Top

Synecdoche: HElena Valsecchi na Galeria Sá da Costa

Abundante na literatura, a figura de estilo sinédoque significa compreender várias coisas em simultâneo, consiste em tomar a parte pelo todo, e o todo pela parte. É neste conceito que a artista HElena Valsecchi se apoia para dar nome à sua exposição individual na Galeria Sá da Costa, onde pelo desenho e pela escultura vemos a sua extensa investigação e preocupação com temas relacionados com o sagrado, a memória, a vida ou a morte. 

Na sala principal da Galeria Sá da Costa, somos imediatamente absorvidos por Synecdoche (2020-22), a obra central que carrega o mesmo título da exposição. Esta peça começou a ser desenvolvida durante a participação da artista numa das residências artísticas da RAMA, nas aldeias de Maceira e Alfeiria em Torres Vedras, onde se promove o contacto com a natureza e a comunidade local. Sobre o processo desenvolvido na residência, a artista fala numa entrevista que algumas das suas referências visuais tiveram origem em dois museus que visitou em Torres Vedras, um o Atelier do Brinquedo e outro o Museu de Arqueologia. Nesta investigação interessou-lhe a ligação entre objetos de uso comum que ao sair do quotidiano se tornam sagrados, e brinquedos antigos que quando deixam de ser usados se tornam relíquias. 

Synecdoche (2020-22) trata-se de um extenso painel em aguarelas sobre papel que se alonga horizontalmente pela parede de maior comprimento da galeria. A sua composição é complexa, Synecdoche é só um mas também são vários, é um painel composto por inúmeros desenhos feitos em folhas retangulares de diferentes tamanhos que se foram agregando uns aos outros, formando um detalhado mosaico com diferentes motivos, planos e densidades. A tonalidade da obra ronda sempre os mesmos tons com azuis e cinzentos, abrindo lugar à leveza não só pela cor como pela aquosidade típica das aguarelas. A associação ao sagrado e ao espiritual é inevitável, em certos pontos a composição remete-nos para elementos visuais que associamos à arte paleolítica, ou até motivos inspirados nas pinturas murais típicas da cultura egípcia. Vemos mãos, silhuetas, corpos, rostos, formas sinuosas que sugerem o feminino, artefactos, animais, ou imagens que lembram esculturas anciãs. É de notar a intensidade que se faz sentir na extremidade mais à esquerda do painel, onde a malha fica mais densa, as folhas são mais pequenas, a tinta escurece, a escala dos motivos diminui e os detalhes aumentam. Sente-se o tempo ao percorrermos cada secção do painel, como se cada folha correspondesse a um período específico da vida da artista, tal como páginas de um diário.

Não há um caminho, cabe ao espetador decidir por onde quer começar a ver a obra. A narrativa não é linear, e o foco no nosso olhar é intuitivo. Cada uma das aguarelas funciona individualmente, são peças singulares que pertencem a um todo, mas que se ressignificam quando separadas. À medida que a exposição decorre e o interesse em adquirir alguma das pinturas vai surgindo, as folhas vão desaparecendo do mural, rompendo a continuidade do desenho no seu todo, mas lembrando a ramificação que se criará quando a obra se difundir pelos vários lugares a que pertencerá. HElena Valsecchi salienta assim a difusão da obra de arte, e a sua expansão no tempo e no espaço.

No centro da sala (que corresponde também à zona central do painel), está Vertigem (2022), um baloiço suspenso ao teto da galeria que tem o assento em vidro. O nome da obra indica uma sensação ilusória de movimento no nosso corpo ou à nossa volta, e o baloiço materializa a sensação de oscilação ou tontura; o vidro do assento intensifica a fragilidade do baloiço e, o movimento que os nossos olhos projetam sobre si, intensifica a tensão que se sente entre este objeto escultórico e Synecdoche. Em Vertigem (2022) Valsecchi fala-nos de qualquer coisa imaterial, que está entre o visível e o invisível, o tangível e o intangível, um ponto de tensão que é frágil e oscila entre dois opostos. 

Num outro momento da exposição, é de realçar a obra La Nostalgie du Paradis (2021) que se apresenta como uma promessa de unir o céu e a terra. Novamente pelo meio da aguarela a artista trabalha sobre um papel de formato irregular que foi trabalhado sobre rochas à beira-mar e submerso na água do oceano, ganhando as suas formas e rugosidades. As texturas pintadas são marcas da natureza e os pigmentos utilizados foram adquiridos no ambiente local. O papel sobre as rochas funcionou como um espelho do céu e as marcas nele presentes foram criadas pela terra. É uma harmoniosa união de elementos que recupera a ligação entre o céu e a terra, tal como um Templo antigo que prometia a comunhão com o divino. 

Em Synecdoche vemos a mestria de HElena Valsecchi pelo meio da aguarela, mas também o seu domínio das sensibilidades da escultura, numa exposição que nos transporta para o lugar do sagrado e do metafísico. 

Synecdoche está patente na Galeria Sá da Costa até ao dia 23 de julho de 2022.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)