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Camada a Partir do Plano de Fundo: Leylâ Gediz no Martim Moniz

A praça do Martim Moniz é certamente o principal lugar de transição em Lisboa. Marcada pelas pessoas, pelas suas histórias e pelos lugares de onde são origem. É nela que a artista Leylâ Gediz apresenta a sua primeira exposição individual em Portugal, no interior do esquecido edifício de autoria do arquiteto Bartolomeu Costa Cabral. A pintura e a agitação da praça do Martim Moniz encontram-se aqui para um diálogo acerca das deslocações identitárias.

Chegar à exposição Camada a Partir do Plano de Fundo, faz-se pelo intenso caminho que é atravessar a praça do Martim Moniz e as ruas em seu redor, por entre multidões, carros e elétricos, na Lisboa onde o turismo começou a normalizar numa altura pós-pandemia. Na rua do Arco do Marquês do Alegrete 6, subimos a rampa que dá acesso ao edifício de Bartolomeu Costa Cabral e ao atravessar uma espécie de cortinas feitas com tiras de tela, a exposição inicia-se. Passamos por Intro II (2020) como se tivéssemos a entrar em qualquer loja típica da praça que tenha na sua porta as famosas cortinas de franjas anti moscas. A agitação ficou para trás desta cortina, é a obra que faz a distinção entre o exterior e o interior, mesmo não havendo uma porta de entrada para a exposição. Ainda assim, o silêncio que se faz ouvir no interior do edifício de Costa Cabral é inundado pelo alvoroço que se sente vindo da praça; não deixamos de estar no Martim Moniz.

A projeção deste edifício pretendia responder às necessidades de realojamento do comércio, sendo ponto de ligação entre a praça e a mouraria, devolveria a esta novos espaços de apropriação, relação e participação[1]. Porém, os amplos espaços públicos inicialmente projetados (jardim e terraço) não foram construídos, as galerias (exteriores e interiores) não foram apropriadas pelos comerciantes e, “por razões de segurança, os atravessamentos foram encerrados”[2]. Iniciado em 1973, desenvolvido até 1975 e adiado até 1981, o edifício, hoje está em grande parte fechado e abandonado.

Leylâ Gediz vive e trabalha em Lisboa, mas é natural da Turquia, e como imigrante carrega consigo o sentimento de deslocação; o que lhe é familiar está agora longe, ela olha para este novo lugar onde se encontra com a sensibilidade de quem conhece a incerteza, encontrando na praça do Martim Moniz aquilo que mais se assemelha a este sentimento. A escolha de realizar uma exposição num edifício que está em desuso, relembra o seu propósito inicial: a arquitetura servir como espaço público; possibilitando as pessoas que percorrem diariamente o Martim Moniz, visitarem o interior do enigmático edifício.

No seu interior, a pintura mistura-se com a arquitetura do edifício. Leylâ Gediz não procura exaltar as obras no espaço. Economiza bastante o uso da cor, usando sempre os mesmos tons de bege sem grandes contrastes. E o que aparece nas telas? Objetos comuns, fora de uso, deixados à beira de contentores de lixo para outros se servirem deles; Leylâ Gediz apropria-se desses objetos, muitas vezes num processo que passa por fotografá-los, tratá-los digitalmente e só depois os passar para o plano da pintura – um processo que a própria me confessou durante a minha visita à exposição.

Assim que subimos as escadas que dão acesso ao piso onde decorre a exposição, vemos Layer From Background (2021), a obra que dá nome à exposição, uma pintura de grande formato que mostra uma sala estéril com várias caixas de papelão (típicas caixas de mudanças) espalhadas pelo chão. Aqui é notória a vontade de Gediz representar ambientes de transição, que se transformam mediante a ação de quem os ocupa; e, a imagem de uma casa vazia com caixas de mudanças, pertence também ao imaginário de cada um de nós.  O título da exposição faz principal referência ao software de edição de imagem Photoshop, onde nele está implícita “a transformação do fundo (background) numa única camada (layer) deixando de existir a ideia de cenário”[3]; uma ideia que faz com que o fundo perca peso, onde todas as outras camadas e figuras podem deslocar-se livremente; uma movimentação que se aplica também aos lugares e às pessoas.

A forma como Leylâ Gediz apresenta as obras é certamente diferente, principalmente no que toca à exibição de pintura realística, normalmente cingida somente à parede num status de intocável. Mas aqui, Leylâ Gediz não tem o receio de as colocar no chão; aliás, as obras Untitled [broken egg] (2020) e Precarious (2022), parecem escondidas na arquitetura do edifício e, perto de caixas de papelão, parecem imitar um objeto que alguém descartou, tal como os que a artista pinta nas próprias telas. Gediz parece querer exaltar o que é comum.

No outro extremo do edifício, o destaque vai para a obra Who Killed Danijoy (2022), que como o próprio nome indica faz referência a Danijoy Pontes, de 23 anos, que foi assassinado na prisão de Lisboa. O seu caso levou ao surgimento de uma série de manifestações para que o Ministério Público reabrisse a investigação para apurar as circunstâncias da sua morte. Leylâ Gediz levanta aqui o nome de Danijoy, colocando-o no título da obra e pintando um cartaz utilizado numa manifestação que ocorreu no Martim Moniz: um elemento visual amplamente conhecido pela população de Lisboa. A figura principal deste quadro é uma mulher, amiga de Leylâ Gediz, que aparece sentada numa espécie de mesa no centro do quadro. O ambiente é novamente uma sala estéril, sem decoração ou elementos decorativos que a tornem pessoal; parece um lugar de transição, onde mais uma vez surgem as caixas de mudanças. A amiga de Leylâ Gediz chama-se Pina e, ela própria é também deslocada da sua terra natal (Filipinas); Leylâ e Pina partilham o sentimento de ser imigrante em Lisboa, de terem transitado de plano de fundo e de agora se encontrarem na mesma camada.

Camada a Partir do Plano de Fundo é o ponto de vista pessoal de uma artista imigrante sobre a cidade de Lisboa, a praça do Martim Moniz e as pessoas que ali fazem o seu quotidiano; e é uma exposição que convida também essas pessoas a visitarem este edifício que normalmente tem as portas fechadas. Leylâ Gediz reúne aqui uma série de objetos e elementos visuais que fazem parte de uma memória coletiva.

Camada a Partir do Plano de Fundo está patente até ao dia 14 de maio de 2022 no edifício de Bartolomeu Costa Cabral (Rua do Arco do Marquês do Alegrete nº6).

 

[1] de Oliveira Couto, Maria Laura. “O Edifício na Praça de Martim Moniz (1973-1984) de Bartolomeu Costa Cabral: uma proposta de continuidade.” (2020). Pág. 95

[2] de Oliveira Couto, Maria Laura (2020). Pág. 107

[3] Excerto retirado da folha de sala da exposição, Camada a Partir do Plano de Fundo

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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