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Synchronicity | Uma exposição de partilha e Aires | Uma performance em três actos na Plataforma Revólver

Synchronicity: Uma exposição de partilha, inaugurada na Plataforma Revólver, é diversa, aberta: pretende mostrar-nos simulações do mundo natural, expressões autorreferenciais, ecologias vistas através de um olhar manipulado, humano e as suas consequentes repercussões – simbólicas, políticas, estéticas. Ao longo de 8 salas, a exposição mostra-nos o trabalho de 6 artistas: Pedro Cabral Santo, Joana R. Sá, Susana de Medeiros, Rafael dos Santos, João Timóteo (à data da visita à exposição, a obra de João Timóteo ter-se-á, infelizmente, quebrado involuntariamente e, na consequente incapacidade de a analisar, irei omiti-la deste texto) e Luís Alegre.

Será o nome de Pedro Cabral Santo que mais iremos ver ao longo da mostra: foi dele, aliás, que partiu a conceção da exposição. Começamos com Twelve Mistakes, uma escultura expandida onde vários dardos vermelhos, azuis (símbolos de oposição), brancos (a união da totalidade) escapam aos alvos circulares, feitos telas: acertam todos ao lado, à volta, na parede. Esta ideia de falha, escape, tensão – para já, pontos de partida conscientes para uma exposição de arte contemporânea – irá relacionar-se com The Green Arrow, uma obra audiovisual do artista, vista já perto do fim da exposição, onde se entrecortam formas circulares à procura de uma focagem, cronometradas por contagens decrescentes em milissegundos, com um vídeo em câmera lenta de uma jogadora de dardos, concentrando-se para atirar – nesta contagem residimos numa suspensão de tempo, nos tensos instantes da jogadora à procura de uma posição para atirar, convertidos em minutos, enquanto nas focagens e desfocagens desse círculo espelha-se um olho que podia ser o nosso, reflexo do espectador na sua possível incompreensão momentânea: foca, desfoca, procura, detém-se. As obras de Cabral Santo precisam de tempo para se revelarem, para lhes fazermos sentido. Ainda assim, e apesar de se mostrarem conscientes quanto à situação em que se encontram – seja o espaço literal da galeria, como um contexto social, político, mais alargado – acabam muitas vezes por incorrer numa excessiva intelectualização, que pouco mais provoca à exceção do prazer instantâneo da sua resolução. O simbolismo dos dardos em Twelve Mistakesé um bom exemplo disso, assim como Gateway to the stars, onde num fresco negro, possante, mas inofensivo, incorrem telas de tinta digitalizada – uma composição repartida em partes representando uma abstração circular, inócua ao ponto de um logótipo – impostas sob outras camadas de tinta: cansativa, subsistindo por possibilidades de leitura que não se sustentam na sua anemia. De qualquer modo, as suas intenções ajudam no descodificar da mais interessante Via Sacra, disposta em frente: cabides alinhados em fila, enquanto um deles, contorcido, reza à beira do precipício. De ambos os lados temos ainda Time of Dragons, essa idade das trevas representada por pequenos dragões como louva-deus, dispostos em prateleiras feitas tribunas, estáticos, observando a enormidade do espaço enquanto um relógio apressado nos condena a nós às regras que não lhes assistem – mitologia trágica, moralista, excessivamente pobre formalmente, mas bem colocada no espaço despojado, quase sujo, daquela sala, capaz de amedrontar esse cabide, esperançoso, que teimosamente reza.

Mais assumidamente operando num diálogo entre o humano e o mundo natural estarão as obras de Susana de Medeiros: todos os objetos expostos parecem testemunhos de um olhar exterior para as árvores, a terra, as pedras, uma tentativa de, na impossibilidade de se tornar natureza, lhe querer aceder completamente, não só olhando-a de perto, tão perto ao ponto de lhe ver os poros, como descobrindo-a através de uma sempre impossível simulação. As obras são versáteis, orgânicas, imaginativas: encontramos desde uma casa suspensa, ao fundo, composta de finos galhos, num limbo perfeito, transparente, entre peso e leveza, como na parede oposta, uma lupa num cavalete que aponta a um pedaço de musgo, resumo simbólico da visão que percebemos à nossa volta, nesta sala, um tratado poético. Lembra o método do holandês do século XVII que quer condensar a fieldade da sua visão na pintura, nunca adulterando a natureza, porque se há algo a alterar que seja o instrumento dessa visão – o microscópio, a câmera obscura. Destaque ainda para a composição disposta no chão, uma abstração contida, de pigmentos e secções premeditadas, como uma estratigrafia convertida em pintura. Por cima acompanha-a um desenho oval, como um olhar microscópico para uma qualquer textura natural, balançando entre a quase artificialidade da sua visão e a organicidade da sua produção. Na parede oposta, uma avalanche de pedras em desenho, estáticas, mas querendo produzir movimento, silenciosas, mas querendo gritar (parece haver sempre uma união de opostos nestes trabalhos de Susana de Medeiros). Retiro-lhes uma frase, sintetizadora: “No volveran a tener la comodidade de nuestro silencio”.

Mais breve é a secção de Rafael dos Santos: um conjunto de esculturas dispõem-se no chão, ocupando um largo espaço da galeria em Helmet Testing (segundo ato). As representações quase esponjosas, abstratas, denunciam o que poderia ser uma fauna marinha, indescoberta, alienígena, convertida a cores flagrantes. Operando nessa margem entre o artificial e o que poderá ser real, as esculturas anunciam algo de muito atual, quase pop na sua total saturação. Lembraram-me o apelo surreal, mas táctil, de alguma produção contemporânea japonesa, por exemplo a cerâmica de Kazuhito Kawai.

Também objetos de uma relação distante, artificial com a natureza são as obras de Joana R. Sá, onde ramificações de plantas são convertidas num mapa digital, barroco na sua ausência de silêncio em Fill the Void, ou repartem-se em secções como azulejos sem dono em Lapsus Calami, interferências de secções quadradas que se cruzam quase incompreensivelmente, criando uma lógica própria. Parecem, no entanto, pertencer a uma espécie de lugar-comum, algo que sentimos já ter visto algumas vezes, e cujo preto e branco pesado, recorrente, não ajuda a seduzir-nos ou a convencer-nos do contrário.

Faltam-nos ainda as obras de Luís Alegre, três pinturas portadoras de universos, iconografias querendo sintetizar imaginários numa abordagem pop, humorística. As obras apresentam-se tão despretensiosas que ainda conservam, conscientemente, o código de barras da cartolina onde foram pintadas (ahahah). Vamos desde o contexto urbano de The Macro Ball, passando pelo western psicadélico em The Cowboy Hat as a Problem até ao caos de I Can Hypnotize Rabbits, onde um coelho vermelho reina, agigantado, sob uma floresta a arder. Talvez a visão que temos da natureza nesta exposição seja fatalista, um exterior que nunca conseguiremos agarrar, e que destruímos incompreensivelmente. Ou talvez encerre, quase secretamente, uma consciência que a arte é ela própria parte dessa natureza. Como nos disse Maria Filomena Molder, comentando Walter Benjamin: “Uma parte de nós pertence à natureza. E não é uma parte de nós qualquer, é aquela que as obras de arte iluminam. A arte pertence à natureza”[1]. O que é realmente isto, a natureza?

A folha de sala baralha-nos: as temáticas que descreve na exposição vão desde “o uso de tecnologia em todas as suas vertentes”, ao “aparecimento de fenómenos ligados às Cinturas Urbanas, à falta de Atenção e Objetividade, à Mutilação e Banalização do Olhar, a exploração da Assertividade e no final o que nos sobra da Humanidade”. No fim de contas, o que me parece vermos aqui é algo simples, sem grandes justificações: é esse lugar de partilha referido no título, e as possíveis ou impossíveis sincronias entre os objetos – sincronia que também me parece conceito nuclear, fundador dos trabalhos que Pedro Cabral Santo aqui nos convoca (a concentração à procura do alvo, a prece que espera resolução sob a égide das trevas). Fundamentalmente, observamos um pretexto para a divulgação do trabalho de alguns artistas, mais ou menos unidos sob uma premissa comum – ecologia, tempo, experimentação.

No dia de visita à exposição (9 de abril) ocorreu ainda uma performance sonora, inserida no ciclo Sound and Future – Four Tools to Unblock the Present. Esta foi a inauguração do ciclo com Aires: numa sala envolta a celofane dourado, ouvimos durante 40 minutos uma colagem sonora, contínua, arriscando entre momentos de absoluta distorção e passagens ambiente – uma atmosfera difícil, capaz de repelir. Afinal, o que lhe interessa é a liberdade. A certa altura, na composição, ouvimos cães a ladrar: a vida continua, desprendendo-se, perfurando a densa camada de som.

Entretanto, o relógio vai contando.

Synchronicity: Uma Exposição de Partilha pode ser vista até 22 de maio, e o ciclo Sound and Future – Four Tools to Unblock the Present continuará, pontualmente, até ao dia 22 de setembro, ambos na Plataforma Revólver.

 

[1] Maria Filomena Molder, Rebuçados Venezianos, pg. 255.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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