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Por Completar de Diogo Pimentão na Galeria Principal da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea

O percurso da exposição Por Completar, de Diogo Pimentão, na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, inicia-se, na primeira sala, com o posicionamento, sobre o solo, de duas esculturas esféricas de diferentes dimensões, quase tangenciais. Próximo das esferas, sobre a parede, desenha-se uma composição de fragmentos, em tom de grafite que, de forma rigorosa, na sua união, formam uma circunferência. Vários desenhos em suporte papel, de esferas sobre outras esferas, evidenciam um exercício vigoroso e constante de modelação de luz – num jogo de forma fundo, perspetiva e sua negação – assim como testemunham a relação do desenho com outros domínios, como a oposição entre o artificial e o orgânico, o irregular e o simétrico, o abstrato e o figurativo.

Quando chegamos à sala ampla, no piso superior da galeria de exposições da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, deparamo-nos com um espaço absolutamente neutro para acolher as peças de Diogo Pimentão.

As paredes nuas, e alvas, alojam, do lado esquerdo de quem se introduz no espaço, uma fileira de seixos, ou pequenas rochas, fixas sobre a superfície vertical. Abrem o observador a um caminho aberto, repleto de surpresas, imprevisibilidades, códigos e apreensões. E lembram os elementos simples, como a pedra, ou o pequeno ramo, sugeridos muitas vezes por Ruskin, no início da prática do desenho de observação.

Somos impelidos a declinar a cabeça para descobrir todo um jardim de formas diverso, e sugestivo, parecendo invocar passeios e caminhadas, transportando-nos para memórias e vivências, recentes ou remotas, no seio da natureza, e os cheiros e silêncios que possam evocar. É todo um manancial de sentidos que despertam quando fruímos as esculturas de Pimentão. O sentimento de infinitude, presente nas esferas iniciais, é dado aqui pela irregularidade, imprevisibilidade, e complexidade dos elementos, fornecido pelo trajeto que descrevem sobre as paredes nuas. Induzindo a toda uma modificação no movimento, visual e corporal do visitante, um percurso que se mostra em plena descoberta. Uma deslocação que se demarca, até, da própria perceção da linha de horizonte. Ou pelo menos gerada no seu conflito. Tomamos como abaixo da linha do horizonte os elementos mais pesados, e acima da linha, os elementos mais leves, e ténues.

As peças que Pimentão revela, e situa ao longo da galeria, não parecem ter sido dispostas com a intenção, ou compreensão, de um sistema fechado. Pelo contrário, os elementos querem-se abertos na fruição, e que induzam a vários caminhos de interpretação. Apreciamos as esculturas do artista do modo como estamos habituados a olhar para pinturas sobre a parede. Indagamos desenhos, que se encontram no chão, como se estivéssemos a observar uma peça escultórica, contornando-a com os nossos próprios corpos. Esperamos deles que emerjam, que se façam densos e retribuam o nosso esforço, o esforço de nos movimentarmos, para as fruirmos e compreendermos. Há todo um jogo de enganos, ou melhor, de ambiguidades que o artista, ardilosamente, parece gostar de despertar. É o nosso corpo que está em causa, e o comportamento que ele descreve no espaço expositivo, além de tantas outras coisas que a exposição nos remete. Os signos dúbios multiplicam-se. Encontramos uma folha branca, em forma quadrada sobre o chão. É de aparência bidimensional, mas por outro lado, a sua imanente fragmentação conduz-nos a um conflito com a tridimensionalidade. Pelos pedaços que anunciam desintegração, tornando-se porções autónomas, ficamos na incerteza se se trata de um desenho ou de um aglomerado de formas micro escultóricas. Sabemos das inúmeras definições que se formulam sobre o desenho, e que a mais comum é a de que a sua realidade, ou requisito, não se separa da condição da bidimensionalidade. Mas também sabemos da condição do desenho que está implícita nas formas e trajetos de uma obra, e que é originária das ideias, e sustenta todas as outras formas de arte, como a escultura, a pintura, ou a arquitetura. Este é um desenho que recorre a formas tridimensionais, mas os elementos fundamentais do desenho nunca chegam a ser abandonados. Temos seixos, com inscrições de uma língua, que não conhecemos, num percurso sobre a parede que, se os olharmos atentamente, são como a evocação dos elementos básicos que definem o próprio desenho. O ponto, por exemplo.

Mais além, ainda no mesmo espaço, dois longos e sinuosos “postes”, como se fossem linhas, prolongam-se, lânguidos, do solo até ao teto da galeria. Com um traço ligeiramente curvilíneo, que se estende até ao topo, unem a atenção, ou conduzem-nos à relação entre os vários planos que aparentemente são mais esquecidos no domínio expositivo, como o teto ou o solo.

Pimentão desperta-nos para a observação dos seus desenhos, e das suas obras tridimensionais, mas também para o espaço da galeria. Através das suas peças, remete-nos para a tomada de consciência do espaço arquitetónico, e da importância do desenho para a sua compreensão. Nem que com isso tenhamos que mudar a posição do nosso corpo, e pôr-nos de pernas para o ar. Precisamos disso. De sermos agitados, para amadurecer esteticamente. Ou pelo menos, como dizia Feyerabend, “deixar cair a razão”, para nos libertarmos da crença antiga na ciência, transportando a realidade para um estado mais onírico do pensamento, parafraseando Dorfles, e tornado possível muitas vezes através da arte.

Ao declinar a cabeça, e imaginar-me a palmilhar o percurso desenhado pelos seixos sobre a parede, estou a criar um horizonte totalmente novo, e as duas linhas em tons de grafite que se deslocam sobre a galeria, já não parecem movimentar-se do solo até ao teto, mas sim a assumir a propriedade de elemento que nos cobre, que se transforma em abrigo, em teto, ou um corpo em movimento que percorre os céus.

As peças escultóricas de Pimentão são oriundas do desenho, mas são também elas elementos geradores do próprio desenho no espaço.

O artista oferece-nos novos olhares, como se nos induzisse a sair da nossa própria zona de conforto. Um olhar novo, sobre o espaço expositivo, sobre o nosso comportamento viciado perante a obra e a galeria. Da mesma forma que uma criança recebe um brinquedo totalmente novo, e é obrigada a virá-lo até descobrir/inventar a sua forma e a sua função. Desperta-nos a descoberta e o sentimento de que o nosso olhar, a nossa maneira de ver, deve ser sacudida, posta à prova. Deve manter-se viva para não estagnar em meia dúzia de frases feitas e certezas sobre princípios estéticos e conceptuais.

É nos seixos sobre a parede que parece ver-se a busca pelo espontâneo, ao mesmo tempo que um esquema interno do desenho aparenta impor-se, evidenciando, de dentro para fora, o desenho como a manifestação de uma ideia, um conceito, ou um pensamento.

A referência ao desenho, e o desenho como registo da memória, apresenta-se de modo imperativo nos desenhos de círculos brancos, sobre fundo a grafite. Neles é usada a mancha, como elemento definidor de forma, como elemento modelador de luz, como testemunho do movimento da mão sobre a superfície da folha, e, num sentido mais lato, como elemento operacional do desenho, enquanto disciplina, enquanto condição não-verbal. É no ponto, no traço e na mancha, de um modo geral, que se define o código do desenho. Quaisquer dos seixos que se fixam sobre a parede, embora tridimensionais, aludem à modelação da luz, à semelhança da mão sobre o papel. O artista molda a forma com as suas próprias mãos. Nessas congéneres tridimensionais, as mesmas são cobertas por grafite. O artista parece interessar-se pelos próprios materiais que são usados na disciplina do desenho. Dá-lhes lugares de protagonismo. Sugerindo o diálogo que podem estabelecer com o artista, ao oferecer a sua própria autoridade, resistência ou cedência, (a sua realidade material), mediante a sua propriedade matérica.

Por Completar de Diogo Pimentão está patente na Galeria Principal da Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea até 11 de setembro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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