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Na Roda: Gabriela Machado na 3+1 Arte Contemporânea

Se é pra sambar, entra na roda

Vem requebrar que a roda gira

(…)[1]

A roda é um ritual que está no início de tudo, permitiu o nascimento do samba como gênero musical, que evoluiu em rodas de dança, de música e convivência[2]. Originou-se entre as comunidades afro-brasileiras após a abolição da escravatura (entre o final do século XIX e início do século XX), resultando numa migração massiva da população, agora livre, para o Rio de Janeiro, que trouxe consigo uma forte tradição religiosa e musical[3]. Divertir, festejar ou insinuar encontros entre corpos, o samba é marcado pelo ritmo hipnotizante e é um dos principais símbolos da identidade e cultura brasileira. O que Gabriela Machado (Joinville, Brasil, 1960) propõe Na Roda, é uma cristalização da energia das rodas de samba, feita de encontros, improvisações, ritmos, corpos, cores e aplausos.

As primeiras duas obras que encontramos iluminam os sentidos com as suas cores vibrantes e formas flutuantes. Também o nosso corpo reage à tinta de cor elétrica, como se a tela produzisse uma vibração própria que intensifica a nossa relação com a pintura. Expostas lado a lado, Primeiro amor(2022) e Ganham do aplauso (2022) são duas pinturas de grande formato que parecem contar dois momentos da mesma história, fazendo uso de uma paleta de cores semelhante onde predominam os verdes, o vermelho e o rosa neon. Sob fundo branco, os elementos pintados fazem-nos lembrar formas orgânicas, como se fossem flores, plantas ou frutas, ainda que sob o efeito da abstração. As configurações que a tinta executa transportam-nos para um ambiente flutuante, livre, onde a pintura parece um verdadeiro organismo vivo.

Depois, as pinturas passam para o pequeno formato e, nesta série de trabalhos, Gabriela Machado introduz o uso de tecidos nas telas, criando molduras em volta das áreas pintadas. Na obra Em cima da cadeira (2015-2021), o tecido brilhante ganha destaque. Em azul ciano e de textura ondulada, a capacidade refletora do tecido transporta-nos para os reflexos hipnotizantes das ondas do mar. No centro da obra, concentra-se a pintura em tons pastel e rosa, numa composição abstrata que lembra a harmonia de uma natureza-morta. Em pode ser amanhã (2016-2021) o tecido cintila um rosa salmão onde finas pinceladas criam um padrão irregular de manchas rosa-néon. O tema parece abordar a paisagem, e o pincel cria manchas de cor irregulares em tons de cinzento, verde e azul. meus amigos (2018-2021) segue a mesma linha da anterior, mas aqui é o prateado do tecido que sobressai, juntamente como a moldura oval que recorta a pintura. Já em Na beira (2016-2021) destaca-se a utilização de dois tecidos vibrantes, um de padrão florido e outro de pontilhado brilhante. No centro da tela as cores passam pela magenta, pelos verdes e amarelo elétrico, numa verdadeira paisagem viva. O particular desta série de trabalhos está na utilização dos tecidos coloridos que já ocuparam as ruas do Carnaval. A artista transporta para a tela a sua observação e experiência, utilizando elementos concretos, reais, unindo-os ao óleo das paisagens. Daquilo que é um acontecimento fugaz, Gabriela Machado recolhe, transforma e imortaliza-o na superfície da tela.

No piso inferior da galeria, a magia das formas elétricas continua com três pinturas que recuperam a atmosfera das primeiras duas obras que vimos no início da exposição. Em grande formato, mas agora sobre papel, o vermelho inunda a pintura, com os verdes e o amarelo elétrico a destacar os diferentes planos da composição. As formas orgânicas de pinceladas grandes e fluídas dançam novamente sobre a tela. Gabriela Machado parece pintar três mutações do mesmo corpo orgânico, ou ilustrar as variações de um mesmo acontecimento, como se captasse diferentes reflexos de luz. A pintura está em movimento, vibra na atmosfera pálida da galeria e anima o corpo de quem a visita.

No brilho, no movimento, na cor e nos sentidos, o silêncio da galeria chama pelo samba e as pinturas imaginam-se a formar uma roda. Na Roda de Gabriela Machado, a pintura cintila a harmonia do trabalho de atelier com as experiências do mundo exterior, captando, simultaneamente, o eco e a energia das rodas de samba.

Na Roda de Gabriela Machado está patente na 3+1 Arte Contemporânea até ao dia 10 de setembro de 2022.

 

 

[1] Letra de Martinho da Vila em “O Pai da Alegria

[2] Theodoro, Helena (2009). “Guerreiras do samba” em Textos escolhidos de cultura e arte populares, v.6, 1.1, p. 223-236. Rio de Janeiro.

[3] Romanelli, Antonio (2015). “Roda de samba, roda da vida: filosofia de botequim em Noel, Paulinho e Chico” em Memento-Revista do Mestrado em Letras – Linguagem, Cultura e Discurso. V.06, N.1. Universidade Vale do Rio Verde, p.2.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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