Top

Robyn Brentano & Andrew Horn, Carlos Bunga, Spencer Finch, General Idea, Kapwani Kiwanga, Eric N. Mack, Joseph del Pesco e Johnny Pootoogook na Galeria 3+1 Arte Contemporânea

Guardo na memória uma imagem de leveza, uma flutuação que contraria a força gravítica, demonstrando que, por momentos, é possível nos elevarmos sob o peso da Terra, num corpo poético em movimento para além do espaço e do tempo.

À entrada da exposição, levita um conjunto de balões presos por um fio a uma pequena pedra. Ao longo do tempo, perderão o ar, contudo, numa ação de prestidigitação, retomam o volume e posição iniciais, como no dia 26 de novembro de 2004, em que o artista Spencer Finch suspendeu um conjunto de balões sobre a montanha russa Cyclone, em Coney Island, aludindo à diversão dos parques temáticos, ao jogo e ao ludismo efémero à beira mar. Sky over Coney Island (2004) é uma evocação, uma tentativa de materialização de uma memória onde cada balão tem a mesma cor e dimensão dos balões suspensos naquele dia do passado. Contudo, o seu sentido de leveza e flutuação plena é apenas alcançada pelas mãos daqueles que os voltam a encher à medida que perdem o ar. É, por isso, no cuidar invisível, para além do artista, que a evocação se torna ainda possível. E é também assim, subtilmente, que o ensaio sobre a leveza permanece em exposição, expandindo-se para as outras obras, como All for the Want of a Whisper (2017), de Joseph del Pesco, onde sete pilhas de cartazes contêm um texto/provérbio – uma referência ambiental e geopolítica – com fundos de diferentes tons de cinzento, num degradê de cor que contém os tons do céu enevoado da ilha do Fogo, ou ainda, GENERI© (1992), do coletivo artístico General Idea, um balão brilhante vermelho e amarelo fechado numa moldura, que nos remete para uma instalação concebida em 1992 com 3000 balões suspensos em forma de comprimido, numa referência ao flagelo da SIDA e às promessas vãs da indústria farmacêutica perante a exclusão social, a doença e a morte de milhões de pessoas. Ao contrário da obra Sky over Coney Island, os balões não se voltam a encher, descendo definitivamente para o chão, no sentido da morte de um corpo que se reergue, aqui, como memória.

A exposição prossegue com Homeless #4 (2021) de Carlos Bunga, onde a pintura e a natureza consomem, ambas, paisagens antropogénicas, dando lugar ao nomadismo do corpo e ao movimento, perante a ideia da perenidade da casa ou da civilização. É este jogo dual, entre a vida e a morte, que se expressa ao longo do espaço, evocando-se a leveza e, em paralelo, a densidade temática e/ou física das obras, como no caso de Bodice (2022) de Eric N. Mack, onde o peso do tecido industrial, com todas as conotações simbólicas que podemos daqui extrapolar, tem uma aparência flutuante que se impõe na arquitetura. E, reiteradamente, a gravidade e a oxidação dos corpos atua sobre a matéria viva e inanimada, como podemos ler nas entrelinhas de Flowers for Africa: Angola da artista Kapwani Kiwanga (2020), onde um bouquet de flores, encontrado em fotografias do dia da independência de Angola, é reinterpretado e replicado em cada exposição a partir de floristas locais, cujo corpo e identidade é sempre invisível perante a construção das narrativas históricas. O bouquet envelhece e as imagens retêm a complexidade simbólica.

Por fim, convocam-se os desenhos a grafite Shaman (2018, 2019) de Pootoogook, onde um corpo humano invoca um espírito alado, e Cloud Dance (1980), de Robyn Brentano e Andrew Horn, um filme-coreografia editada onde o corpo do bailarino dança entre a escultura de tecido da artista Leonore Tawney.

Tal como Calvino1, na conceção desta exposição, Rui Mateus Amaral escolhe a leveza, e não o peso, mesmo sabendo que quando falamos de flutuações ou de atmosferas rarefeitas, trata-se de um exercício de potência de vida perante um corpo que recolhe à terra e se torna pó, matéria ínfima e subtil, como a memória e o Antropos.

A exposição com obras de Robyn Brentano & Andrew Horn, Carlos Bunga, Spencer Finch, General Idea, Kapwani Kiwanga, Eric N. Mack, Joseph del Pesco e Johnny Pootoogook, com curadoria de Rui Mateus Amaral, está patente na Galeria 3+1 Arte Contemporânea até 25 de junho.

1 – Alusão a CALVINO, Italo, Leveza in Seis propostas para o novo milénio, editora Teorema, 2006 (1996 ed. original).

Nota adicional: Texto concebido a partir de visita guiada por Rita Anuar e da folha de sala da exposição 18 Maio 2022, de Rui Mateus Amaral.

Margarida Alves (Lisboa, 1983). Artista, doutoranda em Belas Artes (FBAUL). Investigadora bolseira pela Universidade de Lisboa. Licenciada em Escultura (FBAUL, 2012), mestre em Arte e Ciência do Vidro (FCTUNL & FBAUL, 2015), licenciada em Engenharia Civil (FCTUNL, 2005). É artista residente no colectivo Atelier Concorde. Colabora com artistas nacionais e estrangeiros. A sua obra tem um carácter interdisciplinar e incide sobre temas associados à origem, alteridade, construções históricas, científicas e filosóficas da realidade.

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €34

(portes incluídos para Portugal)