Top

Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino: Musex – Museu Pedagógico do Sexo

Chegamos ao Palácio Anjos, para ver a exposição Amor Veneris, com curadoria de Marta Crawford e Fabrícia Valente. Entramos no amplo edifício que nos oferece dois caminhos possíveis. De um lado desenvolve-se um percurso difícil de amor não consentido, do outro uma viagem aos sentidos e ao imaginário feminino do amor consentido.

É clara a diferença entre estes dois percursos. No trajeto da exposição sem consentimento são abordados temas muito difíceis, as mutilações genitais femininas, o assédio sexual, as violações, a violência doméstica.

Do lado do núcleo “com consentimento”, somos surpreendidos pela variedade de estímulos, de sentidos, de histórias, de narrativas. Aí podemos ver, no que diz respeito ao prazer sexual feminino, uma exposição dividida em vários temas tratados com sensibilidade pedagógica. Cérebro, Pele Clitóris formam os itens principais da exposição. O Cérebro comanda o desejo, nos domínios biológico, psicológico e social. Depois, a Pele, o maior órgão humano, com dimensões de cerca de 2 metros quadrados e dotado de bastas terminações nervosas, compreende também o maior suporte de experiências sensoriais, além do órgão sexual feminino propriamente dito.

Por fim uma parte da exposição é dedicada ao Clitóris, o órgão sexual feminino que tem como única função dar prazer à mulher.

A exposição é grandiosa em obras de arte quanto o é de dimensão. Houve, por parte da curadoria, a preocupação em garantir, dada a sensibilidade do tema, a subtileza da abordagem. Em toda a exposição encontramos altas e suaves cortinas, aveludadas no tato, que vão atenuando as transições abruptas entre as peças presentes, por vezes de uma imagética forte. Existem temas sensíveis que não se podem presentificar de modo cru. Para os vermos teremos que fazer a nossa parte e irmos à procura. A atitude do visitante é mesmo de descoberta, assim como o é o caminho da própria sexualidade. Para Fabrícia Valente a “exposição é claramente pensada para ser uma experiência pedagógica”, mas com isso não significando que tenha que ser uma exposição de trajeto linear ou unidirecional.

É um percurso que pode ter diferentes trajetos. Tantos quantos os sentidos permitirem encontrar. O lay out da exposição ficou a cargo do atelier de arquitetura Os Espacialistas, por isso é claro o envolvimento dos arquitetos no projeto. Mal entramos no espaço somos acometidos por um desenho arquitetónico interior irreverente que nos faz alhear da própria anatomia do palácio. O atelier de arquitetura cria novas estruturas de modo a responder às narrativas presentes na exposição. As altas cortinas que vão divisionando o espaço das obras reporta-nos para, ao mesmo tempo, a intimidade dos lugares privados onde, o olhar do voyeur vai afastando os panejamentos. Afastando ou cobrindo, num gesto repetitivo, num exercício de pudor e despudor, que acompanhou a pintura durante séculos. Os vestidos que as criadas procuram na arca para vestir a mulher nua na obra de Ticiano, Vénus de Urbino, 1538, é disso um exemplo.

Ou a obra Maria Madalena, 1535, do mesmo pintor, onde a santa cobre o corpo com os seus longos e ondulantes cabelos, mas, ao mesmo tempo, deixa revelar uns fortes e erotizantes seios.

Há todo um exercício permanente, na pintura, de revelar e deixar revelar que se pode transportar para o modo como se experiência a própria exposição Amor Veneris.

A obra de Julião Sarmento presente na exposição, Déjà Vú, reporta para este jogo de sedução.

A preto e branco vemos a reprodução da mesma Vénus de Urbino, não já adormecida, como na Vénus de Giorgione, mas com o olhar direcionado para o espectador, neste caso para quem, do lado de fora, observa a figura nua. O seu olhar não parece ter sido surpreendido pelo voyeurismo “sem consentimento” do personagem para quem a obra foi pintada, mas antes um olhar que confirma as cumplicidades dos amantes, a partilha recente de intimidade.

O que mais impressiona o observador desta obra magnífica de Ticiano é tomar consciência da intimidade em que é convidado a tomar parte – a intimidade partilhada – colocando-o no lugar do amante, e, ao mesmo tempo, de quem observa, tomando consciência também da presença das criadas e de como a figura feminina, numa pose vulnerável, parece não ter grande alternativa senão conformar-se com as regras da sociedade.

A pintura de Ticiano convoca ao pensamento da arte como lugar que incessantemente serviu o patriarcado. A mulher nua, na pintura, era retratada para agradar o homem, ela apresentava-se para o servir, e em simultâneo, criava dentro de si esse ato crítico de se julgar a si mesma, de modo a apresentar-se conforme o homem desejaria.

Em suma, a mulher nua representada por tantos pintores, e não só pelo respeitoso mestre Ticiano, como  podemos ver na Olímpia de Manet, na Hélène Fourment de Rubens,  na Vénus e Cupido de Bronzino, na Grande Odalisca de Ingres, apresenta-se ao observador como oferenda, como figura que se entrega sem grande oposição, num imaginário masculino de um consentimento sem haver de facto consentimento, como em imagens de mulheres que existem para serem vistas, olhadas pelo espectador, tornando-se, como diria John Berger, em objetos, ou montras. E há nessa passividade da mulher representada, ainda em Berger, um papel de mulher que se faz mostrar, que se faz apresentar, imbuída da sua passividade, ao contrário do homem que atua, o homem que age.

Esta relação unilateral do prazer está bem explicada neste autor, sobretudo quando, na obra Ways of Seeing nos diz: “O homem atua, a mulher aparece. O homem olha para a mulher. As mulheres olham para si mesmas a serem olhadas. Isto determina não só a maior parte das relações entre homens e mulheres mas também a relação das mulheres com elas próprias”.

A instalação Lipslick, da artista Janine Antoni, apresenta batons de chocolate. Parece ilustrar, de forma eloquente, este pensamento. Os batons servem para embelezar a mulher, e tratam-se de instrumentos que potenciam o desejo. Porém, perguntamos, qual será o maior prazer para as mulheres? Tornarem-se desejáveis, de tal forma, que o batom passa a ser justamente esse instrumento de prazer?

A instalação de Ana Pérez-Quiroga parece ser uma simulação de um bar ou um local de encontro. Em todo o espaço interior domina a cor. A luz, provocada pelas palavras em néon aparecem afixadas nas paredes, com mensagens de sedução e amor. Existe uma cama, redonda, que parece evocar o amor consentido e o diálogo entre duas pessoas. Nele cabe a alegria, a sedução, longe da dominação, longe da competição. Apenas existe a oportunidade para duas pessoas, de uma forma livre e espontânea, se conhecerem e desejarem. As paredes da instalação/habitáculo, de nome ¡No te vayas! são impressionantes, pelos padrões de papel de parede que sugerem. Recordando uma certa feminilidade das decorações feitas pelas mulheres no pós-guerra do século passado, porém num contexto que já não significam uma dominação masculina.

A exposição contempla dois manifestos, o manifesto sem consentimento e o manifesto com consentimento. Acompanhados por desenhos de Isabel Baraona.

A exposição Amor Veneris compreende, assim, um corpo de artistas de relevo, que apresenta as suas narrativas entrosadas, e de modo pertinente na exposição, são eles: Alice Geirinhas, Álvaro Leite Siza, Ana Mendieta, Ana Rito, Annette Messager, Clara Menéres, Ernesto de Sousa, Fátima Mendonça, Fernanda Fragateiro, Inês Norton, Jamie McCartney, Janine Antoni, Julia Pietri- Gang du clito, Julião Sarmento, Laure Prouvost, Louise Bourgeois, Lourdes Castro, Maria Beatriz, Maria Souto de Moura, Marta María Pérez, Noé Sendas, Paula Rego, Polly Nor, Sara Maia, Sophia Wallace, Sue Williams, Susana Mendes Silva e Teresa Crawford Cabral. Além das obras inéditas de Ana Pérez-Quiroga, Ana Rocha de Sousa, Error-43, perfumista Cláudia Camacho, d’Os Espacialistas, entre outros: Lori Malépart-Traversy, Rachel E. Gross, Rankin & Trisha Ward, Daphné Leblond & Lisa Billuart Monet e Erika Lust.

Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino, está patente no Musex – Museu Pedagógico do Sexo, Palácio Anjos, até 30 de dezembro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)