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Fundo sem Fundo: Sérgio Fernandes no Centro de Arte Oliva

Fundo sem Fundo de Sérgio Fernandes [1], patente no Centro de Arte Oliva [2], com curadoria de Andreia Magalhães, parte de uma residência, onde o artista desenvolveu um projeto de criação e investigação sobre a cor e a perceção visual, entre o seu atelier em Lisboa e a instituição artística. A exposição apresenta um conjunto de cerca de quarenta pinturas produzidas entre 2021 e 2022, evidenciando o trabalho que Fernandes tem vindo a aprofundar, privilegiando a pintura abstrata com gama cromática incidente nos vermelhos, violetas, azuis e verdes-escuros. A montagem enfatiza cada uma das pinturas a óleo, em composições de várias dimensões, dispostas por espaços de cor numa espécie de degradê, onde sobressaem vários tons, velaturas e camadas de cor, percetíveis pela luz, sombras e posição do visitante, em salas abobadadas onde outrora fora um complexo industrial.

Quando entramos em Fundo sem Fundo é quase como se estivéssemos numa sala de cinema, ou teatro, quando um filme, ou espetáculo está prestes a começar. Apenas vemos o título e umas luzes pontuais que o iluminam, face a uma parede branca em semicírculo. Na primeira sala o desenho de luz mantém-se, destacando Perigoso, Divino, Maravilhoso (2022), Second Chance (2022) e Smoke (2022) marcando o tom de toda a exposição. Nomeadamente, os títulos poéticos, telas retangulares de várias dimensões e não engradadas, em composições não figurativas, com a reduzida gama cromática do autor, e sobreposição de camadas de tinta visíveis pelo jogo de luzes, pelas laterais e o nosso passo e olhar perscrutador.

Atentamente, vemos que para além da suposta monocromia, no centro de algumas pinturas sobressai um retângulo de outro tom, em que nos lembramos do artista e educador alemão Josef Albers (1888-1976), quer pela sua série de pinturas Homenagens ao Quadrado (1949-1976), como pelo seu livro seminal Interaction of Color (1963) concebido como um manual e auxiliar de ensino para artistas, estudantes e educadores, originalmente impresso em serigrafia com 150 placas de cores, onde são apresentados os princípios da sua teoria das cores, em diálogo com a Teoria das Cores (1810) de Goethe ou Anotações sobre as Cores de Ludwig Wittgenstein (1950). Segundo as palavras de Albers: «Ao lidar com a ilusão da cor ou a relatividade da cor, é prático distinguir factos factuais, de factos reais» [3]. Quer o autor com isto dizer, que podemos percecionar a cor de duas maneiras: ou isoladamente, através de teorias fixas e absolutas, ou contextualmente, experienciando-a no mundo, integrando uma ou mais cores. Assim em Fundo sem Fundo é nos dada a oportunidade de experienciarmos a cor pela segunda via, pelo meio do olhar do artista e da curadoria. De acordo com o texto curatorial: «Na exposição, cada pintura permite-nos essa experiência da cor: movemo-nos e posicionamo-nos em frente e de lado, afastamo-nos e aproximamo-nos na tentativa de descortinar os planos, de destrinçar a superfície do fundo, de compreender onde começa uma cor e onde se dissipa para dar origem a outra».

Nas salas seguintes vão nos sendo reveladas mais pinturas, à medida que a luz se vai difundindo e as cores se vão aproximando do vermelho, até alcançarmos a nave central, onde nos é apresentado um conjunto de obras, que se destacam pelas suas dimensões e cor vermelha em consonância com a arquitetura do espaço. Não descurando a última sala, onde estão expostas doze pinturas sobre papel com a mesma dimensão, que apesar de não serem muito usuais na obra do artista, entendemos melhor o seu processo e investigação, sobretudo a procura por novas composições e aspetos sobre a cor e a perceção visual, assim como nos recorda a Colour Field Painting e nomes como Mark Rothko, Barnett Newman, ou Clyfford Still.

Em Red: The History of a Color (2017) o historiador francês Michel Pastoureau assinala: «O vermelho é a cor arquetípica, a primeira cor que os humanos dominaram, fabricaram, reproduziram e dividiram em diferentes tonalidades, primeiro na pintura, depois no tingimento. Dando-lhe primazia sobre todas as outras cores ao longo dos milénios. O que também explica porque é que em muitas línguas a mesma palavra pode significar “vermelho”, “bonito” ou “colorido” ao mesmo tempo» [4]. De facto, um dos maiores especialistas na simbólica das cores, explica que o vermelho continua a ser uma das cores mais plena de possibilidades poéticas, oníricas e simbólicas. Encontramos o vermelho ao longo dos séculos em pinturas rupestres, construção de casas, objetos em cerâmica, tecidos e roupas, ou joias e acessórios. Simbolicamente, o vermelho é muitas vezes associado ao poder, ao sagrado, à vitória, e à fertilidade, mas sobretudo à vida, relacionado com o sangue e o fogo.

Em Fundo sem Fundo o vermelho é realçado, potenciando ao espectador a experiência de imaginar ou relembrar simbologias, imaginários ou poéticas. Um momento de pausa, de solitude, ou até mesmo de inquietação pelas extensas áreas de cor das pinturas algo monocromáticas e completamente abstratas, em que nos é percetível a textura da tinta, a mistura dos pigmentos e a luminância, saturação e temperatura da cor em estreita ligação com o espaço, o nosso corpo e visão.

Fundo sem Fundo está patente até 2 de outubro no Centro de Arte Oliva.

 

 

 

[1] https://cargocollective.com/sergiofernandes

[2] https://centrodearteoliva.pt/exposicao/fundo-sem-fundo/

[3] Tradução livre da autora: “In dealing with color illusion or color relativity, it is practical to distinguish factual facts from actual facts”. In https://www.youtube.com/watch?v=8YpZX0Xj9-Y

[4] Tradução livre da autora. Pastoureau, M. (2017). Red: The History of a Color. New Jersey: Princeton University Press. p.7.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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