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Europa Oxalá – Exposição coletiva na Fundação Calouste Gulbenkian

Europa Oxalá, com curadoria partilhada entre Aimé Mpembe Enkobo, António Pinto Ribeiro e Katia Kameli, apresenta um conjunto de 71 obras, em múltiplos suportes e linguagens, concebidas por 21 artistas afrodescendentes das designadas 2ªs e 3ªs gerações. Patente na Galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian (até 22 de agosto), assume-se como uma exposição-manifesto, politicamente engajada, que hasteia múltiplas e pertinentes bandeiras – que, em última instância, passam pela necessidade de repensar a identidade europeia e sua memória em contexto pós-colonial. A seleção de obras contribui também, quer para contestar a classificação segmentária da “arte africana”, quer para reivindicar maior espaço de visibilidade para as mulheres artistas e, finalmente, para promover uma efetiva descolonização das instituições museológicas, de modo a abraçar o multiperspetivismo.

“Para mim esta exposição é um grito, é a voz que eu não tenho… Na escola tenho de estudar coisas que me magoam, que me ferem. Como a suposta História gloriosa dos portugueses mas nunca ninguém diz à custa de quem… Ou como a Mensagem dE Fernando Pessoa, e eu gosto muito de Fernando Pessoa, mas só as “lágrimas de Portugal”?! Eu também gostava de estudar um poema sobre as lágrimas do meu tetravô… O professor de “x” diz que temos de parar de falar sobre escravatura e colonialismo porque isso são coisas do passado. Como é que são do passado? Não é por causa delas que eu tive de ver morrer um homem da minha cor sufocado pelo joelho de um polícia? Não é por causa delas que o meu cabelo ficou todo estragado com produtos químicos porque achavam feio e sujo da forma como ele era ao natural? Não é por causa delas que a minha mãe é imigrante e não tem tempo para pensar sobre estas coisas de que estamos a falar aqui porque, quando põe a cabeça no travesseiro, a preocupação dela é chegar ao fim do mês e pagar as contas? Sabes o que eu gostava de fazer? Eu queria estudar Artes mas sou pobre e filha de imigrantes, e por isso ainda não sei o que vou fazer…”

A decisão de integrar um relato de Joana Simões Piedade (mediadora artístico-cultural), citando uma aluna do 12° ano (de uma escola secundária portuguesa), em visita à exposição “Europa Oxalá”, justifica-se enquanto prova da pertinência e do sucesso da mostra, ao testemunhar a sua capacidade para despoletar reflexões críticas e fervorosas que, em última instância, trazem para o debate público nacional, numa intuição de referência, temáticas tendencial e oportunamente silenciadas (quando não negadas), relacionadas com as consequências nefastas e violentas do colonialismo, da escravidão e do racismo.

Fenómenos históricos com persistentes legados discriminatórios nas sociedades europeias contemporâneas que se fazem sentir de modo particularmente intenso nas que partilham um passado e uma herança colonial, como é o caso de França, Portugal e Bélgica, países de onde provêm a maioria dos artistas representados (Aimé Mpane, Aimé Ntakiyica, Carlos Bunga, Délio Jasse, Djamel Kokene-Dorléans, Fayçal Baghriche, Francisco Vidal, John K. Cobra, Josèfa Ntjam, Katia Kameli, Malala Andrialavidrazana, Márcio Carvalho, Mohamed Bourouissa, Mónica de Miranda, Nú Barreto, Paulina Valente Pimentel, Pedro A.H. Paixão, Sabrina Belouaar, Sammy Baloji, Sandra Mujinga e Sara Sadik) e por onde exposição circula em itinerância (já passou pelo Mucem, em Marselha e seguirá caminho para o Museu Real da África Central – AfricaMuseum, em Tervuren).

Outro dos méritos da exposição, também percetível a partir das considerações da estudante, é contribuir para questionar as narrativas coletivas, lineares e amplas, assentes no eurocentrismo enquanto paradigma de conhecimento e modelo de interpretação hegemónico da realidade, que prevalece desde o projeto multissecular da modernidade  (abraçado pelo capitalismo) e se traduz numa visão da História em que o velho continente teima em se assumir como seu produtor exclusivo (gerando epistemicídios). Ao dar destaque às experiências individuais, em torno do conceito de pós-memória – assumido eixo conceptual da exposição – salientam-se as experiências de alguma forma traumáticas que permanecem vivas nas memórias pessoais e familiares dos artistas representados que, apesar não as terem vivenciado diretamente, as carregam no corpo e o no espírito e as transportam, enquanto energia criativa crítica, para as suas obras.

O design expositivo, que inclui black boxes (que acolhem vídeos, alguns ligados ao afro futurismo), está estruturado de modo a garantir ao público uma fruição pausada das obras que se repartem entre algumas cuja leitura é mais imediata e inusitada, e outras que exigem uma maior disponibilidade para o estabelecimento de diálogos. Esta heterogeneidade permite uma maior transversalidade em termos de cativação de públicos, o que representa uma mais-valia numa mostra que, acima de tudo e a diferentes níveis, se pretende inclusiva. A exposição também favorece, e nisso é internacionalmente pioneira, a perceção de que existe um grupo de artistas afrodescendentes que se assume cada vez mais como uma comunidade de âmbito transterritorial, protagonizando reconhecimento e circulação permanente em diferentes e prestigiados acontecimentos da cena artística contemporânea.

Tendo como critério exclusivo (e legítimo) o gosto pessoal, entre as obras em exposição merecem destaque duas. Por um lado, um desenho monocromático realizado a lápis de cor sobre papel, por Pedro A.H. Paixão (Angola, 1971), que corresponde ao retrato de uma mulher, mestiça, e se baseou numa fotografia da bisavó do artista. Sobressaem os seus olhos que são tão perturbadores que o olhar do espectador procura escapar. É preciso ceder, enfrentar, para descobrir pormenores reveladores: apesar da sua serenidade aparente, numa das mãos, sobre o regaço, a mulher segura uma pistola; uma serpente pende do seu pescoço e, na cabeça, sustenta uma flor venenosa que, mais do que um adereço, é um dispositivo de irreversível fuga – ficção e realidade fundem-se e destabilizam. Por outro, uma das fotografias que Sabrina Belouaar (França, 1986) apresenta e na qual se vêem as mãos de uma mulher argelina carregadas de anéis de ouro. A bela imagem, com vocação documental, remete para uma prática corrente nos países da costa oeste africana, com forte influência islâmica, e se traduz no ostracismo de que algumas mulheres são vítimas, primeiro pelas suas famílias e depois pela sociedade. Por motivos tão diversos como a alegação de infidelidade, muitas são expulas de casa e deserdadas, sendo que o único património valioso que levam consigo corresponde ao que o seu corpo consegue transportar – ou seja, as suas jóias. Grande parte delas, para sobreviver, reúnem-se em comunidade e alimentam um mercado paralelo de transação de diversos produtos.

Europa Oxalá, olha para o passado para projetar um futuro em que o hibridismo étnico-racial, cultural e artístico se assuma definitivamente como o pilar diferenciador da identidade europeia e a sua principal imagem de marca. Europa Insha’Allah.

A exposição Europa Oxalá, está patente na Fundação Calouste Gulbenkian, até 22 de agosto.

Licenciada em História Moderna e Contemporânea, possui uma pós-graduação em Gestão Cultural e outra em Jornalismo. Fundou, coordenou e foi redactora da revista Artecapital. Foi redactora principal da revista Artes & Leilões e correspondente da revista Arte y Parte. Actualmente trabalha como mediadora cultural sobretudo no Museu Gulbenkian.

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