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Galeria Energia: Entrevista a Filipa Ramos, Diretora Artística do Departamento de Arte Contemporânea da cidade do Porto

Galeria Energia é a nova programação da Galeria Municipal do Porto, que junta arte, música, natureza e ciência numa série de encontros. Um ciclo de concertos, debates e percursos ligados por quatro temáticas: Ciência é Arte, Concertos Comentados, Imaginários e Pastos e Pastos, onde convidados de várias áreas irão explanar sobre diversas temáticas em diferentes espaços da cidade, até ao final do ano. Entrevistamos Filipa Ramos, Diretora Artística do Departamento de Arte Contemporânea da cidade do Porto, para compreendermos melhor sobre o programa.

Ana Martins: Como surgiu a ideia para a nova programação da Galeria Municipal do Porto: Galeria Energia?

Filipa Ramos: Quando em janeiro cheguei ao Departamento de Arte Contemporânea da cidade, deparei-me com o facto de que a Galeria iria estar em obras. O que poderia parecer um grande problema, na realidade foi uma vantagem, porque em vez de começar imediatamente uma programação, iria ter um período para fazer pesquisa e descobrir e conhecer a vida cultural e artística do Porto. No entanto, a galeria e o departamento tinham de continuar a ter um diálogo com a cidade, com os seus agentes culturais, artistas e públicos.

Alinhado com o tipo de programações que tenho vindo a fazer ao longo dos anos, resolvi criar um programa que não tivesse raízes num só espaço, mas que se deslocasse pela cidade, tocando também várias áreas da produção cultural. Uma programação que se alineasse com a forma como a arte é uma modalidade de conhecimento e descoberta do mundo em que diversos conhecimentos, formas e experiências de nos relacionarmos entre nós (humanos e não só) se cruzam, dialogam e se constituem mutuamente, tendo em particular atenção a relação com as ciências naturais, o pensamento ecológico e as práticas artísticas time-based media—o cinema de artista, a música, a performance, ou o teatro. Em paralelo, a Galeria Energia dá a conhecer, ao vivo, figuras chave do pensamento atual, cujas ideias têm sido importantes para os grandes movimentos de transformação cultural e social do presente. Daí a criação deste programa, com momentos de natureza muito diversa que ocorrem em vários espaços, com durações e ritmos diferentes, que pretende preparar o terreno para a programação da Galeria nos próximos anos. A Galeria Energia é um programa aberto e elástico e também uma forma de ouvir a cidade na forma como se manifesta e participa, prestando atenção às vontades, curiosidades e interesses das pessoas para tentar imaginar como é que a programação da Galeria Municipal se sintonizará com os desejos de vários públicos.

O nome Galeria Energia concebe a energia como algo que nos une enquanto formas de vida: uma entidade que circula continuamente, que se absorve, transmite e reelabora sem nunca capturar plenamente.  A energia é algo que necessitamos, mas que não vemos, tal como a nossa programação, que não se baseia em exposições nem está ligada à materialidade dos objetos, mas que se concentra nas ideias, fluxos e intensidades que são transmitidas num processo de constante devir. A questão da energia também se relaciona com o pensamento ecológico para questionar atuais modos de vida e imaginar o nosso futuro próximo através do contributo único que a produção e o pensamento artístico, no seu modo transdisciplinar, podem dar para imaginarmos um mundo diferente.

AM: De que forma irão cruzar arte, ciência, música e natureza, tendo em consideração a sua pertinência para o pensamento contemporâneo?

FR: A Galeria Energia tem quatro eixos. No eixo Ciência é Arte estamos a convidar cientistas de diferentes áreas—neurocientistas, biólogos, engenheiros agrónomos—a partilharem os seus conhecimentos sobre temas que têm sido importantes para a produção cultural e sobretudo para as práticas artísticas dos últimos anos. Na primeira sessão convidámos a neurocientista Marta Moita, investigadora da Fundação Champalimaud em Lisboa, que tem estudado a raiz e os fundamentos do medo nos animais. Este convite para a abertura da nossa programação tem em consideração os últimos anos, em que vivemos com um medo abstrato, mas simultaneamente muito concreto. Pensando na forma como a cultura e a arte se têm relacionado com a realidade tão diferente dos últimos anos, era pertinente convidar uma perita como a Marta Moita a partilhar connosco a sua pesquisa sobre o medo, apresentando-o não tanto do ponto de vista artístico, mas científico, de forma a racionalizar o presente e melhor entendermos o que estamos a viver. Uma epistemologia científica para compreender os fenómenos e os afetos que nos atravessaram ao longo destes últimos anos.

Outro eixo, Concertos Comentados, também nasceu deste contexto atual em que não podemos ter um contacto muito direto ou muito consistente com manifestações ao vivo, como concertos, performances ou teatro. Os Concertos Comentados são um formato híbrido em que a experiência musical e a do concerto transforma-se num diálogo. Em termos práticos pedimos a várias pessoas que trabalham com a música para partilharem com os públicos as suas referências, influências e inspirações: o modo como se relacionam com a música. Convidámos várias pessoas com um background artístico e musical a comentarem, ao longo do concerto, a sua relação com os instrumentos, estéticas e sonoridades. Um concerto-conversa. O primeiro evento será um concerto na sala principal dos estúdios de gravação musical Arda Recorders, onde também está sediada a Fonoteca Municipal. Convidámos um músico do Porto, o João Pais Filipe, que constrói os seus próprios gongos e outros instrumentos musicais, a partilhar a relação que existe entre a sua prática escultórica e musical.

Os dois Concertos Comentados seguintes serão um com o duo artístico Invernomuto (Simone Bertuzzi e Simone Trabucchi), que tem estado a explorar as permutas culturais do Black Med, um território que, inspirado nas teorias do Black Atlantic de Paul Gilroy, considera as permutas, fricções e coexistências culturais que ocorrem no Mediterrâneo. Em Setembro, alinhada com esta componente de pensamento crítico pós-colonial, a música, produtora e artista Nkisi, alias de Melika Ngombe Kolongo, irá realizar uma performance nos Jardins do Palácio de Cristal, onde decorreu a Exposição Colonial de 1934, dando o seu contributo para o exercício de exorcismo que ainda assombra um espaço chave da identidade da cidade.

Para o outro eixo, Imaginários, convidámos duas pensadoras contemporâneas extremamente importantes: a poeta, dramaturga e escritora Claudia Rankine e a autora Saidiya Hartman, cujos trabalhos, ancorados nas tradições do pensamento pós-colonial, se centram na construção da identidade Africana-Americana entre passado, presente e futuro. O filósofo Emanuele Coccia será o terceiro convidado dos Imaginários, partilhando connosco a sua pesquisa sobre a metamorfose e a circulação da vida.

A quarta ramificação da Galeria Energia chama-se Pastos e Pastos e interpreta a palavra pasto no seu duplo sentido, relacionada seja com as pastagens dos animais como com a alimentação e refeição. Para este eixo, estamos a trabalhar com dois coletivos artísticos—A Recoletora e Landra—que trabalham nas relações entre ecologia e arte, incentivando o conhecimento sobre a existência de espaços naturais nos territórios urbanos. Levam arte através de caminhadas e workshops pela cidade, ensinando a olhar para a urbe de uma forma diferente e a mostrar novos entendimentos acerca dos terrenos baldios, como as ecologias que existem entre espécies vegetais e animais, mas também as possibilidades que existem em concebermos a cidade como um espaço em que a natureza coexiste com o humano.

A Galeria Energia move-se, portanto, entre pensamento científico, ritmos musicais, pensamento teórico-filosófico e ação ecológica, nesta transdisciplinaridade, criação, reconsideração pela natureza e intensidades intelectuais, que se comprometem com uma imaginação de como vivemos o presente e o futuro.

AM: Depois do interregno das obras no espaço da GMP, que linhas programáticas se irão seguir? Já pode revelar em que datas irá abrir a GMP e com que exposições e programação paralela?

FR: Creio que a Galeria Energia durará um ano e que a GMP reabrirá na Primavera de 2023. A programação vai continuar a estar muito atenta à cena cultural e artística do Porto com um foco particular nas gerações mais jovens, contribuindo a construir o futuro da cena artística da cidade. A nova programação vai estar particularmente atenta às características específicas da identidade cultural do norte do país, vendo o Porto como um epicentro dessa identidade, distinguindo algumas das características únicas que compõem o tecido artístico do Norte Ibérico, quer a nível de temas, motivos, mitologias e cosmologias, como em relação a modos de fazer concretos, metodologias e práticas artísticas. A Galeria Municipal vai também continuar a revelar as linhas que me movem, em particular a ecologia, o ecofeminismo, as práticas artísticas time-based media, como a imagem em movimento, o cinema de artista, componentes performativas e musicais, bem como o interesse em estabelecer diálogos entre a vida local e o contexto internacional. Iremos anunciar a programação detalhada no último trimestre do ano, quando tivermos também uma ideia mais clara do calendário de abertura da GMP.

Ana Martins (Porto, 1990) doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, é mestre em Estudos de Arte – Estudos Museológicos e Curadoriais da FBAUP, com a dissertação “O Cinema Exposto – Entre a Galeria e o Museu: Exposições de Realizadores Portugueses (2001-2020)” e licenciada em Cinema pela ESTC do IPL e em Gestão do Património pela ESE do IPP. Foi investigadora no Projeto CHIC – Cooperative Holistic view on Internet Content apoiando na integração de filmes de artista no Plano Nacional de Cinema e na criação de conteúdos para o Catálogo Online de Filmes e Vídeos de Artistas Portugueses da FBAUP. Igualmente foi bolseira do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação, prestando apoio nas áreas da produção, comunicação e assessoria de eventos culturais. Colabora na área da Direção de Arte em cinema, televisão e publicidade. É uma das fundadoras e curadoras do Coletivo Hera. Escreve para a revista Umbigo.

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