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SEMPRE: Ana Jotta no Lumiar Cité

Um icónico sofá Knole de 1920, em veludo vermelho e com marcas do tempo. Atrás, duas cortinas entre os tons de amarelo e azul acompanham o canto da parede onde o sofá está situado, e nelas foi impresso a mesma imagem repetidamente: a silhueta de alguém num barco a remos. Esta primeira área da exposição é logo na entrada do Lumiar Cité, podemos sentar-nos no sofá e deixar a imaginação correr. É assim que Ana Jotta nos introduz a esta sua exposição individual a que deu o nome de Sempre.

Passando este micro cenário, vemos um cartaz, onde a tinta-da-china Ana Jotta põe em destaque a palavra “SEMPRE” e escreve em letras orgânicas:

– Está quente

– Está quente

E apontava.

Este cartaz parece ser um anúncio para aquilo que se desdobra no piso superior da galeria e as palavras, um diálogo da narrativa imaginada pela artista. Antes de subirmos ao piso de cima, somos confrontados por um espelho minimalista do artista Veit Stratmann que aqui esteve em exibição anteriormente a Ana Jotta. O resto da obra de Stratmann foi deixado a pedido da artista, talvez com a intenção de salientar o confronto do observador com a própria imagem. Somos introduzidos passo a passo, cada momento é um apontamento sobre o mundo conceptual de Ana Jotta.

O contraste luminoso acontece ao subir as escadas para o piso superior, passamos de um ambiente cheio de luz, janelas e reflexos, para um ambiente onde a luz se vai tornando cada vez mais rara. O primeiro objeto que se destaca são as inúmeras cortinas negras que se alongam desde o teto até ao chão. São cortinas de teatro, que em conjunto com o renuncio das luzes, acentuam a aura dramática deste próximo núcleo da exposição. “Ana Jotta apresenta um filme e desenha uma sala de cinema — a artista como produtora e realizadora? O título do filme: SEMPRE. Horários de exibição? Nem por isso, apenas os horários de abertura de uma galeria e um cartaz de cinema.” lê-se na folha de sala da exposição.

É neste piso superior que assistimos ao filme de Ana Jotta, que roda no centro da sala forrada com cortinas negras. O filme está desenhado numa tela de projeção, onde a artista ousou pintar diretamente sobre a sua superfície. Um único foco de luz ilumina a pintura, conferindo o efeito dramático digno de uma sala de cinema. A imaginação é a chave, e este foco de luz imita a função de um projetor. Na tela, os elementos estão circunscritos à moldura que imita o típico padrão azul e vermelho dos envelopes; são vários os elementos que habitam a composição e o uso da palavra continua a ser necessário. Aqui, lemos pequenas notas inscritas dentro de formas quadrangulares, com o verde, rosa e amarelo pastel que fazem lembrar os típicos post-it’s: “A day past, a memory day”, em baixo “But still a day”; noutro “A dead dead day” e de seguida “—That lives”. São apontamentos, que vivem sobre esta superfície juntamente com as diferentes formas que atuam na composição. Entre as palavras, o movimento, a mão, as sombras, o desenho e a pintura, SEMPRE é poesia e imaginação.

Não é só pintura, não é só instalação, é um cenário, é palco e é ação. O presente situa-se entre o que acontece e o que está para acontecer; SEMPRE, parece ser um intervalo de tempo, recheado de anseios e sensibilidades; anseio de produzir tudo o que for possível de realizar; anseio de fazer tudo, com tudo e para sempre. A economia de meios e a reutilização, realçam a energia de cada um dos objetos, que individualmente já carregam um passado. O sofá, as cortinas, o espelho e a tela de projeção, caem nas mãos de Ana Jotta, a artista produtora que reúne neste espaço um novo sentido para estes objetos.

SEMPRE está patente no Lumiar Cité até ao dia 31 de julho de 2022.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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