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Twin Islands de Sara Bichão e Violaine Lochu

Uma mão que bate num ritmo específico, chamamento em código morse, tentativa de comunicar secretamente. O trabalho de Violaine Lochu define-se em redor da ação: o vídeo que adota o título da exposição mostra-nos a artista numa sequência de gestos – vai revelando com uma lanterna pequenas esculturas de Sara Bichão como ilhas perdidas na escuridão do filme (objetos expostos na primeira exibição da mostra em França, ausentes nesta sequela) para quando encontrar uma máscara grotesca, a pegar com as mãos e confrontar com o olhar, deixando-se afetar por ela – talvez queira chamar Sara, perdida noutra ilha, apenas vista através dos objetos. A máscara e o fato que veste, por exemplo, foram feitos por ela. Violaine habita-os à distância. O pegar na máscara foi como ceder à alucinação do outro, num processo de metamorfose onde se abre um quarto vermelho em que Violaine dança freneticamente – lembra o Black Lodge de Twin Peaks, de quem a exposição partilha o primeiro nome. O opaco espelhamento da máscara poderá ser a performer a verificar-se atriz num filme operada por mecânicas que não controla, boneco de voodoo. São várias as esculturas com agulhas espetadas, como uma maldição reativada por alguém.

O imaginário contém sempre algo de marítimo, aqui como um signo da distância: as obras foram produzidas no contexto de residências artísticas das duas artistas em espaços insulares diferentes, afastados. Vemos cordas verdes de pescadores adotadas em esculturas, conchas e pedras como adereços íntimos, quase barcos traduzidos a instinto e impasto. Na especificidade das conjugações, funda-se algo de imprevisível, mesmo que não isolado nos seus referentes – a escultura de Sara Bichão parece lembrar a fase mais experimental de Júlio Pomar, a das assemblagens e elementos significantes (entre as sensibilidades que os separam está, por vezes, um certo apelo feminino, de cores plastificadas, elásticas, e uma obsessiva profusão de ângulos e distensões como teias sobre a superfície dos objetos, uma mão que arrasta consigo a realidade, moldando a rigidez). Os objetos mostram-se não só como deslocamentos dos referentes que pedem emprestado – o barco naufragado, por exemplo, feito quase pastilha elástica – mas deslocamentos de deslocamentos, tão longínquos que se tornam lugares desertos. Quanto mais se revelam, mais nos confundem.

Exemplo disso será o objeto colocado no primeiro piso do espaço, que visto de baixo se assemelha um sol, para ao subirmos as escadas se revelar uma âncora cuja ponta alaranjada, calorosa, se mostra feita de um guarda-sol repuxado – aparenta, inicialmente, brilhar, autorreferencial, mas há um movimento violento, para lá da superfície, que o puxa para dentro e fecha, para lhe devolver inconsciência. Revela-se sem saber que está trancado, protegido, sem saída – escultura que opera sob movimentos contraditórios, paralelos, que coabitam, mas não se detetam.

Inferindo estas relações, deparamo-nos ainda, nesse primeiro piso, situado por detrás de um pilar de betão, o último objeto da exposição, que talvez permita reinterpretar tudo o resto: é um crucifixo, a obra que nos impeliu à comparação a Pomar, mas que se compõe numa assemblagem feita de pequenos elementos diferenciadores: concha, osso, chumbo, pano, corda, agrafo. Tudo se aparenta usado, vivido, gasto.

O primeiro piso das Carpintarias dispõe-se como uma varanda que nos permite ver o piso inferior, e de um determinado ângulo conseguimos ver, sequencialmente, o crucifixo, o vídeo de Twin Islands, e entre eles, a grande encenação do fato que Violaine Lochu usou no mesmo vídeo, aqui reconstituído como uma figura humana, presa a cordas – motivo recorrente nos objetos desta exposição, como se quisessem evitar a vertigem –  adossada a pedras para que não fuja, um Wicker Man de desenhos significantes e olhos como nazar, que Lochu dará a conhecer em Signal Dance, operando-o como um mapa do seu corpo. Aqui exposto, encerra qualquer coisa de macabro, sacrificial – afinal elas naufragaram para que pudéssemos naufragar também, viveram para que pudéssemos nascer – como um agente que coordena a ação humana, o amuleto reativado pelos pregos espetados na madeira, que contaminou o corpo de uma pessoa, a performer.

Encontramos também objetos mais pequenos, mas intensos. Adossada ao mesmo pilar do crucifixo, mas no piso térreo, vemos uma escultura de um olho central feito de berlinde, disposta sobre um pedaço comprido de madeira. Parece condensar uma consciência – do símbolo de um quase crucifixo fez-se algo mais figurativo, óbvio, uma câmara de vigilância do teatro de horrores que ali se opera, sem que o apreendamos. A uma certa distância encontramos um outro objeto indecifrável, composto de duas pernas que se alongam, com direito a sapatos, cobertas de símbolos, rabiscos e costuras. Próximo, uma quase concha, aproxima-se de uma vulva, desenha-se num objeto alongado como uma cauda que parece escorrer. Somam-se enigmas, e desenham-se os náufragos à nossa imagem, navegando por ilhas desconhecidas, percorrendo a incógnita do canto de Violaine, que contamina o espaço como um pássaro curioso que pergunta, procurando uma resposta. Espera um encontro que apenas nós poderemos concluir.

Twin Islands de Sara Bichão e Violaine Lochu encontra-se em exposição nas Carpintarias de São Lázaro até 2 de outubro.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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