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Lisbon by Design – Palacete Gomes Freire

Hal Foster, em 2002, no seu célebre livro “Design and Crime, and other diatribes”, recordava Bruce Mau, e os princípios de design que este designer defendia nos finais dos anos 80. Era com Mau que surgia, como manifesto, o termo “Life Style”, e a aproximação deste à vida, enquanto prática alicerçada na ética.

O evento Lisbon by Design lembra este compromisso com a ética, e a compatibilidade com a vida, harmonizada com a sociedade e os seus vários protagonistas.

Frases como “desenhar o invisível”, ou “Não estamos acima ou separados da natureza” espelham bem a preocupação que Mau manifestava face aos problemas ambientais, às questões de sustentabilidade, e às condições de vida das pessoas.

Hal Foster, porém, insurge-se no livro “Design and Crime”, ou pelo menos questiona-se, sobre a indiferenciação manifestada no início do século XXI, pelas correntes de design, quanto às suas próprias fronteiras operacionais, e à prática projetual. Dir-se-ia que Foster não compreende qual a razão de os designers terem recuado um século e glorificarem o período da arte nova, em nome de um design total, menos comprometido com o industrialismo.

Na verdade, é justamente esse amenizar de barreiras entre disciplinas, nomeadamente entre arte e design, design e artesanato, artes maiores e artes menores, populares ou folclóricas, que o designer, assim como o artista, puderam almejar chegar ao ponto a que chegámos –  apesar de ainda haver muito para fazer – e que compreende poder presenciar agora, com a exposição de Lisbon by Design, ocorrida no Palacete Gomes Freire, o testemunho do longo trabalho que designers, artesãos e artistas têm realizado, um design mais sustentável, ligado à vida, ao ambiente e às próprias pessoas.

Se houvesse um preconceito ligado à definição das várias áreas, estaríamos ainda a ignorar as necessidades das pessoas, a sustentabilidade das suas comunidades, a identidade dos seus grupos, o próprio sustento. Um estilo de design para a vida, eticamente correto, pressupõe não descurar, ou recalcar, as pessoas, independentemente das suas crenças, culturas, etnias e religiões. O design é um agente que pode servir, como ferramenta, para diluir as discrepâncias sociais, e consequentemente gerar riqueza onde ela é mais precisa.

Uma das áreas onde o design pode dar o seu contributo é no sector do turismo. Em tempos escrevi que um país forte nesse sector não poderia garantir a sua viabilidade se não tivesse um vínculo forte com as suas tradições e origens. Caso contrário, como podem os povos atrair outros povos se na terra onde residem só podem oferecer o que existe nas outras terras todas?

Esta exposição reflete também preocupações embebidas em questões da globalização, identidade e sustentabilidade das comunidades locais. De outra forma como poderão as comunidades alcançar algum bem estar, e alguma felicidade, assim como o sentimento de pertença a uma sociedade, a um lugar, se as suas referências culturais desaparecerem, e forem substituídas por outras?

O design, assim sendo, e se bem aplicado, também pode ser um agente de apoio ao património, seja ele material, imaterial, móvel e imóvel. Longe vai o tempo em que havia um certo pudor quando se imprimia sobre os objetos valores do passado, histórias ou incisões que faziam recordar outros tempos. Dizia-se, segundo Loos, que o que fosse supérfluo deveria ser suprimido no design. Se ainda hoje o nosso pensamento crítico tivesse assente sobre esse princípio, não tínhamos agora peças de design que resultam da colaboração de designers com artesãos. Não teríamos uma fusão de linguagens que permitem a multiplicação de ideias. O design continuava a responder, numa condição totalmente subordinada à indústria, às necessidades do lucro, do consumo fácil. E por isso, pouco próximo da natureza e da preservação do ambiente.

Um olhar ao serviço da indústria, reducionista quanto à forma das coisas, racionalista, estéril, como diria Marcel Wanders, reprimiu, durante décadas, a possibilidade de se encontrarem novas soluções para os objetos, no que diz respeito a questões ambientais. A pouco e pouco, a imposição economicista, e industrialista, do design, sobretudo do século XX, e que perdura como uma doença até aos nossos dias, impregnou a opinião geral de que as formas minimalistas é que são as politicamente corretas, e que qualquer contaminação fora do âmbito reducionista é pura derivação, “desire” que deve ser punido. A perfeição dos objetos da indústria, sem máculas, arranhões, sem admitir o erro, a assimetria, ou as escoriações, danificaram a nossa perceção do desenho, e inculcou-nos a culpa. Esse pensamento industrialista, seriado, sempre igual, também nos afastou da diversidade da natureza. Moldou-nos para uma ideia de que o certo era o previsível, o racionalizado. A natureza é variada, mas o olhar antropocêntrico, de superioridade do homem sobre todos os outros seres vivos, mantido durante séculos, tem conduzido à extinção da diversidade da natureza e as suas múltiplas espécies. Felizmente o século XXI trouxe outro sentimento ao desenho e ao projeto de design.

A exposição Design Lisbon revela um corpo de trabalhos que refletem estas preocupações, e um sentido de responsabilidade ética face à sociedade, às tradições, à natureza, aos valores locais, e à identidade das comunidades. A espelhar esta visão temos primeiro, a exemplo, as peças criadas por Sam Baron, numa residência promovida pela parceria Passa ao Futuro & Fundação Ricardo Espírito Santo. Ao entrar na sala, onde se encontram os projetos, podemos observar as sinuosas e delicadas formas do candeeiro Feuillade Wall. As delicadas e fulgentes folhas e hastes são feitas em ferro, folha de flandres e ouro, tornadas possível, também, pela colaboração dos artesãos e mestres latoeiros António Almeida e Clara Sales, Paula Braz, Ivo Ferreira.

Na mesma sala, acompanham a peça de Baron, a peça Gardienne, em latão e couro lavrado, de Marre Moerel, desenvolvida com a ajuda dos artesãos Beatriz Canha, António Almeida e Ivo Ferreira. Encontramos ainda, muito bem inseridos no espaço, e em harmoniosa articulação com as outras peças da sala Passa ao Futuro, as peças Das Tuch, em lã, de Daniel Heer e Cian McConn, que contaram com a colaboração das artesãs Helena Rosa e Fátima Mestre; a Cama de Ópio de Marco Sousa Santos, em ferro pintado e couro lavrado, realizadas com a colaboração das artesãs de Teresa Romão e Beatriz Canha.

Ainda na sala ocupada pela editora Passa ao Futuro observamos, fixado no teto e a elevar a belíssima peça Beverly de Emmanuel Babled, uma peça impressionante de Célia Esteves, feita em palma, e de nome Caclé I. A peça, como uma tapeçaria, é entretecida, aparentemente, sem uma ordem geométrica precisa. A palma, entrelaçada pela artesã Sónia Mendez, parece desenvolver-se como se fosse um organismo vivo, de forma fluída, ao acaso, sem se saber muito bem qual será o seu desfecho final. É uma peça de facto incrível, que voga no indefinido, no que dificilmente pode ser nomeado, e que é o que mais confere coesão e unicidade entre as diferentes peças, fazendo a ponte. Será design, arte ou artesanato? Caclé I é uma peça imersiva que transporta a sala para um outro espaço reflexivo, para outras possíveis narrativas.

Nesta sala ainda podem ver-se Tempo, uma peça de Christian Haas, em que o designer usa a pedra, inox, baracejo.

A galeria Analora trouxe ao evento os jardins de lã de Vanessa Barragão. Peças que, à semelhança da obra Myocos apresentam uma clara alusão ao vegetalismo e à flora marinha. Mais uma vez a natureza é o mote da obra de Barragão, com destaque para a tapeçaria tridimensional, em que, na imaginação de todos, apetece contornar as flores exóticas e finas que despontam da base, e nos transportam para um imaginário art nouveau, de um paraíso há muito perdido.

Ressalta-se a preocupação da designer em usar lã exclusivamente reciclada.

A designer usou também a forma dos corais, e, em conferência de imprensa, salientou que usou a cor para ressaltar a vida, evitando o branco, uma vez que essa é a cor que representa a fase da morte nos corais.

As peças de António Vasconcelos Lapa integram, com a sua cor e brilho, de forma harmoniosa o conjunto da galeria, e comunicam, com a sua organicidade, devidamente com as peças de Barragão, entre outras. Numa galeria que conta ainda com a representação dos artistas Almerinda Gillet, Fabienne Auzolle, Iva Viana, Catherine Wilkening, e Thomas Mendonça.

Ainda nas exposições que integram o espaço Lisbon by Design podem referir-se, os também importantes projetos Flores, do Textile Studio, os candeeiros Luumi, a cerâmica de Pedro Pacheco, em colaboração com Edward Schilling, os arquitetos do atelier Estado Bruto, as peças contemporâneas em lã inspiradas em técnicas tradicionais de João Bruno, o projeto Ria Formosa, de Filipa Almeida e filha, em que se destaca a tapeçaria Ponta da Culatra, e o projeto de Henriette Arcelin, sobretudo a cerâmica Murice, desenvolvido em parceria com a fábrica Viúva Lamego.

As peças de Tomaz Viana acentuam a história do design, parecem prefigurar o desenvolvimento técnico da história da cadeira moderna, recordam até a ligeiríssima cadeira Manuel da dupla de arquitetos Sara Aoom de SousaVasco Lima Mayer.

Lisbon by Design está a decorrer no Palacete Gomes Freire de 21 a 22 de maio.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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