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Sun & Sea: Isto não é uma praia

Um volante de Badminton atinge a cabeça do senhor à minha frente com um sonoro baque. Elas não notam. O volante cai na areia, elas apanham-no e continuam a jogar. Parece haver uma cúpula opaca que separa os dois mundos, o nosso e o deles, que será com certeza só vista a partir de baixo, pois nós, aqui de cima, vemos tudo.

O volante continua a voar entre raquete e raquete, raquete e areia, raquete e areia. “És terrível, não devíamos jogar Badminton…”, diz uma para a outra. A constatação não me surpreende, afinal as habilidades de Badminton de uma das raparigas vão de nulas a embaraçosas. No entanto, o que me fascina é a espontaneidade com que ela fala. Elas riem-se e decidem continuar a jogar, conversando no que me pareceu ser Mandarim.

O riso de uma criança interrompe a cena, ele vai correndo em torno das outras pessoas que aproveitam o dia de praia sob os holofotes. Umas olhando para ele, sorrindo, outras entretidas com os seus próprios afazeres. Umas leem, outras estão no telefone, dormem, comem, apanham sol, põem protetor solar, conversam, fazem malabarismo, abraçam-se, tocam-se, beijam-se, uma pinta, outra faz crochet. O cenário tem tanto de bizarro como de mundano.

“Depois das férias o teu cabelo brilha, os teus olhos brilham, tudo está bem…”, cantam eles. A Ópera-performance Big-Brotherianade Rugilė Barzdžiukaitė, Vaiva Grainytė e Lina Lapelytė, Sun & Sea é uma experiência marcante. Foi apresentada internacionalmente pela primeira vez na Bienal de Veneza de 2019 pela Lituânia, sendo galardoada com o prémio principal do festival, o Leão de Ouro, e estando de momento em digressão pelos quatro cantos do mundo.

Uma planície de 20 toneladas de areia importada, salpicada de pessoas em fatos de banho cor pastel, o espectador, de cima, vendo tudo. Sun & Sea é uma Ópera climática, entre árias divididas por solos e harmonizações em grupo canta temas que divergem entre preocupações mundanas, histórias de vida e a crescente deterioração da terra. Todavia, os atores parecem não se aperceber que cantam ou que os outros o fazem.

É curioso, contemplativo, desconfortável – um voyeurismo sem paralelo. O seu ritmo e movimento sem fim são hipnotizantes, após uma hora fazendo-me questionar: “Como é que ainda não estou cansada disto?”

É a dualidade entre o guião da Ópera e a espontaneidade das pessoas que simplesmente vivem as suas vidas que faz de Sun & Sea um trabalho profundamente belo. Os banhistas não se deixam impressionar nem pelo exterior nem pelas palavras cantadas.

A entoação de ópera torna mais difícil a compreensão do que se canta. O lado feio é atenuado pela beleza da peça, apenas descoberto por aqueles que prestam atenção, que estão dispostos a ouvir atentamente o que está a ser dito. Uma metáfora brilhante sobre como é fácil ignorar a crise climática.

“As medusas dançam aos pares – com sacos cor de esmeralda, garrafas e tampas vermelhas de garrafa. Oh! O mar nunca teve tanta cor!”

Sun & Sea vai estar no Rivoli, no Porto, entre 5 e 6 de novembro e no Festival Alkantara, em Lisboa, entre 11 e 12 de novembro.

 

 

Nota: O público irá assistir ao espetáculo nas varandas técnicas (de cima para baixo) do Rivoli, Porto.

Licenciada em Belas-Artes pela Universidade de Lisboa, com um pé em Londres e o coração em Lisboa, atualmente trabalha numa galeria de arte no Reino Unido. Depois de passar pelo mundo da moda, reviu o seu maior interesse na arte. É co-fundadora do Coletivo Corrente de Ar, que se foca na promoção de artistas emergentes e na democratização da Arte Contemporânea. O seu trabalho desenvolve-se em torno da curadoria, da consultoria de arte e da escrita.

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