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Autorretrato ou Autoficção: A coincidência onomástica de Rembrandt

Ao adentrar no recinto dedicado à exposição temporária Obra visitante: Rembrandt, Autorretrato com boina e duas correntes, o visitante é submerso por um vasto redemoinho, composto pelos olhos vividos das figuras que compõem a Galeria de Retratos do Museu Calouste Gulbenkian. Patente até o dia 12 de setembro e assente num espaço onde somente os característicos sons estaladiços emitidos pelo piso de madeira rompem o silêncio proferido pelas molduras colossais. Exibem-se três exemplares das obras de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), o pintor holandês mais prolífico do seu período, em diálogo com os demais retratos da sala, que se dedica a abarcar as pinturas a óleo concebidas durante o século XVII europeu pertencentes à Coleção do Fundador.

Assentes numa extremidade angular e anunciados por uma intervenção alaranjada frontal, exibem-se lado a lado as obras; Palas Atenas (1657) e Figura de Velho (1645), além da célebre obra que intitula a mostra: Autorretrato com boina e duas correntes (1640), que se dispõe de forma sumptuosa em solidão na parede adjacente, proveniente da coleção do Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid. De maneira discreta e arrebatadora, a exígua exposição temporária surge diante dos olhos como uma surpresa aos visitantes desavisados do Museu Calouste Gulbenkian.

Numa metáfora análoga ao primeiro pouso de um leitor sobre a página de um novo romance, o espetador desta exposição submerge-se na literatura visual com a descrição às pinceladas dos olhos da panóplia de personagem ali expostos. Do Retrato de Sra. Andriesdr. Hessix (1626) de Frans Hals (1582-1666), ao Retrato de homem (1620) de Anton Van Dyck (1599-1641), distinguindo monumentalmente o autorretrato de Rembrandt ao visitante, é a possibilidade de que aquela pintura, ao contrário das demais, poderá em alguma instância ser ao mesmo tempo, um personagem, mas também próprio autor.

O autorretrato é um subgénero de representação advindo da prática do retrato, que remonta o seu exercício desde os momentos mais anteriores da História da Arte ocidental, que, no entanto, difundiu-se entre os pintores, desenhistas e escultores somente a partir do século XVI. A prática de conceber autorretratos está intimamente ligada à difusão da tecnologia dos espelhos no continente europeu, que se aliou ao subsequente alargamento dos questionamentos sobre o conceito de identidade na prática artística, muito impulsionada também pela independência autoral conquistada pelos artistas a partir do Renascimento. Segundo Olivares, “La identidad acaba siendo una tabla de madera a la que agarrarse en una deriva persistente que se suele llamar vida” [1]. Durante muito tempo, a pintura e posteriormente a fotografia, intitularam-se de transpor através de um media semi-permanente alguma realidade do que se pode ver refletido nos espelhos (a variar o grau da fidelidade consoante o media). Contudo, se há uma fagulha interpretativa autoral nos retratos, uma presença que pode ser percebida ao largo, e distingue a individualidade criativa de cada artista – nos autorretratos, esta seria o seu epítome[2].

Jan Van Eyck, Alberti, Dürer e Velásquez, foram alguns dos nomes que experimentaram o campo do autorretrato anteriormente à Rembrandt. No entanto, o artista foi um dos primeiros casos conhecidos a produzi-los sistematicamente, ao longo de toda a sua vida. De acordo com Ramirez, de facto o autorretrato é uma prática económica. Na génese do sentido desta afirmação fundamentam-se tanto razões monetárias quanto dinâmicas em relação à conceção de uma pintura, e isto já seria um fator importante para que o subgénero ascendesse no continente europeu após o Renascimento. Todavia, o teórico ainda discorre que esta obviedade também incute em “problemas conceptuais”[3].

Rembrandt, detém uma carreira artística que ascende a mais de 300 obras produzidas. Dentre este grandioso espólio, 50 delas são reconhecidas como autorretratos, que variam demasiado relativamente às suas composições, vestes, encenações e expressões. Esta variedade ilustra a problemática conceptual proposta por Ramirez, pois quem -Ou, o que é retratado por Rembrandt nos seus autorretratos? Este questionamento alude à coincidência onomástica assistida no género da autoficção da literatura. A autoficção é um termo utilizado para referir-se a uma forma de autobiografia ficcional, uma aparente contradição, cunhada pela primeira vez em 1977 por Serge Dubrouvsky. A coincidência onomástica deste estilo de narrativa acontece, pois, o autor é ao mesmo tempo, o personagem do romance e o narrador. Além do natural esquivo de conflitos éticos que um auto romance biográfico incute, a autoficção também suspende o poder de descrença do leitor, pois eleva uma dúvida primordial acerca da verdade. Seria este livro um retrato fiel da realidade do autor, ou pura ficção?

Autorretrato com boina e duas correntes (1640) dialoga num nível intenso com a noção de ut pictura poesis, pois versa, assim como na literatura, sobre as diversas camadas de ficção adicionadas à figura do autor para criar uma autre réalité de significados. Conforme o MCG na publicação destinada à exposição temporária, “O traje é idêntico ao envergado por Dirk Bouts (1410/1420-1475) e Rogier van der Weyden (c.1399-1464) em duas gravuras de Hieronymus Cock (c. 1510-1570), editadas em Antuérpia em 1572, nas quais, Rembrandt terá encontrado inspiração”[4]. Ainda segundo a publicação, este seria um artifício ambíguo, que tanto propõe representar um uomo famoso ratificado no seio de uma longa tradição artística, quanto atestar uma “raison détre da notoriedade de Rembrandt”.

Assim, por mais que a figura do autorretrato seja, como o próprio termo já diz, o autor retratado por ele mesmo. Isto não significa que um autorretrato seja por regra à materialização da verdade, e não seja uma ficção embebida da capacidade criativa do autor. Apesar de posicionar-se enquanto uma adição ao redemoinho de olhos vividos da Galeria de Retratos do MCG, o autorretrato Thyssen de Rembrandt destaca-se enquanto uma aura dúbia, intermédia, que assenta no purgatório da representação. Um género híbrido entre a realidade e a ficção, que atesta o ímpeto inventivo humano de desejarmos sempre habitar a possibilidade de ser além. Dar substância a este anseio natural, pode ter sido um momento singular no século XVII, que, ao contrário dos retratos equestres da realeza, não deixou de ser uma tendência recorrente nas produções pictóricas. Uma vez que, aquilo que o pintor holandês materializou em 1640, pode ser feito em instantes no nosso contemporâneo, sem depender de excelência técnica em pintura. Bata abrir a camera frontal do telemóvel e primar no centro do ecrã.

A Obra visitante: Rembrandt, Autorretrato com boina e duas correntes, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669) está patente no Museu Calouste Gulbenkian até 12 de setembro.

 

 

NOTAS

1 . Olivares, R. (2003). ¿Quién soy Yo?. Autorretratos/Self-portraits in EXIT, 10, 10–12.

2. Ibidem.

3. Ramirez, J. A. (2003). Automodelo e Identidad quebrada. Autorretratos/Self-portraits in EXIT, 10, 18–21.

4. Sampaio, L. (2022). Rembrandt Autorretrato. Museu Calouste Gulbenkian.

Maria Eduarda Wendhausen (Rio de Janeiro, 2000). Licenciou-se em Ciências da Arte e do Património (FBAUL), estudou no Sotheby’s Institute of Art e atualmente é aluna do mestrado em Crítica, Curadoria e Teorias da Arte (FBAUL). Atua como escritora e curadora na cidade de Lisboa, onde reside e versa sobre as marginalidades do cotidiano. Colabora com o Manicómio e habita o Pavilhão31, um espaço conceito único em Portugal onde se exibem artistas do CHPL em diálogo com artistas contemporâneos como Jeff Koons, Pedro Cabrita Reis, etc. Destaca-se ainda a sua última atuação como curadora na ARCOLisboa2022 no espaço do Prémio Arte Jovem Millennium bcp, um projeto Carpe Diem Arte e Pesquisa.

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