de papel (no brasil a palavra ‘pipa’ refere-se a este brinquedo infantil). De amarelo vibrante, este papagaio sente o sopro produzido pelo nosso corpo, manifestando a nossa presença com movimentos irregulares. Logo de seguida, um barrote de pinho com quase quatro metros de comprimento tenta alcançar o teto da galeria. É a peça que dá nome à exposição, um título que também é um palíndromo. Em ABASEDOTETODESABA (2022) a obra lê-se de baixo para cima enquanto os olhos tentam chegar ao seu cume, mas o olhar segue instintivamente de novo para baixo de volta à base que assenta no chão. O barrote é uniforme e vertical, e se o conseguimos ler em ambos os sentidos, o mesmo acontece com a palavra que lhe dá título. Se a base do teto desabar, o barrote parece estar aqui para o segurar.

Antes de passarmos para o piso inferior da galeria, Carlos Nunes apresenta Comprimido (2021) uma série composta por vinte e duas fotocópias que mostram diversas composições feitas com comprimidos. As imagens foram dispostas em constelação, formando um aglomerado de comprimidos de diferentes cores e tamanhos que se elevam sobre um fundo preto, como simulando um céu noturno. A nossa perceção reposiciona-se, passando do macro para o micro, imaginamos tanto micro-organismos como imagens planetárias.

Descendo para o segundo piso, vemos Infinito (2022), uma escultura de cartão que esconde o seu interior, deixando em anseio a nossa visão por não conseguirmos ver o interior pintado a preto (como sabemos pela legenda da obra). A sua forma é-nos estranha, e circular à sua volta torna-se difícil devido à dimensão do espaço e da obra. Aqui o jogo especulativo lançado por Carlos Nunes intensifica-se. Por fim, voltamos à série palíndromos com OCO (2021-2022), composta por treze obras alinhadas linearmente na parede que mostram diferentes variações da palavra que dá título à obra. Apelando à geometria da palavra e da composição, o artista trabalha diferentes tipografias com diversas cores, papéis e materiais de colorir. Os papéis de diferentes texturas e padrões de quadriculado, parecem ter sido arrancados de vários cadernos, mostrando que a ação de explorar a palavra se prolongou no tempo e no espaço.

Em ABASEDOTETODESABA, os palíndromos são o grande destaque, numa exposição onde a arte contemporânea se constrói com objetos e materiais do quotidiano.

A Pipa que vimos na 3+1 Arte Contemporânea multiplica-se agora em Proncovô na Appleton Square, onde a galeria se rende ao universo dos papagaios de papel. O espaço expositivo parece um céu aberto, colorido, decidido a receber as inúmeras mensagens que o artista lança pelos diferentes cantos da galeria. Proncovô, o título da exposição, é uma expressão típica de Minas Gerais que significa “pra onde que eu vou”[1].

São treze obras que compõem Proncovô, suspensas ao teto ou à parede por finas linhas de cores vibrantes (em verde, laranja ou rosa). Os papagaios de papel servem de modelo para as composições. Feitas em papel de seda, a inspiração nasce na estrutura habitual deste brinquedo, e os fios envolta das margens do papel funcionam como esqueleto da obra. O ambiente é leve e aéreo, e as linhas que agarram os papagaios, atravessam o espaço e vão delineando o percurso expositivo, juntamente com a posição de cada obra. As composições são feitas sobre papéis coloridos (azul, verde, amarelo, laranja, magenta, mas também preto e branco), compostas por retalhos geométricos, lembrando as pinturas abstratas de Josef Albers.

A origem dos papagaios de papel data ao ano 1200 a.C na China. É um objeto que antes de se tornar popular entre as crianças, nasceu como dispositivo de sinalização militar, tirando partido do movimento e da cor para a transmissão de mensagens à distância. Em Proncovô, as pipas são expostas na parede ou saindo dela, em esquinas, suspensas ao teto ou junto ao chão, e a forma de as exibir parece aludir ao ambiente vivenciado pelo artista, que pertence a uma cultura onde os papagaios de papel têm uma grande importância a nível iconográfico. No Rio de Janeiro, os papagaios de papel são tão comuns nos bairros mais distantes do centro da cidade, que chegam a ser responsáveis por cortes de energia, que acontecem por as linhas se enrolarem nos cabos de eletricidade.[2]

É uma exposição que voa, as obras flutuam e são sensíveis à ventilação do espaço e dos corpos. O ambiente é atmosférico, leve e colorido. É de notar que certas linhas não têm qualquer papagaio a si agarradas, suspensas ao teto caem ao chão sem o amparo do papel, marcando a ausência de um papagaio que se soltou ou que está por construir. Carlos Nunes exalta também o saber artesanal e, novamente, a economia de meios, utilizando materiais comuns para compor uma linguagem muito própria.

Em ABASEDOTETODESABA a dicotomia está presente na maior parte das obras, com várias possibilidades de leitura, o sentido e direção do significado estão em constante reposicionamento, como se alterados pela velocidade a que os ventos mudam de destino. Já em Proncovô, o vento leva-nos para um ambiente de extrema leveza, onde os papagaios de papel pairam numa composição marcada pela cor, a geometria e o movimento. Em ambas as exposições, é a poesia do quotidiano que serve de motor para a criação artística.

Proncovô de Carlos Nunes está patente na Appleton Square até ao dia 20 de outubro, e ABASEDOTETODESABA na 3+1 Arte Contemporânea até ao dia 5 de novembro de 2022.

 

Nota editorial: Abasedotetodesaba, de Carlos Nunes, integra um protocolo de intercâmbio assinado pela galeria portuguesa 3+1 Arte Contemporânea e a galeria brasileira Raquel Arnaud. Um entre nós, de Nuno Sousa Vieira, é a outra exposição que resulta deste protocolo, patente até 4 de novembro na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo.

Se em Abasedotetodesaba Nunes investiga o esvaziamento e as fragilidades dos tempos atuais, em Um entre nós, Sousa Vieira ressalva a prática artística como algo que encerra em si mesma as bases para uma vivência igualitária e desierarquizada, em que frente e verso, cheio e vazio, dentro e fora são o mesmo indivisível das obras e das produções artísticas – longe, todavia, de uma tendência ilustrativa ou ilustradora.

 

[1] Informação disponível na folha de sala da exposição Proncovô.

[2] “Pipas derrubaram a energia em mais de 210 mil residências no RJ em 2022, diz concessionária.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/06/21/pipas-foram-responsaveis-pela-queda-de-energia-em-mais-de-210-mil-residencias-no-rj-em-2022.ghtml

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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