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Imagem em Fuga: Júlio Pomar, Menez e Sónia Almeida no Atelier-Museu Júlio Pomar

Imagem em Fuga é o nome da nova exposição patente no Atelier-Museu Júlio Pomar, contando-nos um diálogo entre o pintor e duas artistas: Menez e Sónia Almeida. O seu começo dá-se com a que será, provavelmente, a obra mais reconhecível dentro das que iremos ver: Resistência de Júlio Pomar, um dos marcos maiores do neorrealismo na pintura portuguesa. Iniciar-se uma exposição intitulada Imagem em Fuga com Resistência – uma pintura-testemunho da opressão do regime salazarista, símbolo de luta antifascista, ilustração de um aprisionar – seria logo o suficiente para nos deixar desconfiados. E com razão. A obra é, manifestamente, um ponto de partida, inaugurando esta primeira parede onde se dispõem outros destaques da fase neorrealista de Pomar – logo de seguida, Marcha, estamos claramente no início de um percurso – a partir de onde iremos iniciar um ato de dissociação, sempre veloz, onde os objetos se escondem nas manchas das suas sugestões, como que numa perda de consciência, escapando aos domínios do categorizável e tornando, assim, visível, esse processo de imersão e contemplação, necessário ao confronto com a arte.

Ao centro desta primeira sala, em frente à primeira parede de Pomar, encontramos uma instalação de Sónia Almeida,Search Engines, onde, sob prismas triangulares, se instalam partes de pinturas que, no seu conjunto, parecem formar uma imagem, como num puzzle. A obra, criada propositadamente para a exposição, dá-nos algumas pistas essenciais para o seu desenlace – alguns dos elementos figurativos nela identificáveis englobam uma perna que corre, cujas partes percorrem os vários painéis, e marcas de passos, picotados como vestígios. Parecendo fazer referência aos Painéis do Cinema Batalha de Pomar, não só pelo meio operado, como por uma atração pelo sentido de movimento, a obra ilustra uma primeira etapa desta “imagem que foge”, ainda que presa sobre si própria, disposta numa estrutura semelhante a biombos fechados, imóveis, ironicamente sustentados por pequeníssimas rodas: reside aqui a fronteira da mostra, a sua pedra de toque, a passagem do objeto à sugestão, da figuração à forma.

Por trás afigura-se a segunda parede, no limite oposto ao neorrealismo inicial de Pomar – sentido traduzido, literalmente, no próprio espaço expositivo – onde se misturam obras de Menez com algum abstracionismo de Pomar, obras líquidas, que nos escapam misteriosamente: ainda lá podemos ver contornos concretos, vívidos, carnais, mas já inomináveis, como uma palavra esquecida que se nos retém na ponta da língua. Citando parte do documentário sobre Menez, em exibição numa das paredes paralelas desta sala, observa-se uma pintura situada “fora das armadilhas da palavra”, que não se preocupa tanto com a abstração, como com a falta de figuração. Destaque para Fruit, Barque II de Pomar e o conjunto de sem títulos de Menez, pintados principalmente em 1969, como representações de amálgamas, coleções de formas que na sua vividez formal parecem enclausurar um corpo interior, como uma dissecação exposta a frio, num embate de cortes e rasuras sempre pintadas – que se justapõe às colagens de Pomar ao lado – onde a cor se faz arrepio. Neste momento percebemos que, intencionalmente ou não, a exposição não será tanto sobre a fuga, como a falta dela: ainda que os sentidos nos escapem, encontramo-nos condenados à sua falta, estamos simultaneamente rígidos e animados, como qualquer uma das quase-figurações que encontramos ao nosso redor – recortadas, delineadas, limitadas, presas, mas sempre oclusas, solicitando um escape, ajuda, transcendência.

Ao subirmos a escada para o piso superior da exposição, já cientes desta primeira conclusão, começamos por onde ficámos em baixo, numa parede que é, literalmente, continuação dessa inferior, onde nos tornámos amnésicos. Observam-se pinturas de Menez, agora diluídas em cores frias, brandas, horizontais como paisagens, quase lembrando as primeiras, somáticas, incursões estéticas de Rothko. Destaque nesta secção, também, para Estudo em vermelho (As corridas) de Júlio Pomar, uma obra que parece habitar entre o lirismo que o une a Menez, mas num tema herdado do futurismo, fugaz, mas épico – e ligeiramente figurativo. É neste sentido que, progressivamente, iremos caminhar agora: observa-se Paisagem (Azenhas do Mar) de 1952, onde Pomar começa já a trocar o neorrealismo por uma vertente mais abstrata, mas identificando-se ainda a fisicalidade das suas primeiras incursões; ao seu lado está um etéreo conjunto de formas retas, pintadas por Menez, quase translúcidas na sua suavidade cromática. Da pintora é também de mencionar Paralelepípedo, outro exemplo, já manifestamente figurativo, dessa imagem que quer fugir: vemos a representação de uma mulher numa estrutura prismática, assente no chão, onde os seus membros se desenvolvem, aquosos, por cada uma das faces do objeto, derivações espontâneas de um instinto qualquer, fluídos como rios.

Chegamos agora à última secção, carregada de obras – vêem-se alusões à morte no conjunto de caveiras pintadas por Pomar, à condição da própria pintura, e por fim, ao que ainda não vou revelar. O primeiro, automático destaque vai para as grandes pinturas figurativas de Menez, principalmente o seu belíssimo Sem Título de 1986, representando um atelier com os seus pincéis e tintas eriçados, como os jarros que despontam num vaso, à sua esquerda. Ainda que lírica, a pintura é suja, querendo conectar-se ao espaço que reproduz, as tintas querendo jorrar pela secção inferior da pintura para o nosso mundo, fazendo-nos parte dele – não me importava. Mas é numa pequena secção, continuadora desta, que a exposição termina. Por baixo vemos uma pintura sob azulejo de Menez, Ramos, onde um conjunto de figurações humanas em frisos seguram, cada um, uma planta semelhante a uma palma. Os seus ramos, espontâneos, fugindo à solidez da sua triangularidade, conectam-se com a pintura em cima disposta, Gaivotas de Júlio Pomar. Quase parece que esses ramos, presos, se soltaram, tornando-se gaivotas, nessa fuga prometida desde início.

Reparo que, algo contraditoriamente, aqui foi a figuração que trouxe fuga, não a abstração, testemunho de uma imaginativa museologia e um riquíssimo espólio de obras. O ponto fraco da mostra terá sido a parca inclusão de Sónia Almeida que acabou algo ofuscada, apesar do seu pontuado destaque na primeira sala – quase como uma simples necessidade de contextualizar na atualidade Menez e Pomar, dois artistas cujas obras, na verdade, ainda têm muito que revelar. No fim, apesar de todo o clímax narrativo, percebemos que a exposição não nos fugiu – ficou, para recordar posteriormente.

Imagem em Fuga, está patente no Atelier-Museu Júlio Pomar até ao dia 10 de abril de 2022.

Miguel Pinto (Lisboa, 2000) frequentou a licenciatura em História da Arte pela NOVA/FCSH, através da qual veio a realizar um estágio no Museu Nacional do Azulejo. Participou no projeto de investigação VESTE – Vestir a corte: traje, género e identidade(s), alojado pelo Centro de Humanidades da mesma instituição. Criou e gere o projeto a Parte da Arte, que pretende divulgar e investigar o panorama artístico em Portugal através de vídeo-ensaios explicativos.

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