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Words don’t come easy de Rui Calçada Bastos na Galeria Bruno Múrias

Rui Calçada Bastos percebe a importância do segredo. O envelope enquanto invólucro, portador de um conteúdo latente, não nos diz nada – é uma fachada. Aqui, muitas vezes, nem o vemos – são luzes que o projetam, vidros e fotografias que o sugerem, como um espectro. Quando, de facto, aparece, encontra-se numa situação delicada: pendendo, suspenso de uma balança de correio, ou apoiado na estrutura de uma bússola, de espigão aguçado, apontando a norte, e ao nosso olhar. Baixarmo-nos para o abrir é impossível. O espigão cegar-nos-ia. Que enigma é este?

Talvez, a falta dele, apenas o pavor de uma afasia, a ansiedade de penetrarmos num objeto e ele nada nos dizer, estar vazio de propósito e conteúdo – espelha-nos, apenas, a nós e ao que lhe quisermos significar. Essa reflexão torna-se literal em Bullet Point, uma pequena escrivaninha de correspondência, coberta pela sugestão de envelope num vidro espelhado, que voltará, reconfigurado, em Love letter, love letter, go tell her, go tell her. Aqui, ao aproximarmo-nos, o espelho reflete-nos – quando lhe queríamos desvendar o segredo, mostra-nos a nossa imagem. Na intimidade das 5 obras que compõem a exposição, dispostas sob holofotes soturnos, periféricos, que evocam proximidade, há a concretização de uma ansiedade, um pesadelo silencioso. Talvez esta minha leitura se deva à tentativa de escrita de um texto que quer, inutilmente, desvendar alguma coisa, ou mais sensatamente, aproximar-se dela. Retirá-la do pesadelo e observá-la como um sonho, um silêncio etéreo, sempre suspenso, poderá ser a chave dessa aproximação. No entanto, até que ponto será ele a revelar-nos as palavras, se os envelopes estão fechados? Mentira. Há dois abertos. Em Heavy Weightlessness (já, no título, uma contradição) lemos uma mensagem: “Still is the Unspoken Work/ The Word Unheard”. A palavra que nada diz, como uma pele. Tudo aqui é pele, revestimento, oclusão. De acordo com a folha de sala, a frase terá sido inspirada por Ash Wednesday de T.S. Elliot, cuja continuação, aqui eliminada, é: “Where shall the word be found, where shall the word?/Resound? Not here, there is not enough silence”. Já em There are no walls between us vemos o processo de construção de uma mensagem: alguém que escava um espaço na parede para nele inserir um envelope fechado, em cujo interior, num papel, se lê o título da obra. O contexto dinamita a mensagem. A transparência semântica que evoca é quebrada pelo espaço real onde se insere. Tal como em Love letter, love letter, go tell her, go tell her, onde um conjunto de aparentes envelopes se desvendam apenas projeções através das quais vemos a parede que lhes serve de tela. Focos de luz inclinados numa sequência, como um relógio ou uma bússola. Ainda aqui, os vidros espelhados, por baixo, perpendiculares a estes focos, aproximam as composições de um computador, em que se projeta um e-mail invisível (o envelope ainda é o ícone do Outlook). Nada, no entanto, se revela.

Talvez esta seja uma exposição sobre desilusão, apatia. O que é que a escrita da mensagem vai revelar, se não nos encontramos abertos a recebê-la? O que é que os objetos nos podem evocar quando os vemos dentro deste white cube de quatro paredes? Provavelmente, um momento isolado de contemplação, dissipado à saída da galeria. No entanto, se houvesse desilusão, ela não se concretiza: a exposição não nos abandona. Tudo é demasiado enigmático para desistir. No seguimento da quarta fotografia de There Are No Walls Between Us, depois do envelope já disposto na parede, vemos apenas uma luz branca que ilumina a própria parede da galeria, um foco retangular como um fantasma de uma outra fotografia, que falta. Ficou a meio do caminho da imagem, tal como as obras, do seu desenlace. A trama constrói-se, para se fechar no último segundo. Teremos perdido o Norte que a bússola nos queria indicar? A iluminação circundante dos holofotes faz dos objetos guardiões de sombras graves, barrocas. Rui Calçada Bastos deve gostar de Maria Filomena Molder: o brilho seduz-nos; a sombra, o drama é o que nos falta decifrar. Não sei. Numa falha de comunicação é, na verdade, tudo isso que precisamos de saber. Resta-nos a possibilidade, a imaginação do que nos poderiam querer dizer, a esperança de ainda assim prendermos as palavras. Mesmo assim, o que é que poderiam revelar? O silêncio? Não necessariamente. O silêncio pode camuflar muitas coisas. Às vezes, um tímido amor que esconde uma condição vital, a que somos demasiado dependentes para ousar admiti-lo. Uma razão de ser, fazer. Tudo aqui é, na sua inteligibilidade, demasiado apaixonado: a dificuldade de comunicação é guiada por pontos de contacto minuciosos, delicadamente controlados, que nos seduzem, convidando à atenção de permanecer e descobrir.

Talvez a exposição queira ser aquela primeira, envergonhada, secreta, carta de amor. “How can I find a way to make you see I love you, if words don’t come easy?”.

Words Don’t Come Easy de Rui Calçada Bastos está em exposição na Galeria Bruno Múrias até 23 de julho.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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