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O Espaço Independente da Arquitetura[1]

Um espaço independente é gerido como uma alternativa, um espaço à margem do que é o sistema institucional. A programação pode ser complementar a um Museu ou Centro de Artes ou disruptivo dessa produção, como modo e meio de crítica social, política ou cultural. Em teoria, o peso e carácter informal de um espaço opcional são a génese da identidade destes lugares. Com uma programação livre, no sentido em que não se encontra sujeita à pressão arbitral do sistema político-económico ou da cultura dominante, são sítios inusitados, com ocupações espaciais atípicas, informais, espontâneas e com foco numa comunidade ou públicos nicho. Falamos de espaços independentes no sentido lato, cuja programação abrange todos os domínios das artes visuais, onde por norma não existem fronteiras entre os métodos e as técnicas.

E no que respeita ao tema Arquitetura?

Interessa-nos ocupar esta coluna com a ambiguidade das palavras que compõem o título: o espaço independente da arquitetura. Sabemos que a arquitetura trata o espaço, mas que independência há nesse lugar-comum? Qual a arquitetura que melhor serve a estes lugares? Que tipo de espacialidade, ambiente, áreas ou medidas o compõem? Quais os edifícios que se deixam ocupar por esta outra função? Invertendo o ónus da questão, está presente a disciplina ou reflexão da Arquitetura na programação de espaços independentes em Portugal? Qual a forma e léxico dessa programação?

Partimos de três exemplos: O Instituto e a Galeria De Arquitetura, ambos no Porto, e a recente Antecâmara, em Lisboa. Antes, contudo, parece importante mapear o percurso institucionalizado da arquitetura, para, depois, se perceber a importância dos espaços independentes no debate e promoção desta disciplina.

Falemos de Arquitetura: Manuel Graça Dias na radiotelevisão – um preâmbulo”

“A disciplina de arquitetura será, entre as diversas artes, uma das mais populares e compartilhadas. Todas as pessoas arranjam e decoram quartos e casas, todas têm ideias sobre a cidade, melhoramentos possíveis para a cidade, todas se entusiasmam com o mobiliário e com o desenho de objetos de uso doméstico.” Manuel Graça Dias, 1999 [2]

Manuel Graça Dias (Lisboa, 1953-2019) era exímio na arte de comunicação da arquitetura e foi eventualmente o seu aparecimento na TV a soleira de uma nova abordagem de aproximação da disciplina e profissão ao público. Primeiro através da imagem, com o programa de TV Ver Artes/Arquitetura (1992-1996) depois pelo discurso falado na rádio TSF com Ao Volante pela Cidade (1995-1999). Graça Dias projetou nos meios de comunicação a boca de cena para a arquitetura, rampeando a reflexão independente sobre o planeamento da cidade urbana, suburbana e sobretudo metropolitana. Afinal todos vivemos em casas e todos temos algo a dizer sobre as casas em que vivemos, tal como sobre a cidade – como extensão desse lugar privado, que se torna público no contacto com a comunidade.

O contexto de Manuel Graça Dias na radiotelevisão é o da última década do século XX. Podemos com grande certeza afirmar que os acontecimentos culturais dos anos 90, como a Europália Portugal (1991), a inauguração do CCB (1992) ou a Capital Europeia da Cultura (1994), seguida da Expo’98 (1998) (comemoração dos 500 anos da chegada à Índia e ao Brasil, dois anos depois) foram anos áureos de celebração cultural em Lisboa. Alavancada por uma sequência de eventos com valência internacional, a cidade viu transformado o seu circuito artístico. A arquitetura, por via da obra pública, veio dar resposta a carências urbanas e culturais da cidade, materializando-se a Instituição e a modernização dos sectores, cujo CCB se apresenta como a pedra basilar – de referir ainda o nascimento da caixa forte Culturgest em 1993.

De mãos dadas com a celebração expansiva dos anos 90, a arquitetura portuguesa é reconhecida internacionalmente pelo traço de Álvaro Siza Vieira. O arquiteto foi o prémio Mies van der Rohe em 1988, seguido da medalha Alvar Alto no mesmo ano. Em 1992 é reconhecido com o prémio Pritzker, pelo trabalho realizado com a reconstrução do Chiado.

A viragem do século: da Bienal de Design EXD à Trienal de Arquitetura de Lisboa.

A primeira bienal de Design surgiu em 1999. A EXD, projeto da ExperimentaDesign, introduz uma diferente abordagem de exploração do universo em torno do design. Com foco não apenas na produção, mas igualmente na conceção – cultura de projeto – ao longo de 10 edições fez o cruzamento disciplinar entre a arte, o design (as várias faces do design) e a arquitetura, aproximando novos e diferentes recetores. Respondia a uma periodicidade bianual e a um tema/título. Sem espaço físico definido, ocupava edifícios na cidade de Lisboa sem uso, abrindo-os à cidade em jeito de celebração e espasmo. Conventos, palácios, mercados, por vezes espaço público e espaços domésticos ou até comerciais, tornavam-se plataformas ideais para a mostra das produções e práticas contemporâneas. Estava no ADN da bienal a transitoriedade, o happening e a internacionalização. A EXD extinguiu-se em 2017, mantendo a associação como mediadora e produtora de projetos ligados ao design. Primeira Pedra, uma das unidades de investigação promovida pela associação entre 2016 e 2022, pode ser vista em forma de exposição no Museu dos Coches até dia 25 de setembro.

Em 2007 inaugura a primeira Trienal de Arquitetura de Lisboa sob a temática Vazios Urbanos, uma iniciativa privada e livre que teve o arquiteto José Mateus (atual diretor da Trienal de Arquitetura) como comissário e responsável. A Trienal instala-se em Lisboa como uma plataforma de reflexão e promoção da arquitetura portuguesa a nível nacional e internacional, escrevendo um manifesto ao longo de várias edições: Falemos de Casa (2010) com curadoria de Delfim Sardo e partindo do poema de Herberto Hélder, sedimenta o evento; Close, Closer (2013), com a curadoria de Beatrice Galilee, a Trienal rompe as fronteiras físicas da disciplina e da língua; seguindo-se as edições A forma da forma (2016) com a curadoria da dupla André Tavares e Diogo Seixas Lopes e A poética da razão (2019) de Éric Lapierre.

Como associação cultural, a Trienal de Arquitetura tem vindo a materializar um conjunto de gestos fora de portas: a Open House Lisboa e o Palácio Sinel Cordes, ambos desde 2012. O projeto do Palácio é, em simultâneo, sede e galeria para a arquitetura, funcionando como cluster criativo que acolhe projetos multidisciplinares que visam a ligação da arquitetura a outros sectores, aproximando a disciplina à sociedade civil. O palácio, desde a sua abertura, tornou-se não apenas um dos pontos de acontecimento da trienal, como procura inserir-se numa rede europeia de parcerias com semelhantes instituições.

Embora a Trienal tenha sido gerada como uma incubadora independente, usando a mesma linguagem e estratégias de comunicação com o público que outros estruturas ditas independentes, por definição, o papel que pretende representar é o de grande instituição. Um organismo fundamental à produção de discurso de arquitetura que usa lógicas próprias de estruturas transitórias. Por outro lado, as exposições apresentadas sugerem quase sempre um layout cuidado, revelando meios e aproximação à ideia de museu no que diz respeito aos meios de produção. Os catálogos são substituídos por publicações ou livros com design gráfico irrepreensível e orientadas para transmitir/produzir investigação, catalogação, inventariação – conhecimento. Sobre a mais recente edição, no último trimestre de 2022, Cristina Veríssimo e Diogo Burnay assumem a curadoria de mais uma edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa, com o tema/título Terra.

No mesmo ano inaugura-se a Garagem Sul (2012), completando este ano 10 anos de existência, no parque de estacionamento do CCB. Com entrada direta pela Avenida da Índia e escadas até ao jardim das oliveiras, a Garagem Sul posiciona-se fora da ideia de autoria em Arquitetura. Distancia-se da ideia de monografia e retrospetiva do ou dos autores e da excecionalidade da obra, para conceber uma reflexão e aproximação que articula contextos sociais, económicos e culturais.

O que têm em comum a Garagem Sul e a Trienal de Arquitetura/Palácio Sinel Cordes? De certo modo, aquilo que podemos chamar de “novo institucionalismo”.

Ambos são organismos que vão beber à frescura e conhecimento de índole independente para a produção de novos cenários expositivos, contribuindo para uma modernização e cativação de outras realidades. A Trienal de Arquitetura que por um lado foi criada para ser uma presença assídua na sociedade civil, procura legitimação junto das Instituições (pares), e a Garagem Sul (como sala do CCB) procura uma abertura à cidade urbana, cosmopolita, abrigando novos discursos. Isto leva-nos a questionar se existem lugares independentes para se falar de Arquitetura ou se a profissão, as entidades e os seus agentes estão demasiado comprometidos com o sistema. Com a encomenda pública? Pode a arquitetura desvincular-se das instituições e posicionar-se na sociedade civil como reflexo livre e crítico?

Porto: uma escola urbana para dois Pritzkers

É importante trazer a pronúncia do Norte para esta reflexão. Os nomes de Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura confundem-se com a escola do Porto. Da mesma forma que o Porto, enquanto cidade, ou modelo urbano contemporâneo, se mistura com a obra de ambos os arquitetos. O reconhecimento internacional da arquitetura portuguesa com o título de Pritzkers Prize aconteceu em 1992, como já vimos, e 2011. O Porto surge no mapa mundial como a Meca da Arquitectura, e a

Faculdade do Porto como o berço de dois Nobel da Arquitectura. Esta relação intrincada e projeção mediática espoletou, além de um foco de atenção e reconhecimento, o eventual motivo para a criação da Casa da Arquitetura, do mesmo modo que sublinha a sua necessidade.

A Casa da Arquitetura instalou-se no edifício da Rua Robert Ivens numa casa pertencente à família de Álvaro Siza, que assina o projeto de requalificação. Funciona no espaço entre 2009 e 2017, quando se muda para a Real Vinícola, com a ambição em tornar-se o Centro Português da Arquitetura. A Casa da Arquitetura introduz uma diferente abordagem: arquivar, estudar e divulgar, através de diversos instrumentos, os acervos e espólios de arquitetura que sejam doados e depositados.

Em simultâneo, em parceria com a Câmara Municipal de Matosinhos, gere a preservação do património de edifícios como as Piscinas de Leça (1966) e a Casa de Chá da Boa Nova (1963), ambos projetos de Siza Vieira, ou a Quinta da Conceição (1960) de Fernando Távora, através de percursos e visitas guiadas. Desde 2015 que a Casa da Arquitetura passou a organizar o evento Open House Porto, na mesma lógica de divulgação e aproximação da disciplina aos públicos.

A Casa da Arquitetura assume-se com um lugar de repositório, até então ocupado por outras fundações, bibliotecas e instituições. Embora com um interessante e estimulante serviço educativo, a Casa da Arquitetura está associada à prática da profissão autoral (focando-se na retrospetiva da obra singular e na monografia, vejam-se os casos da grande exposição Souto Moura – Memória, Projectos, Obra ou da recente Flashback-Carrilho da Graçapatente até janeiro de 2023) o que pouco se articula com a autonomia de espaços transitórios. Difere do propósito da Trienal de Arquitetura e da extensão Garagem Sul.

 

À margem da Instituição:

O INSTITUTO

O Instituto, projeto de Paulo Moreira pede emprestado o nome ao “Instituto Pasteur”. Em 2018, os antigos armazéns farmacêuticos voltam a abrir-se à cidade, através de uma galeria que liga a Rua dos Clérigos, bem no coração da cidade, a um de muitos interiores de quarteirão no Porto. A ligação entre a rua e o pátio que antecede o Instituto é uma descoberta, tateamos pelo longo corredor até à luz projetadas nos muros azuis do logradouro. À semelhança do espaço, O Instituto desenvolve uma programação orgânica e multidisciplinar, oscilando entre arte e arquitetura e nos possíveis cruzamentos disciplinares que daí resultem, sempre com o foco na sociedade, comunidade, nos lugares e no território.

O Instituto tem na sua génese as características formais de um espaço independente. Localização e ocupação inusitada de um edifício atípico, colaborações com estruturas transitórias e distanciamento de uma visão enquadrada na normativa. Por outro lado, posiciona-se de modo a produzir um discurso informado, ensaiando diálogos sobre os pontos de conflito para uma multirreflexão e questionamento do que é ser contemporâneo na comunidade e sociedade. Debate ainda o papel do arquiteto na modernidade líquida em constante tensão e conflito. De certo modo, legitima temas que não cabem na esfera comum das instituições, embora gradualmente as Instituições tenham vindo a deixar-se contaminar e a integrar na sua programação algumas destas temáticas. Os temas não consensuais ganham uma diferente dimensão, seja publicações anuais resumo seja pela irrepreensível comunicação, é inclusive um dado comum a muitos destes espaços a importância do design.

A GALERIA DE ARQUITECTURA

A Galeria de Arquitetura, projeto da dupla de arquitetos Andreia Garcia e Diogo Aguiar, opera num campo diferente d’O Instituto. Não são uma galeria de autores e monografias, mas igualmente não se centralizam nos temas conflito presentes na agenda diária.

Importa igualmente entender a relação espacial da Galeria de Arquitetura com a rua e por consequência o público. Inaugura em 2016, na Rua do Rosário 191, num arruamento perpendicular à Rua Miguel Bombarda, num espaço térreo intersticial. Como primeira exposição, talvez em jeito provocatório, faz uma referência ao white cubee ao léxico expositivo da galeria/museu: Is this an architectural exhibition?. – pergunta-nos.

A Galeria de Arquitetura pretende responder ao que é afinal uma exposição de arquitetura e como pode esta moldar a sua programação. Naquela antecâmara de escassos metros quadrados, os arquitetos/curadores apresentaram exposições apontando futuros temas e ciclo. Em comum, além no notável trabalho gráfico dos cartazes de apresentação, todas as exposições trabalham a dinâmica da relação com a rua, sem mediadores ou obstáculos formais – um nicho inconclusivo ao transeunte.

Em 2017, a Galeria de Arquitetura muda-se para o número 99 da Rua Visconde de Bóbeda, próximo da Faculdade de Belas Artes do Porto. Uma vez mais as características do espaço são a pequena superfície comercial e a ampla montra para o exterior.

Há, portanto, uma estratégia de democratização, autossuficiência e autogestão. Os conteúdos são apresentados ao público sem aviso prévio e sem horário, numa lógica de montra pública ou antecâmara urbana. A galeria é vista da rua, como uma espécie de janela urbana, e é essa a principal interação.

ANTECÂMARA

A Antecâmara foi uma padaria com vitrinas de venda ao público em Arroios antes de se tornar o vestíbulodo gabinete de arquitetura de Pedro Campos Costa.

É uma galeria de arquitetura, ou espaço expositivo relacionado com a disciplina. É uma rádio, com programação coletiva, centrada na difusão conteúdos sobre a casa e as casas deles, dos outros, as ruas, as cidades e o território. É sobretudo um projeto que trata o som e não a imagem e por isso merece ser ouvida. A convite da Garagem Sul, a Rádio Antecâmara integrou uma residência no CCB, exibindo a emissão dos diversos podcasts. A instalação está no CCB até setembro de 2022 com o nome de SOUND IT, mas também nas plataformas de streaming.

Entre a Antecâmara e o programa de rádio de Manuel Graça Dias na TSF – Ao Volante pela Cidade – passaram-se 25 anos. Em quase três décadas é assumida a importância de debate sobre as cidades, vulgarizando-se programações específicas sobre a disciplina. Eventualmente o espaço independente da arquitetura ainda não foi criado. Mas a arquitetura tomou conta de alguns espaços que operam segundo cânones, estratégias e até estéticas independentes. Foram disseminados novos discursos sobre os limites e os múltiplos e possíveis cruzamentos de áreas. Desta forma, a arquitetura assume ainda uma preponderância nas discussões que tratam a construção das dinâmicas das cidades e dos seus habitantes.

Não se desvincula completamente da encomenda pública e do concurso e talvez por isso nunca consiga mostrar-se verdadeiramente autónoma. Os espaços dedicados ao tema assumem o título vulgar de “galeria” como estratégia de validação entre pares e pelo público. À parte de tudo isto, a difusão da arquitetura contemporânea portuguesa envereda por um campo de experimentação, de debate colaborativo e participativo, alicerçado pela produção e consequente reflexão de conhecimentos menos autorais e mais coletivos. Dito isto, há definitivamente espaço para independência da arquitetura.

 

 

[1] Texto e investigação desenvolvido no âmbito da cadeira Espaços Independentes lecionada por Sandra Vieira Jürgens, Pós-Graduação em Curadoria FCSH NOVA Lisboa.

[2] 2 DIAS, Manuel Graça. (1999). Ao Volante, pela Cidade. Dez Entrevistas de Arquitetura. Lisboa: Relógio d’Água.

 

Frederico Vicente (Lisboa, 1990) mestre em arquitetura (FA-UL), investigador e curador independente (pós-graduado na FCSH-UNL). Em 2018 funda o coletivo de curadoria Sul e Sueste, plataforma que pretende ser charneira entre arte e arquitetura, território e paisagem. Tem colaborado regularmente com o INSTITUTO, no Porto, cruzando diferentes disciplinas, de onde se destacam exposições como “How to find the centre of a circle” de Emma Hornsby e “Handmade” de Ana Paisano. Recentemente foi curador da exposição “Fleeting Carpets and Other Symbiotic Objects” de Tiago Rocha Costa, no AMAC, Barreiro. A atividade profissional orbita sobretudo em torno das múltiplas ramificações da arquitetura.

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