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Degelo Desenho 1989-2021 de Inez Teixeira na Fundação Carmona e Costa

Um desenho delicado de Inez Teixeira, a grafite, sem título, de 2000, apresenta a imagem de um rosto feminino deitado, que se eleva, como se estivesse a alma a desprender do corpo. Lembra os maneirismos do romantismo inicial, ou tardio. Os olhos vagos, semicerrados, a boca inerte, ressoa à antiga obra de Millais, ou à figura de Ophelia, deixada imersa no lodo do rio Hogsmill, em Ewell, rodeada de margaridas, ranúnculos e urtigas.

Tal como na obra de Millais, não sabemos se a figura desenhada por Teixeira dorme, ou se, por outro lado, a alma já abandonou o corpo.

A linha suave do rosto da figura feminina, desenhada pela artista, também recorda o corpo languido de uma jovem romana, pintada algures num quadro de Delaroche, e mergulhada no rio Tibre. Ou ainda uma obra de Fuseli, O Pesadelo, onde uma figura que evoca os seres demoníacos, assombra a cama de uma jovem mulher, com o intuito de levar a sua alma. Mais acima, um outro desenho de Teixeira, ostenta uma figura com uma enorme boca aberta e uma língua cheia de espinhos. Parece aludir justamente a esses seres da escuridão, que irrompem dos sonhos para capturar a vida das jovens, enquanto dormem.

Ao observar este pequeno grupo de desenhos não deixei de associar a obra da Teixeira aos seres grotescos desta época, e sobretudo à teia que a artista parece urdir, entretecer, e entrelaçar, sugerindo e convocando o tempo e o pensamento para o emaranhado dos estilos e períodos da História de Arte. Fazendo-me vogar pela história, sem ser pelo modo cronológico, mas antes, como um arquivo, pelas ligações que podem existir entre as várias obras. Existem várias Ophelias de Shakespeare, ou sacrifícios de jovens aos deuses na Historia da Arte, será esta cabeça que se eleva, mais uma dessas mártires?

Contudo a minha mente, que não se desprende do romantismo, confronta-se com a série Degelo, também da artista. A primeira impressão é de um sentimento de um vazio desconcertante, de algo que foi arrancado ao quadro. Manchas de luz repetem-se na série, aureolada por diferentes tons de azul, ou carmim. Procuramos pelo que foi retirado, suprimido, e a minha fantasia ainda voga, agora por um William Blake, sobretudo pelo “Ancião dos Dias” e a figura masculina que irrompe energicamente desse buraco de luz para nos intrigar, ou inquietar. Um poema de Blake impõe-se nas minhas derivações: ” Vagueio por ruas violadas (…) noto em todas as faces encontradas/sinais de fraqueza e sinais de dor”.

Mas seria redutor resumir os desenhos da artista apenas a este hiato de tempo. Não passam de leituras engastadas em referências pessoais. O desenho é relação, transformação, transição. E cada desenho da artista pressupõe uma abertura para uma outra coisa, ou para um outro caminho criativo. Um desenho que, apesar de orgânico, na sua sugestão, apesar de abstracto, evidencia um potencial conceptual, de simulacros, sobreposições, transparências. Coabitam, no mesmo espaço, desenhos que abrem outros campos, e outras interpretações. A própria artista referiu, em entrevista, que gostava que os seus desenhos pudessem ter várias leituras.

Os desenhos da série Chama, 2014, reportam a esse limiar da interpretação, a esse lugar de leituras dúbias. Serão troncos de árvore nodosos, ou antes fragmentos de ossos em deterioração? Serão paisagens ou, pelo contrário, observações à lupa de um organismo microscópico? Os desenhos de Teixeira são estruturas que se transmutam, se configuram em outras identidades, tornam possível outros modos de ver, e pensar, indefinidos, indizíveis, além do pensamento racional. O leito do desenho fornece refúgio para a criatividade artística, por vezes aleatória, por vezes desprovida de sentido, em direcção ao saber que não se prende à interpretação fechada, mas pelo contrário, a várias leituras. Um lugar para o variegado, para o diverso.

As obras presentes na galeria da Fundação Carmona e Costa parecem conduzir-nos para um sentimento de degeneração da matéria. Um fim, inexorável, materializado pela série fluída Paisagem, em acrílico sobre papel. Não consigo, nesta série, dissociá-lo do título Degelo, que dá nome à exposição, e, mais uma vez, reporta-me para o romantismo obscurantista, e sublime, da obra O Mar Polar, do pintor alemão Caspar Friedrich.

A exposição Degelo Desenho 1989-2021, com curadoria de Nuno Faria está patente na Fundação Carmona e Costa até ao dia 21 de maio.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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