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A gravidade e a graça de Isabel Simões e os campos magnéticos de Diogo Evangelista

O espaço transforma-se quando passamos a porta de entrada da Galeria Francisco Fino, os campos magnéticos fazem-se sentir no imediato. O ritmo abranda, o tempo acalma e a luz escurece; a sensação é a de termos entrado num outro universo ou realidade. Notamos os vários corpos e matérias presentes no espaço expositivo, mas estranhamente tudo parece um, apesar dos diferentes meios (pintura, vídeo e instalação). Parece que cada obra funciona perpetuamente em relação às outras, mesmo que um dia sejam separadas. A pouca iluminação existente provém apenas das próprias obras e de uma ou outra luz de presença.

A primeira peça que vemos, é uma pintura em acrílico em forma de pentagrama, vermelha e espelhada; refletindo a nossa imagem, contém uma série de marcas alusivas a símbolos do meio urbano, do graffiti. Este pentagrama é apenas o primeiro, faz parte da série Farewell to Earth (2022) composta por nove peças que vamos encontrando no decorrer do percurso expositivo.

A bússola do nosso olhar oscila indecisa sobre o que ver assim que entramos na sala principal, há vários movimentos a acontecer, seja através do som ou da imagem. O som que ouvimos decide pelos nossos olhos onde nos devemos focar; Bonus (2022), é um vídeo projetado em grande formato na parede logo à nossa esquerda e, o sentimento é de eternidade. Nele vemos imagens do nosso planeta visto através do espaço em tempo real; Diogo Evangelista apropriou-se do live stream que acompanha em direto o progresso da International Space Station (ISS) em torno do planeta Terra. O som que acompanha o vídeo é uma versão expandida da música Because dos Beatles e aqui apresenta uma sonoridade que adquire uma dimensão etérea, como se também ela flutuasse pelo sistema solar. Observando Bonus (2022), notamos as suas sucessivas pausas, inclusive quando a emissão para de transmitir devido a falhas de ligação entre a estação espacial e os canais de comunicação; mas, para além destas oscilações, Evangelista acaba mesmo por cortar a transmissão, intercalando-a com as restantes peças, principalmente com The One and The Others (2021), uma escultura de luz que intensifica a sua luminosidade quando Bonus (2022) entra em pausa.

Suspensa no teto da galeria, The One and The Others (2021) é composta por nove elipses de diferentes tamanhos que emitem azul, branco e vermelho. Estas elipses luminosas aparentam ser órbitas que pairando na atmosfera da Galeria Francisco Fino, criam no seu conjunto um sistema; a escultura adquire várias composições à medida que nos movimentamos e a vemos sobre diferentes pontos de vista. Nesta sala os próprios pentagramas servem de espelhos que possibilitam visualizar as restantes obras sobre uma outra perspetiva.

A nossa bússola é novamente atraída por um som inquieto e brusco que se faz ouvir. Seguindo a nossa curiosidade, vamos até ao nicho mais escuro da galeria onde encontramos a obra que encerra o universo de Diogo Evangelista. Ylem the Egg (2022) é um vídeo que mostra a eclosão de uma ave. Vemos em pormenor as várias transformações pelas quais o ovo passa, assistindo à luta que a ave enfrenta para se livrar da casca à sua volta. Inquieta, a ave tenta partir a casca e quando consegue o seu corpo começa a mexer-se freneticamente, acordando para o exterior. O seu piar é intenso e ofegante, o seu corpo treme e os olhos finalmente abrem; as suas forças vêm em ondas, os seus olhos fecham-se várias vezes e nesses instantes ela acalma, como que concentrando todas as suas forças para em seguida voltar a tentar. A palavra Ylem deriva do grego hylē que significa “matéria”; este termo é utilizado na cosmologia para definir “a primeira substância primordial da qual os elementos foram formados”[1] e está relacionado à teoria do Big Bang; por outro lado, o título da obra sugere a noção de ovo cósmico, onde em muitos mitos da criação, o universo tem origem num ovo.

Diogo Evangelista executa na perfeição a vontade de nos fazer mergulhar no seu mundo.

Marvila está carregada de éter, e a gravidade é também trazida por Isabel Simões pela perspetiva da pintura, na Galeria Bruno Múrias. A gravidade e a graça é o título desta nova exposição individual da artista, que convoca um espaço de suspensão e queda inspirado pelas técnicas das artes marciais japonesas (Ukemis) e pelo conceito de Ki, uma energia primordial existente no nosso corpo.

A sala principal da Galeria Bruno Múrias está transformada à imagem de uma arena de treinos; no chão foram colocados vários tatamis, esteiras japonesas utilizadas para forrar o chão. Nas paredes em redor, um conjunto de seis pinturas, do exato tamanho dos tatamis, alimentam a força gravitacional existente entre eles e as telas. Em tons pastéis esverdeados, todas elas têm sentido de horizontalidade e profundidade, parecendo reflexos dos tatamis dispostos no chão da galeria. Arena 1 (2022) assemelha-se mesmo a uma representação das esteiras; Arena 2 (2022) uma reprodução da disposição exposta no chão, sendo a única obra que mostra um apontamento de uma outra cor: o vermelho; os campos de arroz de onde provém o material que tece os tatamisaparecem na Arena 4 (2022), transportando-nos para essa paisagem tão tipicamente japonesa; a artista transporta ainda as esteiras de junco para o plano vertical quando as coloca sobre a tela na Arena 5 (2022). Simões realça aquilo que se encontra no chão, sobre o solo, à superfície ou, ainda, aquilo que ampara a queda.

A lei da gravidade sujeita tudo o que existe no mundo a cair: a chuva, folhas e pétalas, as frutas maduras, aviões, pontes, e até o nosso corpo cai. Mas, na técnica de ukemi (presente nas artes marciais japonesas), são estudados meios de controlar a forma da queda, para quando se atingir o solo, sair-se ainda numa posição favorável; a ideia é ensinar o corpo a cair, evitando assim danos físicos graves. Isabel Simões evoca este treino físico tanto pela pintura como pela performance, que acontece na arena montada no espaço expositivo; a galeria é palco para a performance da artista e do seu professor de Aikido, a arte marcial japonesa que está intimamente relacionada ao conceito de Ki, uma energia natural que flui no corpo humano. Este foi um conceito amplamente explorado pelo coreógrafo Steve Paxton, que em 1972 começou a desenvolver a Contact Improvisation, uma forma de dança que utiliza as leis da física, gravidade e inércia para explorar a relação entre dançarinos – um conceito aqui resgatado por Isabel Simões.

A presença do corpo de Isabel Simões parece-nos ainda visível, a sua energia permanece no espaço mesmo na sua ausência. As esteiras japonesas fazem-nos vislumbrar a graça do seu corpo em queda durante a performance. A sua ação permanece também por outra via: ela própria teceu os tatamis, sobre os quais agora percorre. O passado, o presente e o futuro da gravidade de Isabel Simões pairam sobre o espaço expositivo.

O último núcleo da exposição mostra um conjunto de três desenhos que a artista nomeou de Invólucros (2022). Aqui Isabel Simões retrata uma veste tradicional japonesa (hakama), onde parece recuperar o conceito de Ki, conferindo a esta peça de roupa uma energia graciosa. O Ki não está apenas presente no corpo humano, existe tanto nos animais e plantas como nos objetos; como energia primordial no universo, tudo o que existe possui a energia Ki. A energia Ki parece sobressair nestes Invólucros, feitos a carvão e tinta acrílica negra, as formas orgânicas levitam sobre a superfície do papel.

Na performance da artista com o seu professor também serão lidos excertos de A Gravidade e a Graça, Simone Weil (1963), Gravity, Steve Paxton (2018) e, O olho e o espírito, Merleau-Ponty (2002). A próxima e última apresentação será no encerramento da mostra, no dia 30 de Abril.

A graça de Isabel Simões está na maneira como nos faz levitar pelas suas obras.

A Galeria Francisco Fino e a Galeria Bruno Múrias estão submersas numa aura cósmica e etérea. A gravidade e a graça de Isabel Simões está patente até ao dia 30 de abril e, os Campos Magnéticos de Diogo Evangelista, até ao dia 6 de maio de 2022.

[1] “Ylem.” Merriam-Webster.com Dictionary, Merriam-Webster, https://www.merriam-webster.com/dictionary/ylem.

Laurinda Marques (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.

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