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IRL Stories: Na Plenitude com Aslı Hatipoğlu

O mundo ultrapassou longos períodos de isolamento face à pandemia global que, até à data, causou mais de seis milhões de mortes. Os espaços culturais encerraram indefinidamente os seus palcos, pistas de dança e espaços expositivos, deixando toda uma indústria criativa em risco de sobrevivência. Que impacto tiveram estes tempos na relação do artista com a sua prática artística e o mundo?

IRL Stories retrata como performers pela Europa se estão a adaptar a estes tempos de mudança radical. Dada a crescente digitalização de tudo o que nos rodeia e a atual crise global de experiências IRL (in real life), a série reflete sobre identidade e resiliência dentro da comunidade artística através de um olhar íntimo sobre novas perspetivas. Cada história inclui uma entrevista e uma narrativa visual fotografada em médio formato pela artista portuguesa Rita Couto.

Diário de Aslı gravado num SCOBY através da técnica de fotopolímero. 2021 © Rita Couto.

Estou ao telefone com a Aslı e é uma daquelas chamadas em que só o facto de falarmos é muito reconfortante. Ela está a apressar-se para o a.pass, um centro de estudos avançados de performance e cenografia em Bruxelas, onde é atualmente artista residente. “Vou ver as minhas bactérias, talvez já estejam prontas!”, diz ela, enquanto comenta o forte cheiro a alho e a vinagre no ar. Rapidamente, Aslı liga a sua câmara e aponta-a para uma enorme piscina de SCOBY (Symbiotic Culture of Bacteria and Yeast), a película biológica à base de celulose que cresce à superfície do Kombucha. A Aslı aproxima-se da sua textura, maravilhada pelo microbioma que se formou e rapidamente conta-me de que é feita a instalação: uma moldura de quatro metros quadrados com 120 litros de chá e 12 kg de açúcar.

Estes termos já não me parecem estranhos ao descrever o trabalho da artista. Pelo contrário, enchem-me de esperança, lembrando-me que há mais para além do mundano nos tempos cada vez mais delirantes em que vivemos.

Aslı mói o seu café da manhã em casa em Maastricht, Holanda. 2021 © Rita Couto.

Aslı Hatipoğlu é uma artista interdisciplinar que trabalha com têxteis e comida para investigar temas relacionados com a história, fome, ciência, política, sabedoria ancestral, espiritualidade e saúde mental. Tempo, intimidade e experiências profundamente sensoriais desempenham um papel importante no seu trabalho, pois ajudam a criar sentido e consciência nas escolhas de como vivemos as nossas vidas.

Conheci a Aslı pela primeira vez em 2016 no Agora Collective, um antigo espaço interdisciplinar em Berlim, onde muitos artistas costumavam reunir-se e passar a maior parte do seu tempo. Conectamo-nos numa performance do Nowhere Kitchen, onde a Aslı foi convidada a improvisar um jantar de sete pratos utilizando restos de comida… Desde então, foi crescendo uma amizade, através de várias colaborações e viagens, porém, esta história deu início ao me deparar a ouvir a Aslı durante uma longa manhã no seu estúdio em Maastricht, no verão passado.

Aslı prova molho de soja caseiro após quatro meses de fermentação no seu estúdio na JVE Academie, em Maastricht. 2021 © Rita Couto.

Na Jan Van Eyck Academie onde a Aslı é residente há 18 meses, estou sentada no que ela chama de “a cadeira do choro”, onde alguns colegas vêm frequentemente partilhar e libertar emoções, confiando-lhe as suas histórias. Enquanto conversamos, Aslı está absorvida no seu elemento, tratando das suas experiências. E enquanto deita fora comida bolorenta, pergunta-me: “Sabias que as moscas da fruta partilham 60% dos genes humanos? Incrível, não?”

A sala está repleta de espécies animais e materiais comestíveis cuidadosamente recolhidos em frascos e recipientes, bem como restos de outras matérias para uso posterior ou de contemplação, tais como uma nota escrita num pedaço de papel onde se lê: «Atenção: este estúdio está repleto de esporos de bactérias e bolores que vivem no ar, paredes, objetos, mobiliário. Eles influenciam os processos uns dos outros. Ao estares neste estúdio, estás a tornar-te portadora de esporos, através da roupa, do toque físico…»

O trabalho da Aslı é sempre algo em vias de se tornar. A profundidade do seu processo criativo alimenta-se de um desejo radical em se compreender melhor a si própria, pela relação que desenvolve com bactérias vivas e o seu ambiente, mas também com as pessoas ao seu redor. É nesse processo que ela convida o público a participar, refletir e aprender.

Aslı colhe legumes com Nickie no jardim comunitário da JVE Academie. 2021 © Rita Couto.

Como foi para ti estes últimos tempos e como encontraste formas de te conectares com o mundo através do teu trabalho?

Os últimos dois anos, foram um apelo à consciência não só na forma como nos relacionamos com o ambiente, mas também connosco próprios. Eu passei de um estilo de vida acelerado, a trabalhar a tempo inteiro como chefe de cozinha, para uma relação extremamente cuidadosa, focada nos microrganismos que cultivava no meu estúdio, na JVE Academie. Eu pretendia investigar em profundidade o comportamento das bactérias e das leveduras através de práticas de fermentação, questionando conhecimentos ancestrais perdidos, a mudança de valores devido ao consumo de massas, bem como a história da migração humana através das culturas alimentares. No fundo, propus uma nova cultura alimentar.

Aslı transfere um SCOBY para um novo contentor. 2021 © Rita Couto.

Há uma certa compreensão mística, na forma como tocamos algo com as nossas mãos; é o amor que lhes damos que acrescenta algo. E o amor, neste momento, é uma questão de tempo, e tempo significa dinheiro. No mundo bacteriano, a sensação de esperar que algo se transforme em algo diferente, está muito relacionada com a poesia, uma ideia romântica sobre a efemeridade da natureza. Ao dedicar tempo a estes processos, acredito que a comida possa atuar como catalisador para que certos conhecimentos e emoções sejam fermentados. À medida que o pensamento entra na mente e a comida entra no corpo, acontece algo de mais íntimo do que imaginamos.

Ao longo da pandemia, o meu público tornou-se principalmente a comunidade internacional de residentes da JVE Academie. Ficar a conhecer toda a gente de uma diversidade de culturas e identidades também me inspirou a trabalhar com as leveduras e as bactérias especificamente nativas dessas culturas e terras. A partir desse intercâmbio, criei uma plataforma com a ideia de encorajar relações simbióticas com bactérias definidas pela poesia da preservação.

Aslı prepara pizza com massa de levedura para sessão de cozinha comunitária na JVE Academie. 2021 © Rita Couto.

Nasceste em Istambul, mas tens descendência turca e tailandesa. Como artista que lutou para obter um visto na Europa, de que forma é que o teu percurso se reflete no teu trabalho?

Tenho escrito diários desde que saí de casa aos catorze anos. Foi uma necessidade, passar as coisas que estavam a acontecer no meu interior para o papel. Esta forma silenciosa de comunicação comigo própria retomou anos mais tarde, quando li o livro Our Twelve Senses, de Albert Soesman. A partir daí, tudo fez sentido para mim. Ele escreve: «We have a biographic plan that lies in the depths of our soul. We do not only have complexes, drives, and frustrations, but much else that lives in our subconscious…».

Aslı apanhada num momento enquanto escrevia uma carta pessoal num SCOBY seco. 2021 © Rita Couto.

O meu pai viveu na Europa e na Ásia durante mais de treze anos. Ele era tão fascinado por outras culturas, ofícios e pela História, que sempre me encorajou a olhar para o mundo de uma perspetiva mais ampla. Isso faz parte de mim e acredito que haja uma chamada ancestral para alcançar uma consciência mais elevada de mim própria e do meu passado.

A minha mãe sofreu muito por ser estrangeira na Turquia. Ela conseguiu adaptar-se devido à sua generosidade e ao cultivo de flores e legumes, nativos da sua cidade natal, no nosso jardim. Quem sofre, compreende a urgência do cuidado. Vi-a manifestar a sua dor enquanto processava chilli e alho com um almofariz e pilão, com uma certa expressão no seu rosto. Esta memória sempre me tocou profundamente; o chilli faz-nos chorar, e por vezes sentimo-nos aliviados por algo de catártico estar a acontecer.

Aslı brinca com um SCOBY em estado húmido. 2021 © Rita Couto.

O cultivo de microrganismos em profundidade também me fez pensar muito no termo origens, como os termos estrangeiro e nativo. Vivemos num mundo globalizado onde tudo se tornou parte de um outro, adaptado às circunstâncias em que se inscrevem. Quando uma comunidade de leveduras de outra terra entra num lugar novo, altera-se. Estudar a sua adaptação, é muito próximo do estudo da humanidade.

Quando partilho uma porção da minha levedura com outros, é uma tentativa de a deixar atravessar fronteiras onde o meu próprio corpo nem sempre é capaz de o fazer. A ideia aqui é encorajar o espírito de comunidade, com fornos comunitários, ou espaços alternativos como uma forma de cuidarmos coletivamente uns dos outros. O meu objetivo é misturar pessoas de diferentes classes sociais e origens étnicas, porque há mais igualdade do que diferença, quando o assunto se torna algo tão comum como cozer pão.

Aslı mistura massa de levedura para deixar a fermentar. 2021 © Rita Couto.

Como vês a tua prática evoluir a partir daqui?

Vejo o meu trabalho a tomar diferentes formas, o que é sempre uma aprendizagem. Atualmente, como residente da a.pass em Bruxelas, estou a montar um kitchen lab para observar a interação humana com os meus fermentos em grande escala num espaço não doméstico. É um projeto em evolução, onde eu própria sou influenciada por essas interações ao criar situações através da cenografia. Movo-me pelos meus instintos e curiosidade e respondo ao meu trabalho com uma mentalidade imbuída no processo, em que o resultado realmente não importa.

Aslı apanhada no processo de elaboração do vinho natural de arroz Fujian. 2021 © Rita Couto.

No entanto, não estou a inventar algo novo. Utilizo os meus materiais como uma forma de despertar o poder do conhecimento e de como isso nos pode libertar do sistema atual. O único desafio que enfrento é a perda da conexão humana, devido ao crescimento da digitalização. Bactérias e leveduras podem ser compradas na internet e cultivadas em qualquer lugar. Isto mais uma vez separa as culturas e a comunicação real entre diferentes grupos, apagando os conhecimentos que os nossos antepassados nos legaram. Estou disposta a continuar a trabalhar com vários mediums que sejam relevantes para a minha prática artística, numa tentativa de desafiar pontos de vista, mas também para me tornar num arquivo ambulante das diferentes culturas que eventualmente tenham conseguido entrar no meu kitchen lab.

Um SCOBY repousa no lavatório do estúdio da Aslı na JVE Academie. 2021 © Rita Couto.

Rita Couto (1989, Porto) é trabalhadora independente na área do audiovisual em Berlim, onde reside. O seu trabalho tem proporcionado visibilidade a entidades, projetos e iniciativas com impacto social e tecnológico. Com uma especial afinidade pela fotografia analógica, Rita tem vindo a documentar o que a rodeia desde a sua adolescência. Ao longo do seu percurso artístico, foi aliando a escrita à fotografia com um interesse por temáticas como identidade, autenticidade e comunidade, tendo desde então retratado as histórias de artistas e coletivos multi-disciplinares em Berlim e pela Europa. O seu trabalho pode ser visitado em rita-couto.com ou instagram.com/dailydimmak.

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