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O Efeito Dominó e o Prémio Arte Jovem

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze e doze.

Imagine uma sequência de peças a moverem-se com a força das anteriores, como num grande efeito dominó de acontecimentos. O fator responsável por determinar a causalidade destes eventos em cascata pode caracterizar-se por uma simples mudança de paradigma, ou muitas vezes por um agente de proporções colossais. Seja este agente grande ou pequeno – como o toque de um dedo numa superfície plana, o reagente desta combustão será sempre o responsável direto pelo movimento de todas as peças, desde o deslocamento da primeira, até a queda (ou neste caso a ascensão) da última.

O Carpe Diem Arte e Pesquisa é um projeto de arte contemporânea fundado em 2009 que promove um programa expositivo de atividades culturais composto por artistas nacionais e internacionais direcionado para os diferentes públicos. O CDAP organiza o Prémio Arte Jovem, que teve a sua primeira edição há seis anos em Lisboa, no outono de 2016. Neste ano de 2022, a exposição do Prémio Arte Jovem Millennium bcp estará patente até o dia 15 de outubro no Pavilhão 31 do CHPL, também na capital portuguesa.

Os concursos atuais que envolvem a atribuição de prémios são o desenvolvimento de uma tradição que remonta a Antiguidade Clássica, anteriormente direcionados principalmente para os autores dramáticos[1], quando muitos eram organizados em honra religiosa à Dionísio[2]. Em Atenas durante o século VI a.C., assim como verificado pelo teórico James English, os festivais culturais e os concursos já faziam parte da agenda anual da sociedade ateniense. Eventos estes que serviam como uma plataforma para as relações públicas entre os mecenas privados, os públicos e os artistas. Segundo Madalena Bessa Monteiro, o modus operandi destes festivais assemelhava-se aos prémios atuais tanto no que toca o elemento festivo, quanto ao rigor burocrático. Curiosamente, até certas engrenagens já se atribuíam como partes integrantes do sistema relacional dos prémios antigos, tal e qual a presença constante de júris influenciáveis e os juízos de valor corruptíveis.

A atribuição destes prémios tornou-se mais recorrente a partir do período do Renascimento tardio com a criação das Academias, facto este que assentou o valor da produção artística mediante o controlo das burocracias nacionais[3]. Após um salto temporal considerável, que considera as várias atribuições dos prémios Grand Prix, chegamos ao final do século XIX com a criação dos Nobelpriset, que solidificou os prémios enquanto um fator determinante para a movimentação da divulgação científica moderna e da promoção das atividades humanísticas.

Neste momento, foi constituída uma maior regularização para a atribuição de prémios, que no campo das artes visuais é constituída geralmente por alguns elementos-chave, como; um valor do prémio a ser atribuído; a exposição dos trabalhos dos artistas, o catálogo e um corpo de júri qualificado, além da objetiva sedimentação do método de seleção dos candidatos e dos critérios de avaliação.

No contexto português nos anos 2000, foi instituído o Prémio Novos Artistas Fundação EDP. Que, no âmbito da ascensão e mobilidade escassa (tanto social quanto profissional) presente no país desde as eras mais longínquas, a promessa do Prémio EDP distinguia-se enquanto uma lufada de ar fresco. Apesar do compromisso em salvaguardar a novidade no cenário carecido de oportunidades para os novos rostos, o prémio que nomeou Joana Vasconcelos na sua primeira edição, repete até hoje os mesmos comportamentos dos antigos jogos sociais da arte. Como refere o artista mexicano Pablo Helguera a partir da imagem do tabuleiro de xadrez.

“(…) o Rei é o Director do Museu; a Rainha, o coleccionador ou o Conselho de Administração; as Torres figuram os Curadores; os Galeristas, os Cavalos; os Bispos são os Críticos de Arte; e os Peões representam os Artistas. Quem produz pode ser alvo de atropelo.”[4]

Os jogos sociais da arte, observam-se nos prémios e nos concursos de artes visuais como uma montra para o seu sistema de relações intrínsecas. Desde o desequilíbrio entre os selecionados – que muitas vezes apresentam o seu trabalho em momentos diferentes da carreira concorrendo entre si em iniquidade. Ou, a mencionar a atribuição una ao vencedor num cenário altamente competitivo, que gera invariavelmente um mal-estar sistémico, por não contemplar a qualidade dos concorrentes e as suas individualidades. Até a entidade patronal, que instituída por fundações, muitas vezes é gerida por interesses particulares, o que acarreta numa atribuição inconsistente ao vencedor.

Com o objetivo de mudar este cenário, diversos concursos que desafiam tal lógica sistémica são instituídos ainda no início dos anos 2000. A destacar o Anteciparte, criado com o intuito de ser um concurso específico para os finalistas de escolas de artes visuais portuguesas, enquanto uma plataforma para a divulgação de novos artistas. É assim que em 2016, o Prémio Arte Jovem Millennium bcp surge, como um desenvolvimento deste mesmo desejo de mudança.

O objetivo primário do Prémio Arte Jovem é dar a conhecer as mais recentes propostas de jovens artistas, enquanto desenvolve um espectro mais alargado da produção artística em Portugal. Por intermédio de uma candidatura livre a qualquer finalista de artes visuais do país, os selecionados são escolhidos a partir do envio do seu portfólio, nomeado posteriormente por um júri distinto, diferente em formação a cada ano. O júri é composto por três profissionais de excelência da área, escolhido a fim de proporcionar um voto ímpar que propõe o diálogo entre os possíveis nomes selecionados.

Após escolhidos, os selecionados participam numa exposição coletiva na cidade de Lisboa, onde são apresentados ao público, aos colecionadores e à imprensa. Desde 2021, a exposição realiza-se no espaço expositivo privilegiado do Pavilhão 31, onde também se realiza a exposição deste ano. O P31 é um espaço expositivo localizado dentro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, onde há 22 anos a Associação P28 desenvolve um trabalho independente de promoção dos artistas contemporâneos enquanto desmistifica o estigma relacionado à doença mental.

A exposição deste ano de 2022 conjuga os doze selecionados: Ana Pessoa, Bruno Grilo, Catarina Braga, Francisco Trêpa, Inês Mendes Leal, Inês Varandas, Luís Marques, Maria Luz, Pablo Quiroga Devia, Rita Leitão, Silvestre Quizembe e Tiago Rocha Costa, com a artista Micaela Fikoff. Apresenta-se mais de uma obra por artista, a fim de criar uma plataforma de apresentação que contemple a diversidade do trabalho de cada participante. Numa sala lotada de referências e pensamentos, ainda se assistiu à performance abjeta da artista Rita Leitão com a colaboração de Maria Peixoto Martins e Leonor Sousa que ativou a exposição da melhor maneira possível.

Outro destaque para o dia da inauguração da exposição deu-se pelo efeito desconcertante do tapete de pragas de Tiago Rocha Costa no público. Que convidou o espectador a refletir, pelo intermédio da sua instalação efémera, sobre o incómodo de deter no seio do nosso lar aquilo que queremos sempre repelir. Numa dicotomia sobre a inevitabilidade das relações humanas com a natureza. O meio ambiente destaca-se enquanto um tema comum nos trabalhos apresentados, como talvez um reflexo, daquilo que experienciamos enquanto um coletivo durante os anos da pandemia.

A finissage realiza-se no dia 15 de outubro, quando também apresentar-se-á o catálogo da exposição e os esperados vencedores dos prémios da edição. No ano de 2020, os Turner Prize beneficiaram cada um dos 10 participantes com 10.000 €, ao invés dos frequentes 100.000 € para um único vencedor. Este ambiente de desmistificação competitiva inspirou a CDAP, organizadora do PAJ a instituir 12 prémios distintos para cada um dos selecionados. No entanto, a perceber que o mais importante não é no fim um valor monetário exorbitante e sim um acompanhamento para um maior prestígio dentro do circuito artístico, congregaram-se os prémios: uma Viagem a Madrid, uma Aquisição Fundação Millennium bcp, uma Residência – Centro Português de Serigrafia, duas Residências – Associação Inter.meada , uma residência Artística Anual – A BASE, uma Exposição individual – Abreu Advogados, um Mural LACS em Lisboa, cinco Prémios Aquisição Colecionador Privado, o prémio Aquisição Luiz Antunes Maciel Müssnich, o prémio Aquisição João Luís Traça, a inclusão nos Múltiplos CDAP e uma exposição na Galeria This is Not a White Cube.

No passado, já foram selecionados e premiados pelo Arte Jovem nomes como: Fernão Cruz, Fábio Colaço, Beatriz Coelho, Gabriel Ribeiro, entre outros. Todos artistas estabelecidos no panorama nacional e internacional da arte contemporânea.

O Prémio Arte Jovem Millennium bcp caracteriza-se pela metáfora da sequência sonora do efeito dominó. Uma sucessão de acontecimentos, incitados pela causalidade do desejo de dar a conhecer o frescor do trabalho de jovens artistas, que podem vir a construir carreiras de sucesso permanente. O prémio é, em suma, como o toque de um dedo numa superfície plana, uma delicadeza que reverbera.

Inês Mendes Leal, uma das artistas selecionadas deste ano destaca sobre o seu trabalho que “a curiosidade e observação levam à descoberta e, depois, à compreensão que nos leva à ação”.

Por fim, digo que, estejam sempre atentos à vossa curiosidade em relação ao novo, ela pode permitir-nos desencadear ações e perceções antes inimagináveis.

 

 

 

[1] Monteiro, M. B. (2012). PRÉMIOS DE ARTE PARA JOVENS ARTISTAS: O seu impacto no contexto artístico português entre 2000 e 2010 e especificidades do ano 2007. Universidade de Lisboa.

[2] English, J. (2008). The Economy of Prestige. Prizes, Awards, and the Circulation of Cultural Value, Harvard University Press.

[3] Monteiro, M. B. op. cit.

[4] cit. in Silva, Filipe Rocha da, Observatório da Crítica de Arte, Edições Eu é que sei, Évora, Centro de História da Arte e Investigação Artística Universidade de Évora, 2007, pp.10.

Maria Eduarda Wendhausen (Rio de Janeiro, 2000). Licenciou-se em Ciências da Arte e do Património (FBAUL), estudou no Sotheby’s Institute of Art e atualmente é aluna do mestrado em Crítica, Curadoria e Teorias da Arte (FBAUL). Atua como escritora e curadora na cidade de Lisboa, onde reside e versa sobre as marginalidades do cotidiano. Colabora com o Manicómio e habita o Pavilhão31, um espaço conceito único em Portugal onde se exibem artistas do CHPL em diálogo com artistas contemporâneos como Jeff Koons, Pedro Cabrita Reis, etc. Destaca-se ainda a sua última atuação como curadora na ARCOLisboa2022 no espaço do Prémio Arte Jovem Millennium bcp, um projeto Carpe Diem Arte e Pesquisa.

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