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mais desenhos de casas. para ti: Carlos Nogueira na 3 + 1 Arte Contemporânea

Pouco antes de chegar à galeria 3 + 1, já entardecia. As suas amplas janelas deixavam transparecer uma luz forte, compacta, vinda do interior, tornada possível pelas paredes brancas, que formavam um retângulo, visto do exterior. Para quem se encontrava ainda do lado de cá, na rua, os objetos suspensos de Carlos Nogueira revelavam, dentro da galeria, a sua leveza, a sua subtil forma.

O contraste resultava impressionante. O negro das peças, de forma nítida, convivia em completude, com a brancura das paredes.

Engraçado como a curadora Carolina Grau, no texto que acompanha a exposição de Carlos Nogueira mais desenhos de casas. para ti, conta o modo como o artista, na sua casa, termina os dias, após o trabalho, a observar justamente o entardecer, que perscruta, como um ritual, através da sua janela. Um entardecer que Nogueira aprecia pela sua propriedade de mutabilidade, de transitoriedade – O artista reproduziu, outrora, e incansavelmente, variações das nuvens.

O branco das paredes da galeria parece uma janela para o mundo, e dentro dele observamos os objetos suspensos, ou fixos. São geralmente object trouvet ou objetos feitos artesanalmente pelo artista. A cor negra destes objetos contrasta vigorosamente com a cor iluminada, e alva, das paredes onde surgem dependurados.

Por outro lado, contrastam vivamente com o mundano da rua que, quer queiramos quer não, é uma presença constante na exposição, e que não podemos ignorar.

Depois de entrarmos, é impossível não nos determos, através das janelas, e já tarde, com o que se passa no exterior da galeria, e o ambiente que recebemos da rua. A magia das peças, com “o seu poder encantatório”, que nos reporta para “uma cerimónia secreta”, como nos poderia dizer Filomena Molder, ou para uma “arte silenciosa”, como nos poderia referir Rui Chaves, opõe-se à vida quotidiana que, entretanto, se desenrola do lado de fora da galeria.

Os objetos, feitos de materiais diversos, como o metal e a madeira por exemplo, são cobertos por carvão, e essa negritude só reforça o contraste entre os objetos e o ambiente em que se instalam, assim como evocam o desenho, habitualmente realizado com a cor da grafite, ou carvão sobre a folha de papel branca. É um elogio ao desenho. Mas um desenho que não se queda no lápis e no suporte bidimensional. Antes pelo contrário, as suas formas saem da bidimensionalidade para inundarem a galeria, desenham linhas no espaço, e invadem o próprio caminho que pertence ao visitante, provocando-o.

A linha negra que se liberta da parede lembra o desenho, e uma frase de Nogueira: “Lápis de pintar dias cinzentos”. “Lápis de pintar dias cinzentos”, era o nome que o artista dava a um projeto realizado na galeria Diferença, em 1979. Dele restam algumas fotografias, em que o chão da galeria, aparecia, na altura, todo coberto por lápis de cor.

O percurso da linha, torna-se tridimensional e enforma tanto objetos de linhas racionais e geometrizantes, sugerindo produtos provenientes da indústria, como transforma os mesmos em formas irregulares e novas semânticas.

Há o indizível nas coisas que observamos. Por exemplo, no desenho do vento, pintado a branco, feito de ferros curvados, que irrompem, alinhados, sobre a parede, encontramos o que não pode ser traduzido por palavras, e que só a instalação, ou a escultura poderão invariavelmente pronunciar, com os seus materiais, as suas sombras sobre a parede, a sua cor, a sua forma. É como que uma imagem do vazio. O vazio que também corresponde a um certo recolhimento, a um pensamento voltado para dentro, para a voz interna do artista, alheio, por isso, a linguagens artísticas seguidistas da moda, ou voltadas para formas de arte vigentes.

Não existem formas declaradas de outras épocas artísticas. Somos conduzidos, por isso, a uma demora na leitura das peças. Requerem uma aprendizagem.

O tema da casa é o motivo aglutinador, porém não pertence ao domínio do óbvio. Mantém o mistério que nos assolou logo que entramos na galeria. Encontramos o tema nas peças empena norte (2021), planta irregular (1999-2022), desenhos de casas pormenores. com vista de jardim, (2021), pára vento (2021).

Vemos tanto resguardos como elementos que se desagregam. Serão verdadeiros abrigos ou fragmentos do que outrora fora uma memória coesa de uma casa? Ou de felicidade de uma casa, ou até de nostalgia de segurança? A casa e as suas sombras, os fantasmas e os medos, a complexidade do seu campo, no domínio wittgensteiniano do termo. É nessa altura que me lembro de um verso de Manuel António Pina, e das suas mais densas palavras: “Pois nada surge com a sua própria forma. Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais, a lembranças extenuadas, às trevas do corpo, lúcidas, latejando na obscuridade de quartos interiores.”

A exposição, com os seus jogos de sombras, termina com a descida para uma cave. Primeiro contactamos com o desenho do vento sobre a parede, e as suas sombras ondulantes, depois, somos arrebatados pelo vislumbre de uma mesa, onde encontramos dispostos objetos de formas diversas, cobertos de tinta branca, opaca. Tinta essa que remete para uma condição de atemporalidade, como refere Carolina Grau.

mais desenhos de casas. para ti está patente na 3 + 1 Arte Contemporânea até ao dia 30 de abril de 2022.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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