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Sobre o céu não sabemos nada: Paralaxe

“There is no such thing as friendship at first sight, rather a gradual occurrence, a slow process through time. We were friends and hadn’t realized.”

(Maurice Blanchot, 2000)

Paralaxe é o nome do coletivo composto por Luísa Abreu, Carolina Grilo Santos e Diana Geiroto Gonçalves do qual têm resultado inúmeros projetos, quase sempre marcados pelo cruzamento entre investigação em arte e investigação científica, que se têm manifestado sob o formato editorial, virtual, expositivo e curatorial. Numa entrevista publicada no ano passado pela Arte Capital, Luísa Abreu confessa que a origem do coletivo Paralaxe resulta de “uma série de circunstâncias que se relacionam com a amizade”, “juntamo-nos de uma forma natural, afirma a artista.

A amizade é um conceito biopolítico, que condensa os paradoxos dos sistemas sociais contemporâneos. A amizade, no sentido da partilha, da construção de uma identidade comum e da mediação, pode ajudar-nos a imaginar uma nova experiência da liberdade e da igualdade. São conhecidos os estudos sobre a passagem de Aristóteles ô phíloi, oudeís philos, “Oh amigos, não há amigos!”[1] um estranho sentimento, ao mesmo tempo uma afirmação e uma negação. Alguns especulam sobre um significado menos enigmático desta frase, próximo de: “Aquele que tem (muitos) amigos, não tem nenhum amigo”. Para Derrida, a amizade é um dos exemplos de que os conceitos que nos parecem mais naturais estão cheios de contradições. “The possibility, the meaning and the phenomenon of friendship would never appear unless the figure of the enemy had already called them up in advance, had indeed put to them the question or the objection of the friend, a wounding question, a question of wound,” escreve Derrida. “No friend without the possibility of wound.”[2]. Como em todos os prolíferos binarismos, uma metade contém a semente da outra e a capacidade de autodestruição.

Não obstante, Blanchot apresenta uma perspetiva mais animadora, que espero elucidar por fim o motivo de começar este artigo por um tema tão vago que parece escapar ao tratamento analítico, “We must give up trying to know those to whom we are linked by something essential; by this I mean we must greet them in the relation with the unknown in which they greet us as well, in our estrangement.”[3]. Poderia dizer-se que é neste estranhamento, enunciado por Blanchot, que reside a origem do projeto Paralaxe, não só no intervalo entre o eu e o amigo, que na diferença aproxima as três artistas, mas na aparente infinita distância entre arte e ciência, distância fundamental a partir da qual o que as separa se torna relação.

Talvez seja inteligente desvendar aqui o significado de Paralaxe. Para rapidamente entender este fenómeno, o leitor deverá esticar o braço e levantar o dedo indicador, observando o fundo atrás deste. Depois, sem mover o dedo, poderá fechar o olho que estava aberto e abrir o outro. O leitor verificará, por fim, que o dedo parece deslocar-se relativamente ao plano de fundo.

“O termo paralaxe tem origem no grego parállaxis que significa mudança. De uso frequente no contexto científico, refere-se à diferença aparente na localização de um objeto a partir de pontos distintos de observação. Uma palavra que denuncia a falha no rigor da perceção autocentrada e estanque e que, por isso, se estabelece enquanto sistema métrico pela triangulação, cruzamento e análise da mesma coisa a partir de diferentes pontos de vista.”

(Paralaxe, 2022)

Uma vez mais, o imprevisível vem sabotar a estabilidade dos conceitos que (des)orientam o pensamento, aproximando a prática do coletivo do pensamento constelar colocado por Walter Benjamin, na “Origem do Drama trágico Alemão” (1928): “As ideias relacionam-se com as coisas como as constelações com as estrelas”, “as ideias são constelações eternas”. Poderíamos auxiliar-nos de outras metáforas, do rizoma ao arquipélago, mas as estrelas residem na génese das Paralaxe, não só por se apelidarem de um método de medição de distância entre estrelas, mas pela proximidade à temática do seu mais recente projeto.

Sobre o céu não sabemos nada, tem origem numa residência artística que convoca a participação de 23 criadores, para desenvolverem um corpo de trabalho a partir do Observatório Astronómico Manuel de Barros, em Gaia. Os resultados desta edição estarão expostos no mesmo local e poderão ser visitados até dia 9 de julho. De acordo com o que temos vindo a constatar as obras podem ser visitadas a partir da leitura de um mapa, possibilitando ao espectador optar por uma das infinitas entradas que este dispositivo permite, construindo o seu próprio percurso.

(…) o mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre si mesmo, ele constrói (…). O mapa é aberto, conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, passível de receber modificações constantemente. Pode ser rasgado, invertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser desenhado por um indivíduo, um coletivo, uma formação social (…).

(Deleuze e Guattari, 1995)

Um ano depois de Whether the Weather (projeto do coletivo que abriu as portas do Instituto Geofísico da UP), deambulamos por um inusitado jardim, onde descobrimos a facilidade da arte fincar em qualquer contexto. Entre um Grande Telescópio, um Círculo Meridiano de Espelhos e uma Torre Equatorial, Beatriz Sarmento mede o espaço através do próprio corpo, Bruno Silva testa os limites entre orgânico e sintético, Carlos Mensil oferece-nos jogos ilusionistas, Ece Canil uma experiência sonora cósmica, h0b0 articula projeções e hologramas, Joana Ribeiro propõe uma expedição pelo espaço e Juliana Ribeiro constrói uma grelha à medida do mundo, lembrando o conto “Sobre o rigor da Ciência” de Jorge Luís Borges. O Coletivo Paralaxe expõe também um vídeo que nos faz pensar sobre uma atividade que migra entre as artes e a prática artística curatorial, um fenómeno crescente que vem refletir sobre a figura do artista enquanto criador autónomo que se desvincula de uma relação fechada com o material e dos seus encontros privados com o mundo (como manda a tradição artística), mas é talvez também resultado dos novos paradigmas de trabalho e das relações de poder que hoje dominam o sistema da Arte Contemporânea. Resultaram ainda da residência uma série de jornais de artista, dos quais participam: Beatriz Brum, Carolina Grilo Santos, Diana Geiroto, Didático Obscuro (Luísa Abreu e Maria Bernardino), Irina Pereira, Luís Cepa e Rúben Fernandes.

Por fim, merece ser mencionada a plataforma web[4], rede de informação, mapa de interações por excelência, que acompanha o projeto na sua dinâmica constelar, apresentando uma série de colaborações satélite com Cinthia Mendonça, Coletivo SEM-FIM, João Pedro Trindade, José Taborda e yy.gemini.yy. Sem esquecer ainda a exposição na Galeria do Sol, inaugurada na passada sexta-feira, com Curadoria da Dose (Maria Miguel von Hafe, Mariana Rebola, Margarida Oliveira), que parte deste projeto para criar um Atlas de imagens e objetos, lembrando as composições visuais que Aby Warburg compilava sobre mesas. A partir de pequenos vestígios constroem-se novas afinidades, novas constelações.

 

 

[1] Agamben, Giorgio. (2007, fevereiro, 19). Prix Européen de l’Essai Charles Veillon 2006 [conferência], Lousanne.

[2] Derrida, J. (2020). Politics of Friendship. London: Verso

[3] Blanchot, M. (1997). Friendship. USA: Stanford University Press

[4] https://www.paralaxe.space/

Filipa Valente (Aveiro, 1999) frequenta o mestrado de Estudos Curatoriais, no Colégio das Artes (UC) e é licenciada em Artes Visuais e Tecnologias Artísticas, na Escola Superior de Educação (IPP). Trabalha na OSMOPE, como atelierista. É cofundadora da Galeria Ocupa. Escreve para a revista Umbigo. Foi assistente de Curadoria e Press-officer na Ágora_Bienal de Arte Contemporânea da Maia 2021. Participou na curadoria da exposição “No sonho do homem que sonhava, o sonhado acordou”, apresentada no CAPC (2021) e no MNAC (2022), sendo responsável pelos textos da folha de sala e da publicação. O seu percurso enquanto artista iniciou-se em 2019, destacando-se as exposições individuais: “Pedra Aberta” (Concertos que nunca existiram, 2019) e “A Forma do Vazio” (Galeria Ocupa, 2019); as exposições coletivas: “As pedras também constroem coisas” (Cisterna da FBAUL, 2021), “Presente Contínuo” (Centro de Arte Oliva, 2020), “Trabalho Capital # Greve Geral” (Centro de Arte Oliva, 2020) e “A Espessura do Mundo” (Espaço Mira, 2019); e a participação em eventos como: a mostra de videoarte no Canal 180, em parceria com a Ágora_Bienal de Arte Contemporânea da Maia 2021. Em 2021, participou no Laboratório de Investigação, Formação e Criação Artística | END+, produzido pelo Colectivo 84, com o projeto de escrita "Drama, na 3ª Pessoa" que integrou posteriormente o Festival END – Encontros de Novas Dramaturgias | 5ª Edição (2022).

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