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Rui Chafes: Chegar sem partir

Nenhuma escultura de Chafes lembra mais nada do que uma escultura de Chafes[1], recordamos as palavras de Isabel Carlos a propósito da prática única, singular e autoral de Rui Chafes (1967) à medida que visitamos a exposição Chegar sem Partir, com curadoria de Inês Grosso e Philippe Vergne e coordenação de Filipa Loureiro concebida para o Museu e Parque de Serralves. Não se tratando de uma retrospetiva, antes a revisitação de momentos marcantes no percurso do artista ao longo dos anos, a exposição concebida em estreito diálogo com Rui Chafes, apresenta-se organizada no interior do edifício mediante uma série de ambientes/estações, experiências sensoriais e mentais que colocam o espetador em confronto com o espaço, com as obras e consigo mesmo. Incluindo trabalhos desde a fase inicial da sua produção a obras concebidas especificamente para a exposição, confrontamo-nos com dualidades que permeiam a prática do escultor: silêncio/vazio; presença/ausência; vida/morte.

A relação com corpo ausente e a impossibilidade da sua representação definitiva, constante em toda a sua obra, acompanha-nos ao longo dos diferentes capítulos da exposição. Destaquemos o conjunto de máscaras da série Cristal,1996-97 que simultaneamente protegem, ocultam e ferem, aprisionando o corpo e constringindo-o, constrangimento e tensão igualmente evocados nas esculturas da série Balthazar que mimetizando o couro e instrumentos de equitação, se exibem como troféus no hall do museu. À exigência física do trabalho do artista, cujas esculturas solda e forja numa união entre ferro e fogo, esculturas que pinta de negro e cinza anulando-as como matéria, acresce-se a cor da prática intimista dos seus desenhos. Do interior do edifício, Chegar sem partirestende-se aos jardins de Serralves, num diálogo da obra do artista com o Parque e a envolvente natural do museu, que por vezes camuflada na natureza suscita, num jogo de descoberta, encontros inesperados, caso de Was erschreckt Dich so?,2008; Mouchette,2009; Volúpia Prudente, indómita fome, 2000 ou Lua exausta, 2000.

Numa nota introdutória à exposição, iniciamos o nosso percurso com uma peça pertencente à coleção de Serralves, Sudarium, 2018. A ideia de mortalha, de tecido que envolve o corpo que o título evoca perpassa a própria matéria – o ferr0 – e a forma do objeto escultórico que suspenso no vazio sugere folhas de tecido que pendem, solidificadas no espaço. À medida que a observamos e circundamos deixamo-nos seduzir pela sua configuração leve e orgânica, pela delicadeza das dobras e movimentos que nos conduzem ao esquecimento do peso do material em que é feito. Como se tivesse acabado de ganhar forma, Sudarium possui uma intensidade corporizada no espaço, numa conjugação entre peso e leveza, rigidez e fluidez que surpreendem o visitante. A escultura que não é apenas um objeto, é, também a sua relação com o nosso corpo e a ideia do corpo que é cegueira, são aspetos que experienciamos em Tranquilidade ferida do sim, faca do não, 2000/2013. A escuridão que habitamos ao entrarmos na sala de exposições, que o artista transforma num dispositivo ótico, mergulha-nos numa experiência corpórea, sensorial e visual. A dificuldade em nos movimentarmos face ao desconhecido, o silêncio e a sensação de solidão acompanham-nos à medida que a cegueira inicial se desvanece revelando lentamente a presença de sombras no espaço. Cinco esculturas dispostas ritmadamente a uma altura relativamente elevada do solo, evocando a arquitetura gótica, surgem na escuridão como revelação, num espaço de dimensão quase sacral, habitado pelo silêncio e o vazio. Experiência imersiva, metafísica e solitária, Tranquilidade ferida do sim, faca do não confronta-nos com a tensão e ideia de desconforto, de ferida, a luz e a sombra, o invisível e o visível, com a consciência total do espaço e a suspensão do tempo. Imergidos na instalação recordamos as palavras de Rui Chafes a propósito da sua prática:

“A minha obra assenta em termos e princípios que parecem ser absolutamente ignorados pela contemporaneidade, como: o silêncio e a sombra, a quietude, a religião e o mito, a beleza e a impossibilidade de beleza, a solidão, a dor, a morte e a serenidade, a suspensão do tempo, a paragem do tempo no meio da velocidade.”[2]

A suspensão do tempo e espaço que voltamos a reencontrar em Não quando os outros olham II, 1996, nos pequenos sapatos, esquecidos na sala. Ligeiramente levantados, em pontas de pés, tocando fugazmente o chão, os sapatos presentificam uma ausência, convocando um corpo invisível no vazio que se converte em gesto. Exploramos a relação entre cor, corpo e imaterialidade na instalação A não ser que te amem, 1987, peça executada pelo artista aos 21 anos, quando ainda era estudante de belas artes, antes de começar a trabalhar com o ferro. Refeita e adaptada para Serralves a instalação quase ambiental, que ocupa o espaço total em que está inserida, cria um confronto com o corpo do espetador imergindo-o na instalação e na cor azul forte que a ilumina, convidando-o a transitar entre a sensualidade, maleabilidade e organicidade das diferentes formas curvas do Platex. Entre o físico e o espiritual, vivenciamos a cor e mergulhamos num ambiente aquoso que a luz azul, dominando o espaço propicia, desmaterializando as formas e alterando a cor da nossa pele. As esculturas são o espaço, o espaço é a escultura[3], correlação que nos é revelada uma vez mais em Burning in a forbidden sea, 2011, onde a grandiosa escultura em ferro, suspensa no centro da sala branca com iluminação verde, é acompanhada pelo trabalho sonoro de Orla Barry proporcionando um ambiente imersivo que confere à obra um caráter xamânico. Próxima numa pequena sala, cujas janelas foram tapadas a pedido do artista impedindo qualquer ponto de fuga para o exterior[4], num gesto de concentração, observamos um trabalho novo de Chafes Sem nascer nem morrer, 2022. Suspensas a alturas diversas do chão, evocando a ideia de queda, as esculturas surpreendem pela aparente leveza do ferro que se torna etéreo. Deambulamos por entre as obras, sombras que flutuam de um negro intenso, formas quase orgânicas, que lembram couraças, carapaças, casulos suspensos, invólucros que nos remetem para a presentificação da ausência, de algo que se evadiu, prosseguindo-se a pesquisa do artista sobre a relação entre interior e exterior, o ser e não ser, cheio e vazio.

O diálogo com a arquitetura de Serralves, é uma vez mais visível na última obra dentro do museu, Medo não medo, 1988-98, desenho e acontecimento no espaço que o invade como raios que se materializam ao longo do corredor desenhado por Álvaro Siza. Como uma figura em movimento parada no tempo, em tensão contra a parede, a instalação site-specific adquire uma dimensão performativa em que o corpo do visitante, que deixa de ser mero espetador para ser participante, tem a missão de se deslocar através da obra. Chafes cria um momento frágil de tensão ao apercebermo-nos de que as barras de aço são sustentadas por bolas de golf nas extremidades numa relação de equilíbrio instável, a iminência da queda de um objeto suspenso entre a permanência e o desaparecimento. Conceito que reencontramos na obra que dá título à exposição, Chegar sem partir, 2022, concebida especificamente para o contexto e instalada no jardim à entrada do museu. A ideia de circularidade de tempo, de movimentos que se repetem no espaço materializam-se na enorme estrutura cónica que se eleva como um remoinho de vento, um furacão de folhas papel em rodopio que ameaçam esvoaçar pelos jardins.

Em contraste com a parede branca exterior em que se apoiam, dois elementos verticais em ferro negro, de oito metros de altura, surpreendem-nos pela sua grandiosidade e minimalismo. Num improvável e instável equilíbrio, Tu e eu, 2022, escondidos, acoplados – em diálogo com arquitetura – como um casal de namorados cujas cabeças se tocam num ângulo no Pátio do Limoeiro. Concluímos o percurso com a obra subterrânea Travessia, 2022, concebida por Chafes para o Passeio da Levada, e que ficará em permanência no Parque. Atravessamos o seu interior, como um corpo no qual fazemos a travessia, num caminho sinuoso e escuro, que evoca a tensão sentida na sala escura do interior do museu. À medida que os nossos passos ecoam no betão, numa experiência altamente sensorial, deparamo-nos com uma escultura suspensa e levemente iluminada por um pequeno óculo. Chafes convoca as relações entre arte, arquitetura e espiritualidade, arquitetura e templo, abrigo e refúgio, sagrado e profano. Entre a luz e a escuridão Travessiarevela-nos, qual epílogo, o anseio que as suas obras têm pela luz, esculturas que são negativos, sombras, mas que ao mesmo tempo são contentores da luz, porque o negro na realidade é a absorção da luz.[5]

 Chegar sem partir de Rui Chafes está patente na Fundação Serralves – Museu de Arte Contemporânea até 26 de fevereiro de 2023.

 

 

 

[1] CARLOS, Isabel – O Peso do Paraíso, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, 2014.

[2] CHAFES, Rui – O silêncio de ….Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. p.94.

[3] VERGNE, Philippe – “L’oeuvre au noir” in RUI CHAFES: CHEGAR SEM PARTIR. Porto: Fundação de Serralves, 2022, p.18.

[4] Cit. da int. do artista durante visita de imprensa realizada a 20 de julho de 2022.

[5] Cit. da int. de Inês Grosso durante a visita de imprensa realizada a 20 de julho de 2022.

Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

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