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Respiração Boca a Boca: Cristina Ataíde no Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso

Respiração Boca a Boca de Cristina Ataíde[1] no Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso[2]  propõe uma viagem pelo universo plástico da artista, em que tanto perscrutamos algumas das suas primeiras séries de esculturas em ferro e pedra, como trabalhos mais recentes, sem um percurso cronológico definido. Em cada peça, realizada através de objetos comuns, ou da natureza, é nos revelado os lugares por onde a artista passou, recolhendo a sua materialidade e imaterialidade, numa demanda pela preservação e cuidado da Natureza. Quando falta o ar a alguém, tentamos dar o nosso, pela respiração boca a boca. Como o planeta está a sofrer, com sintomas já bastante visíveis, devemos tentar salvá-lo com urgência.

A prática artística de Cristina Ataíde move-se entre o desenho, a escultura, a instalação, a fotografia, o vídeo e a intervenção site-specific, mostrando-nos a sua sensibilidade perante o mundo, como se fosse uma troca, ou uma respiração, permitindo-nos olhar para pequenos detalhes, manchas de cor, entranhas, lisuras, e padrões, que momentaneamente não havíamos reparado ao nosso redor e que no espaço expositivo ganham outro significado, transformando-se numa poética da memória, uma espécie de diálogo, composto por pequenos fragmentos do sentir. O filósofo italiano Mario Perniola em Do Sentir (1991) fala-nos justamente sobre a relação da nossa época com o sentir, em comparação com tempos históricos anteriores, argumentando que desde o final dos anos 1960, a socialização já não é realizada pelo meio da ideologia, mas através do sentir, em que tudo é apresentado como já sentido. Pelas palavras do autor: «O sentir é seletivo: somos nós que estabelecemos quais são as portas que devemos abrir ou fechar. (…) aprender a sentir equivale a aprender a viver. (…) Mas existe um segundo aspeto do fazer-se sentir tão importante como o primeiro e complementar em relação a ele: se por um lado a dimensão afetiva é desde logo uma operação intelectual, por outro a dimensão intelectual é desde logo uma receção afetiva. Pensar é receber o que vem de fora, acolher, hospedar o que se apresenta como estranho e enigmático». [3]

Desde que entramos no piso 0 do MIEC e encaramos tanto Observador de céu #1 e #2 (2016), como um conjunto de esculturas dispostas no chão em calcário azul Cascais, ou ainda a série Fonte (1999) em grafite, acrílico e Darwi exposta na parede, que sentimos as suas diferentes formas, texturas e materiais, mas também a sua estranheza e concretude, harmonia e disrupção, prolongamento e suspensão, que nos evocam memórias do sentir. Não descurando, Ser vida ser (2016), um poema disposto no rodapé do espaço expositivo, fazendo-nos mover pelas palavras, que repetidamente exaltam uma das questões mais fundamentais da existência: Ser vida, ser corpo, ser coração, ser desejo, ser sangue, ser transformação, ser arte, ser voo, ser respiração

Continuando com o mesmo passo e inquietude à medida que descemos ao piso -1 observando desde logo Dust of… (2022), Ser… (2022) e Mortes desnecessárias (2022), somos atraídos pelas cores quentes de três grandes painéis desenrolados como papiros, rematados por montes de pigmentos vermelhos. Quando nos aproximamos, lemos frases evocadas pelos títulos anteriormente citados, como se fossem segredos ou desabafos que nos são desvendados através de uma forte plasticidade. Na sala seguinte, as manchas de cor das obras Com o Vento #1, #2, #3 (2022), Time & Weather #7, #8, #9 (2020) e Time & Weather #6, #5 (2019), expostas na parede, evidenciam a potência da utilização do vermelho na prática artística de Ataíde, que segundo as suas palavras: «é uma cor que tem tudo lá dentro… é a cor da vida, do amor… uma cor ambivalente e eu sempre gostei de oposições…». [4]  Estas pinturas, estabelecem uma estranheza, em contraste com a escultura em ferro, Sem título 87 (1987), suspensa na parede por cabos de aço, mostrando a robustez, mas também a fragilidade do material. E mais uma vez, Caixa #VI, Caixa #VII e Caixa #VIII (1988-2022) expostas no chão, demarcam o nosso olhar pelas viagens da artista, pois cada uma das peças contêm respetivamente Urucum da Amazónia, areia do deserto Sahara e granito de Santo Tirso. Do mesmo modo, na 2ª sala destacamos, Memórias (X capítulos) (1997-2022), onde em cada escultura vemos conjuntos de objetos recolhidos pela artista, que tanto nos falam sobre a sua prática artística, como as suas viagens, desde cartas, a pedras, pigmentos vermelhos, a ex-votos em cera, assim como um espelho e fotografias.

Um dos momentos mais dramáticos de Respiração Boca a Boca encontra-se no corredor da antiga hospedaria do Mosteiro de Santo Tirso, onde uma série de várias esculturas circulares, em mármore de Estremoz, estão dispostas ao longo do espaço, destacando Citânia #1, #2, #3 e #4 (2022), em homenagem à Citânia de Sanfins, com objetos encontrados em florestas, barro trabalhado pelo mar e fósseis, intercaladas por vídeos com uma intensa dimensão poética, que tanto enaltecem a natureza, como as muitas incursões da artistas.

A realizadora Agnès Varda, em Os Respigadores e a Respigadora (2000), curiosa pelas pessoas que recolhem os restos de comida de um mercado ao ar livre em Paris, parte por França à procura por respigadores contemporâneos. Ao longo do documentário vamos entendendo que se antigamente, respigar significava colher o que sobrava após uma colheita, na atualidade, apesar de a atividade estar extinta, as pessoas respigam não só alimento, mas também objetos de consumo que foram abandonados. A sobrevivência, a luta contra o desperdício, o lazer, ou a obsessão pelo ato em si mesmo são algumas das suas motivações. No entanto, Varda respiga, guardando imagens das suas muitas incursões, com a sua pequena câmara digital, tal como Cristina Ataíde, que vai respigando vários objetos, para mais tarde os integrar nas suas peças, ou decalcando pedras da calçada, deixando o mar esculpir objetos, ou entrelaçando fios de tecido vermelho em troncos de árvore. Varda durante o filme, confessa: «Há outra mulher a respigar neste filme, sou eu. Fico feliz por soltar as espigas de trigo e pegar na minha câmara. (…) a respiga é figurativamente definida, como uma atividade mental. Recolhemos factos, atos e ações, de modo a guardarmos informações. Quando me esqueço de alguma coisa, o que trouxe das minhas viagens, diz-me por onde estive (…)».[5]

Respiração Boca a Boca é o sentir de Cristina Ataíde, a sua partilha e o seu cuidado em relação ao outro, através de uma multiplicidade de materiais, formas e práticas artísticas, conjugadas poeticamente. Segundo as suas palavras: «O respirar boca a boca leva-nos para aquela ideia de cuidar do outro. O outro já não tem ar, mas nós vamos dar o nosso ar, portanto é uma tentativa de que o outro pense que pode fazer qualquer coisa pelo planeta, pelo outro, por nós próprios…». [6]

Respiração Boca a Boca, de Cristina Ataíde, está patente até 18 de setembro no Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso.

 

 

 

[1] http://www.cristinataide.com

[2] http://miec.cm-stirso.pt

[3] Perniola, M. (1993). Do Sentir. Lisboa: Editorial Presença.p.103.

[4] Filhos da Nação. (08 de Fevereiro de 2020). Obtido de RTP: https://www.rtp.pt/play/p5487/e455164/filhos-da-nacao

[5] Varda, A. (Realizador). (2000). Les glaneurs et la glaneuse [Filme].

[6] https://www.instagram.com/p/CetuwEalhkj/

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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