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perto e logo afastar: Oraib Toukan, Peter Friedl e Rabih Mroué no KW – Institute for Contemporary Art

O atual ciclo de exposições do KW propõe-se a pensar a construção da história e da realidade através do processo de construção da imagem. Apresentados em três exposições individuais sobrepostas nos diversos andares do edifício – uma forma heterogénea de pensar exposições coletivas –, os interlocutores, Oraib Toukan, Peter Friedl e Rabih Mroué constroem um fórum que, no seu todo, funciona como um jogo de aproximação e afastamento, umas vezes reconhecível, quase conversa, outras fuga, quase ficção. A cada momento, a permeabilidade visual da linguagem, a função do olhar e a construção do olhar; a edição, da inocência à manipulação, cerzindo em cada história pessoal uma história política.

Falando de imagens, o primeiro impacto é do som. No piso inferior, a entrada verte para uma sala onde os vários diários de Friedl estão dispostos em vitrine, meticulosamente ordenados, de distâncias medidas, selados. Atrás, uma bandeira enorme do Partido dos Trabalhadores do Curdistão a rosa, colagens, luz baixa. Enquanto isso, à esquerda, num dos corredores, centenas de fotografias de parques infantis espalhados pelo mundo são projetadas em sequência na parede. Do outro lado, uma sala onde vários peluches parecem ter sido abandonados no chão. Na sala contígua, o vídeo de onde surge o som de poemas lidos a uma plateia de crianças, que brincam, aí imagem. Alta, sôfrega: “they thought it was a monster, but it was the king.” Assim repetidamente.

Aberto depois para uma sala enorme – onde se acumulam desenhos, vídeos, fotografias –, o espaço continua o jogo, sobrepondo as questões às respostas. Em duas paredes enormes, dois conjuntos de desenhos sem data, que vão da infância de Friedl à atualidade, dispostos de forma misturada. De frente para eles, várias vitrines com recortes de fotografias de jornal, sem informação ou legenda. Há ainda um palco ao fundo da sala. E sempre o som; alto, sôfrego: “they thought it was a monster, but it was the king.” Há uma atmosfera de encenação, teatral, no limiar da diversão e, parece claro, a preocupação de sublinhar um olhar infantil, uma certa ingenuidade do olhar na relação com a imagem.

Ao mesmo tempo, a presença permanente de referências violentas, imagens sobre som repetindo-se, chamando, sublinha a exaustão como um elemento a ter em conta. Friedl parece abandonar-nos a nós próprios num problema familiar: que possibilidade de leitura há entre a exaustão de tantas imagens? Uma leitura mais ou menos clara, que nos leve ou que nos livre do cansaço? Com efeito, ver é também querer, se privilegiamos o olhar sobre o que nos aproxima? Que espaço sobra, então, para o que nos afasta? E assim, quanto do que ainda não sabemos estamos de facto dispostos a descobrir? Como olhar fixamente para o que nos afasta?

Uma das virtudes deste conjunto de exposições é que as questões aqui em causa não se remetem a nenhum trabalho em particular. A inundação de informação através do estímulo constante é um fenómeno facilmente relacionável, não necessariamente artístico. De feeds a jornais, reels a diretos, comentários a podcasts, a projeção constante de cenários simultaneamente próximos e inatingíveis é uma realidade tão comum que a sua fragilidade, por habituação, parece ter deixado de ser posta em causa, como se as imagens fossem sempre uma representação direta e infalível dos objetos a que fazem referência. Por outro lado, a familiaridade imediata destas questões no contexto atual não passa de uma infeliz coincidência. À data da inauguração, a Ucrânia ainda não havia sido invadida.

Esse contexto infeliz reforça, contudo, a presença do problema, levando-o à dimensão da violência. Não é apenas uma questão de inocência. Com efeito, perguntamos: é possível saber através da visão? Pode ver tornar-se a saber? Que tipo de certeza concede às imagens a sua solidez? Quase adivinhando, Rabih Mroué parecia já esboçar uma resposta, no caso debruçando-se sobre o Líbano, palco de sucessivas guerras. Para Mroué, a grande questão é como, no meio da exaustão, é possível manipular a sensação – e a ideia – de violência. No caso, o ator-realizador serve-se continuamente de imagens de destruição como referência, tornando-as ora centro, familiares e diretas, ora mero elemento, detalhe irreconhecível, dependendo da narrativa. Por vezes, fotografa a própria fotografia, projeta sobre desenhos. Vê, vê-se a ver e mostra-se vendo-se a ser visto, numa constante flexibilização da imagem, sempre entre o real e o ficcional, o figurativo e o abstrato.

O que estimula afinal o sentimento de crueldade acerca de uma imagem? Oraib Toukan tem também para isso uma resposta, na medida em que estende o terreno de maleabilidade, apresentando dois trabalhos de vídeo, separados por uma cortina, parte do seu projeto precisamente acerca da crueldade. Entre edição, colagem, arquivo, proximidade ou distância, cenários de guerra – também exaustão – vão reaparecendo, sumindo. Estamos cansados do Líbano, da Palestina? “O problema é que imagens cruéis bloqueiam a faculdade da linguagem no seu todo – não é possível descrever com palavras a crueldade vista. Esse é o ponto: incapacitar vozes e corpos de falar e de se mobilizar. Imagens cruéis eclipsam a vida que os locais de conflito procuram, assim como as suas estratégias de sobrevivência, que assentam frequentemente no amor à vida. Imagens cruéis desumanizam estes locais como inabitáveis e insuportáveis – as suas comunidades como comunidades habituadas à violência,”[1] diz Toukan. Aqui já não se ouve o som.

What then, de Oraib Toukan, Report 1964-2022, de Peter Friedl, e Under the carpet, de Rabih Mroué, inauguraram a 19 de fevereiro e estarão patentes no KW – Institute for Contemporary Art, em Berlim, até 1 de maio.

[1] Entrevista de Oraib Toukan com Krist Gruijthuijsen e Léon Kruijswijk, em tradução livre: “The problem is that cruel images shut down the faculty of language altogether – you cannot formulate words about the cruelty seen. That is the point: to incapacitate voices and bodies from speaking and mobilising. Cruel images eclipse the life that sites of struggle seek, and their strategies for survival, which are often based on love of life. Cruel images instead dehumanise these sites as inhabitable and unbearable – their communities as accustomed to violence.”

Guilherme Vilhena Martins (1996, Lisboa; vive em Berlim) é licenciado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e trabalha como escritor, tradutor e curador. Atualmente, frequenta o mestrado em Filosofia, com foco em Estética, na Freie Universität de Berlim. É co-fundador da Associação Cultural EGEU, onde desempenha as funções de programador e curador. O seu trabalho literário consiste em crónicas, poemas e pequenos ensaios publicados em projectos independentes em Portugal e um livro de poesia, Háptica, publicado em 2020 pela Douda Correria. A linha transversal ao seu trabalho - criativo, curatorial ou filosófico - é a tensão entre desejo e ficção, assim como o seu papel na construção de estruturas narrativas.

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