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Moldada na escuridão – Hugo Canoilas na Fundação Calouste Gulbenkian

O texto de Rachel Carson, «The Gray Beginnings»[1], sublinha a presença primordial do mar no planeta e nos corpos das espécies vivas que o habitam: “cada um de nós transporta nas veias uma corrente salgada, na qual se combinam os elementos sódio, potássio e cálcio em proporções semelhantes às da água do mar.”[2]. O mar é para Carson a capa protetora do planeta, um elemento fundador do qual descendem todas as formas de vida. Na Fundação Calouste Gulbenkian, também podemos encontrar marcas dessa herança.

Moldada na escuridão, de Hugo Canoilas, partilha com Rachel Carson esse elo – o mar-, pensado como uma experiência partilhável, comunitária, cuja história a bióloga procurou contar através de fontes diversas, e que Hugo Canoilas devolveu ao público na galeria de exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian.

A proposta de Hugo Canoilas e Rita Fabiana, curadora da exposição, surge de um trabalho de permanente diálogo, cooperação e cuidado. As peças mostradas na exposição resultam de três momentos expositivos distintos[3], qualquer coisa que alimenta a noção de circuito e fluxo que qualifica a exposição, e a própria relação entre artista e curadora.

À entrada não encontramos um guia, como é hábito, mas antes cinco trabalhos que pretendem ser a luz necessária à experiência que podemos ter no interior da galeria escura[4]. Destes trabalhos, destacaria a gravura de Susan Hiller, The territory of imagination is not the property of a privileged group (1983).

No trabalho de Hiller, encontramos figuras que interpenetram traços de espécies distintas entre si, bem como criaturas que parecem não pertencer a nenhuma categoria existente. No entanto, todas as figuras apresentadas por Hiller estão implicadas numa narrativa que as legitima: sejam cavalos, insetos, corpos semi-humanos, um barco-dragão, todas elas são dignificadas na narrativa de Hiller. Esta atitude aproxima-se do trabalho de filósofas como Donna Haraway, com o enfoque na noção de speculative fabulation[5], ou Vinciane Despret, cujo cruzamento entre filosofia e psicologia, a conduziu ao estudo aprofundado de espécies animais[6], procurando legitimar uma perspetiva sobre o mundo assente em lentes que se afastam de uma hierarquização entre espécies, qualquer coisa que potencialmente sugere Hiller.

Diria que parte desse trabalho, a procura por construir outras modalidades de estar e habitar, está implicada na proposta de Hugo Canoilas em Moldada na Escuridão. Ao entregar os corpos ao espaço da galeria sem um guia, Canoilas coloca outras hipóteses de fruição no debate, essas que estão empenhadas em desierarquizar planos – espectador; obra; título; mapa; texto de exposição – não existe plano, ou ainda, existe um plano no qual todos os elementos confluem em simultaneidade. Assim, é-nos feito o convite para habitar e experienciar um lugar à margem de modelos, no presente.

Canoilas substitui um saber fixado por um saber em movimento – uma corrente de água. Fazer mais do que saber. O artista torna-nos parte desse movimento que se constrói e que não existe a priori. Não existindo um percurso definido para a visita, todas as narrativas são legítimas numa exposição que mais do que um lugar para ser visto, sugere um lugar para ser vivido.

A sala apresenta uma série de esculturas que se confundem com elementos do mundo natural, recetáculos onde vemos estar colocada essa substância primordial, remetendo ainda ao texto de Carson. Os recetáculos, ou poças, são peças moldadas a partir da natureza, com gesso acrílico. A partir da relação com a natureza, e da estadia das peças temporariamente ao abrigo de dela, posteriormente as mesmas são trabalhadas. O artista permite que resíduos orgânicos e industriais acompanhem as esculturas, um gesto que abarca a totalidade das intersecções entre o mundo natural e as espécies que aí coabitam.

Existem diversos ecossistemas na exposição, os quais somos convidados a experimentar com todos os sentidos. A visão é primeiramente requisitada e deixamos de ver apenas com os olhos para passarmos a ver com o corpo inteiro. Passados alguns minutos, a visão sofre um ajuste e já podemos ver no escuro.

Neste ponto importa notar que a pintura ocupa grande parte da exposição, mas também ela se emancipa e deixa de ser vista apenas com os olhos. Ao caminharmos no espaço, encontramos elementos têxteis dispostos pelo chão, pinturas sob as quais somos convidados a caminhar. As peças de vidro que encontramos a flutuar em algumas das poças, também são pintadas evocando reminiscências dos fundos marinhos e as criaturas e plantas que nele habitam.

Diria que a exposição procura ser um lugar partilhável, e o mar possui esse carácter, como refere Carson. Parte dele está em nós. Ativando um lugar que não pretende responder a hierarquias, a possibilidade que é traçada em Moldada na escuridão, é a de que os espectadores sejam-com os elementos encontrados no espaço. Também nós somos agentes ativos na construção do lugar que Canoilas nos oferece.

A exposição, Moldada na Escuridão, de Hugo Canoilas patente na Fundação Calouste Gulbenkian até 30 de maio.

 

 

[1] O texto de Rachel Carson (1907-1964), bióloga e escritora norte-americana, pode ser lido no catálogo feito por ocasião da exposição, sendo que o mesmo se trata de um capítulo da obra The Sea Around Us, de 1950. Ver Rachel Carson, «The Gray Beginnings» em, Hugo Canoilas, Moldada na Escuridão, Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2022

[2] Idem, ibidem, p. 10

[3] As peças que podem ser encontradas na exposição resultam de três momentos anteriores nos quais Hugo Canoilas investigou em torno do oceano. Falamos da exposição que teve lugar em Serralves em 2020, no mumok de Viena e na Kunstverein de Hamburgo, em 2021.

[4] À entrada da exposição podemos encontrar trabalhos de Susan Hiller, Túlia Saldanha, Fernando Calhau, Ana Hatherly, e René Bertholo.

[5] Ver Donna Haraway, Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene, Durham: Duke University Press, 2016

[6] Destaco as obras de Despret: Living as a Bird, Trad., Helen Morrison, Cambridge: Polity Press, 2021; Autobiographie d’un Poulpe et autres récits d’anticipation, Arles:Actes Sud, 2021; What Would Animals Say If We Asked the Right Questions?, Trad., Brett Buchanan, Minnesota: University of Minnesota Press, 2016

Rita Anuar (Vila Franca de Xira, 1994), é investigadora interdisciplinar, licenciada em Ciências da Comunicação, Pós-graduada em Filosofia (Estética) e mestre em História da Arte Contemporânea, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Integra o grupo de investigação em Literatura, Filosofia e Artes (FCSH/IELT), desde 2020. Interessam-lhe os cruzamentos entre artes visuais, filosofia e literatura, a indisciplina e o vento. À parte da sua atividade como investigadora, escreve poesia.

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