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1983 de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira + Bassness de Emily Wardill na Rialto6

Ao longe, aproximando-me da Rua do Conde de Redondo, onde ficará a Rialto6, olho para o edifício e não vejo nada, um prédio como qualquer outro. Se subirmos a rua pelo lado esquerdo e estivermos mesmo muito atentos, podemos reparar em pedras da calçada escritas com nomes (não reparei) e nunca perceber o que é que possam ter a ver com 1983, a mais recente exposição de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Santos, ainda mais com aquele anónimo prédio. Agora que já sei, uma pista, para já, incompreensível: “Leila depositava o dinheiro debaixo das pedras da calçada, por ser um local onde habitualmente ninguém deixa dinheiro. Já aconteceu ter lá botado o dinheiro e no dia seguinte o ir pegar, e ele lá se encontrar!”.

Numa vitrine do edifício inscreve-se “Pastelaria” em néon verde, transmissor de um passado recente ainda espelhado em algumas ruas de Lisboa, uma artificialidade plástica, sedutora, gritando anos 80. A pastelaria não tem uma entrada. Aliás, aproximando-nos dos bolos, dispostos em divisórias de metal, temos uma visão perturbadora: estão cobertos de bolor. Não lhes podemos tocar, nem comer, mas também não temos vontade. Ao lado, o peso fechado, corporativo de duas portas cinzentas.

Ao entrarmos na galeria, o mundo altera-se: um amplo corredor é iluminado por um conjunto de néons azul-violeta; ao fundo, as pessoas aglomeram-se, e à direita entramos num espaço escuro, ouvimos uma voz. Para a identificarmos, teremos de descer um lanço de escadas. Antes, expõem-se textos de sala, descrevendo o que iremos ver, e onde se apresenta um poema de Mário Cesariny, Pastelaria. Lê-se que nos bolos dispostos lá fora foram implantados fungos que se desenvolverão ao longo do período da exposição. Fungos que são bolores, organismos eucariotas alimentados por absorção de matéria morta.

Ao descermos a escada para encontrar a voz, o escuro tolda-nos a vista: se já entramos num espaço tão deslocado da vida quotidiana, para onde vamos agora? Cesariny motiva-nos: “Afinal o que importa é não ter medo”. Numa estrutura metálica, semelhante a uma paragem de autocarro (pormenorizada, concreta, com os curiosos detalhes de nela estarem inscritos cartazes de festas populares, desenhos murais) está sentado um homem, de postura tranquila, mas carregada, lendo um livro, fumando um cigarro. Apesar da transitoriedade do lugar, aquela pessoa não parece ir a lado nenhum. Escorrem pingos do teto, e outras vezes, leves jatos de água – pretende-se construir um contexto, uma atmosfera, uma paragem de autocarro algures perdida no tempo onde ouvimos histórias sob a chuva que teima em não parar. Mais tarde, descubro que este homem é Nuno Alexandre Ferreira (a performance, no entanto, foi sendo apresentada, dependendo do dia da exposição, por interlocutores diferentes). Lê-nos histórias que foram, e ainda são, realidades. Relatos de vidas marginalizadas, assumidamente queer, histórias de prostituição contadas no subsolo de uma rua, onde na superfície, essa realidade ainda é hábito. O contexto é 1983, ano das primeiras notícias sobre a Sida em Portugal: um ano depois da descriminalização da homossexualidade no país, um ano antes da morte de António Variações. O que ouvimos é duro, definido pela fronteira, enunciada no texto, entre “a autoestima e o autoestigm”. Essa voz que nos conta, encenada ou não, carrega o peso de quem já não tem nada a perder, lendo friamente o relato do que parece ter presenciado, vivido, mas a que já se acomodou. Essa renúncia à emoção, torna as palavras pesadas e concretas: quem são aquelas pessoas, e que papel temos nesta história? Desta vez, somos nós que, inevitavelmente, temos de contornar as pingas da chuva, para no fim, acabarmos sempre molhados.

A oportunidade de estar ali, naquela atmosfera tão meticulosamente construída, evocativa, urgente, gera o que será, inevitavelmente, uma das grandes mostras do ano. Tal como num cinema, o mar de escuridão, isolador, imersivo, abre-nos ao reencontro ou à revelação, sempre um ato de empatia pela consciência de aquela não ser apenas uma história, mas um espelhamento de tantas outras.

Subindo, de novo, as escadas, Bassness, a exposição de Emily Wardill ficará mais acima, no primeiro piso. Ao entrarmos, suspende-se um triângulo metálico, instrumento musical tornado gigante, conhecido pelos sons agudos e com a particularidade de possuir um ângulo aberto, possibilitando-lhe novas ressonâncias. Encontra-se suspenso no teto, e atrás observa-se um caótico fundo onde se aglomeram cores: vermelho, amarelo, azul, preto, em rasgos agressivos, lineares, pintados na parede. No espaço que conseguimos apreender deste ponto, observamos uma caminhada da sombra à luz, ilustrada pela tinta das paredes: é ao lado direito que surge a claridade. Tal como o ansioso ângulo aberto do triângulo, as peças que vemos parecem operar em limites de tensão, distâncias próximas de contacto proibido. Interligam-se pela sua tentativa de comunicação, e pelas consequências dessa surdez. Vejamos em cima, num compartimento do lado direito, Sick Serena and Dregs and Wreck and Wreck de 2007 e em baixo, à esquerda, Night for Day de 2020, duas projeções vídeo, onde sons se interconectam e confundem, batalhando. Ambos procuram trabalhar relações inusitadas: o primeiro serve-se das cumulativas composições de vitrais medievais para nos falar, humoristicamente, de problemas de linguagem, num tratamento estético a lembrar o requinte absurdo dos filmes de Peter Greenaway; o segundo pretende explorar uma ficção, composta de imagens digitais, gravações caseiras, onde se fala em inglês e português, distorções semânticas com legendas de cores diferentes, procurando construir “uma falsa relação mãe-filho para imaginar o que aconteceria se uma comunista utópica desse à luz um adepto da utopia techno”. São os dois únicos casos que aqui se inserem em espaços nitidamente museológicos, negros, carregados, como subwoofers.

É de destacar a obra The Pips, disposta numa mezzanine do espaço, um vídeo onde uma bailarina, nos malabarismos do seu movimento, deixa cair membros do seu corpo, representação do filme tornado magia. Veremos tambémMisremembered Bones, datada de 2022, uma composição de ossos espalhados no chão, pertencentes a um ser humano imaginado, que, embora feita num contexto diferente, estabelece aqui uma relação inevitável com The Pips. Nos 6 trabalhos que expõe, a exposição está carregada de sentidos e oportunidades de relações. Ainda assim, afigura-se demasiado hermética, fechada sob si própria, não havendo um suspiro que nos deixe afetar pelo esmerado caos que nos rodeia. O espaço também não é, por vezes, o mais imparcial, de uma elegância assumida, ofuscando as obras que não lidam com projeções videográficas, e que pela falta de uma dimensão tão nitidamente imersiva, parecem não ter a força de se afirmarem e virem ao de cima, colocando-se algures a caminho da decoração. “It needs more bass”.

Ao sairmos para a rua, falta-nos agora ver o que não tínhamos reparado ao início. Voltamos a 1983 de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, e agora sim, conscientes, reparamos em Os Nomes Estão Todos Lá Dentro, as já mencionadas pedras da calçada, onde se gravaram nomes, evocações de vidas reais “que fizeram parte da construção da zona enquanto lugar de libertação, luta e ativismo”. Voltámos à superfície. A Rua do Conde Redondo é, de noite, conhecida como um lugar de prostituição, sobretudo de transsexuais e travestis. Ao lermos sobre o assunto poderemos deparar-nos com notícias gráficas, alarmantes. É por isso necessário ouvir, contar, sem pudor. 1983 expõe-nos a fala enquanto arma, a comunicação enquanto resistência. A comunicação – este é, na verdade, o núcleo das duas exposições que vi. Para que não se ocultem vozes. Para que Leila não necessite de esconder o dinheiro debaixo das pedras da calçada.

As exposições estão patentes na Rialto6 até ao dia 29 de abril de 2022.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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