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Maria José Palla, Arquivo, na Appleton Square

Entro numa ampla sala, de pé direito alto. Sobre as paredes encontro autorretratos de Maria José Palla, que se sucedem uns aos outros, nutridos de expressões. Neles conseguimos ver esgares da artista, que traduzem cansaço umas vezes, outras leveza. Pensamentos há voltados para dentro, semblantes pesados, tentativas de aprumo, e ainda outros que denunciam instantes, ou intervalos, entre uma corrida e a outra, entre uma azáfama e a outra, deixando-nos intuir a familiaridade do dia a dia, o quotidiano,  o mundano na vida da artista.

As fotografias foram tiradas numa máquina de Photovision, na estação de Porte d’Orléans. A artista fotografou metodicamente o seu rosto enquanto esteve em Paris, durante oito anos, deixando-nos revelar o seu envelhecer, de modo autêntico, sem manipulações, não sendo difícil imaginar por isso o que poderá ter ocorrido no intervalo de cada uma dessas fotos. O bulício da cidade, os sons característicos da estação, os passos dos viajantes, os pensamentos que perpassaram a mente da artista, em cada um desses instantes em que se deixava retratar no pequeno e claustrofóbico cubículo. O  que lhe vinha à mente?

Há retratos em que Palla se apresenta apressadamente de lenço ao pescoço, outros de batom em tons vivos, outros ainda que, de modo fugidio, surge de olhos pintados. São infindáveis as dificuldades em lidar com o inevitável. Nesse momento talvez pensasse no envelhecimento? A artista, no texto que acompanha a exposição, lida de frente com a voracidade do tempo, e o modo como o mesmo tolda os corpos e os transforma. Além disso, nos instantes que fotografa parece confirmar a ideia de Sontag, em “que a fotografia é a oportunidade suprema para a auto-expressão”, ou que uma fotografia assente em demasia no pensamento impede o espontâneo, ou “a autonomia do que está a ser fotografado”, ou ainda “a autenticidade do que cada um sente em relação à vida no seu todo”. De que outro modo se poderia representar de forma tão exímia a transformação do corpo, a sua verdade, se não fosse por meio do instante, do acaso? A artista fotografou-se da forma o mais fiel possível ao estado em que se encontrava no momento. É como se pretendesse, aplicar a mesma lei que os fotógrafos aplicavam, quando, a esmo, passeando pelas cidades, registavam as sombras de ruas empedernidas, e sem aviso, a camara era perpassada por um gato fugidio. Na fotografia, costumava dizer Bresson, citado por Sontag, “deve pensar-se, antes e depois, nunca enquanto se fotografa”.

As fotografias de Palla são um convite à intimidade da artista. No rosto cansado da artista, por vezes narcísico, podemos encontrar no olhar os lugares que percorre, aos afazeres do dia a dia. E é esse estar para lá do registo da imagem que pode interessar-nos mais.

A história, para lá da imagem, ou invocada pela imagem. Hoje, mais do que nunca, a representação do corpo feminino é trabalhada, transformada. Através das redes sociais, dos filtros, das operações estéticas, procura-se adiar o que no corpo é inevitável, o seu envelhecimento.

Se atendermos ao que ainda persiste, de que a mulher só poderá ter um lugar em sociedade se se mantiver jovem, bela, e dócil, (segundo o termo aplicado por Foucault), além do que veio a acrescentar mais tarde, ser capaz de, simultaneamente, ser boa profissional e tratar de todas as responsabilidades domésticas, o modo de resolver o problema, a não aceitação do envelhecimento natural da mulher, talvez resida na reeducação das pessoas em sociedade. Educar para transformar o que se entende por belo, redefinir os padrões de beleza. Alterar o modo como pensamos a beleza, desviar a convicção de que a missão da mulher é ser bonita, e que à luz dos padrões de beleza atuais significa juventude, e isso é impossível manter ao longo de toda uma vida. Há que redirecionar as referências das mulheres para modelos de mulheres mais velhas. Onde a ruga ou embranquecimento do cabelo não são tabus. O masculino pode apresentar o seu envelhecimento ao mundo. A mulher esconde, a todo o custo, o seu amadurecimento.

Reconhecemos nas imagens de Palla, os nossos próprios envelhecimentos. Olhamos para os seus retratos, que se reproduzem na galeria em pequenas nuances, mas é o nosso espelho que vemos, o nosso tempo, o tempo de perda, de melancolia, que é evidenciado, que surge e se esvai em sucessivos frames.

Reconhecemos o nosso próprio corpo, e as suas transmutações, através do outro, do seu corpo. Apreendemos a noção do eu por meio das relações que estabelecemos, e o confronto que evidenciamos com os outros.

Na busca da verdade sobre feminilidade, confrontamo-nos com o “corpo como objeto”, a sua exterioridade, e o modo como a sociedade o reconhece, impondo os seus códigos e as suas regras, enquanto matéria. Mas esquecemos, evocando Merleau-Ponty, que não nos resta outra opção, se não viver o corpo, porque é ele que nos define. Somos, enquanto seres espirituais, também corpo. Talvez por isso, e por detrás dos filtros usados por Palla, reconhecemos o que desvelamos sobre o nosso corpo, e sobre a intimidade, podemos dizer, somos o que revelamos, ou o que ocultamos.

Arquivo, de Maria José Palla, até 12 de maio, na Appleton Square, com a curadoria de Manuel Costa Cabral e Pedro Tropa.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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