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O mundo vê-se melhor no lusco-fusco: João Maria Gusmão na Galeria Cristina Guerra

Lusco-fusco é uma das palavras mais evocativas da língua portuguesa: indica o momento do dia no qual o céu escurece – é a transformação das luzes em trevas. Porém, da mesma forma que indica o anoitecer, indica também o momento oposto do dia, ou seja, o amanhecer. O lusco-fusco é aquele instante em que o olhar se semicerra para se poder ver com máxima acuidade.

De facto, a arte sempre nos obrigou a afilar os nossos sentidos para a perceber. Só desta forma é que se revela o seu mistério. E é uma sorte quando isso acontece, pois significa que a arte trouxe consigo o seu sentido profundo, captando a nossa atenção e despertando a nossa curiosidade.

Tal acontece quando entramos numa mostra onde, para além dos artefactos, encontramos ainda uma poesia que nos fala enigmaticamente – uma poesia fascinante, curiosa e devidamente exposta, pois que a beleza nunca se esquece de vestir um perfil estético.

Serve isto de prólogo para a exposição de João Maria Gusmão, Lusque-Fusque Arrebol, que se situa perfeitamente à volta das perceções.

Ao entrar na galeria Cristina Guerra, em Lisboa, é importante não esquecer o folheto que o próprio artista escreveu: o guia perfeito para uma série de fotografias que vêm “de uma terra onde não se escreve nem a lápis, nem com aparo, nem a esferográfica, mas a tinta preta de carvão e pincel”. As palavras de João Maria esclarecem também o que é uma roda “presa no eixo de uma parede, que não vai a lado nenhum nem transporta víveres nem passageiros nem bens ou produtos” – a descrição fisionómica perfeita das suas esculturas enigmáticas.

Este conto é, por sua vez, um “lusque-fusque”, uma miragem. Quem fala nele não é o artista, mas uma carantonha que aparece, a cada anoitecer, ao jovem protagonista dessas páginas, o jovem alquimista Fausto. A figura conta-lhemirabolantes histórias de paisagens e objetos esquisitos, entre os quais há uma “casa-cinematógrafo construída num socalco, à beira de uma ribanceira”, que, sem tela, projeta cinema sobre a vista da arriba: nuvens, pássaros, tempestades…

Como a carantonha aparece a cada lusco-fusco da noite, ela cala-se ao chegar do alvorecer da manhã, deixando o rapaz fascinado por ter ouvido tão boas e estranhas estórias. A escuridão renova-se a cada alvorada, com a promessa de uma história ainda melhor por vir.

Seria fácil falar de Lusque-Fusque Arrebol como um conjunto dos materiais que pertencem à prática do artista – os filmes realizados com slides, as esculturas em bronze, as fotografias. Porém, é bem mais do que isso: João Maria Gusmão materializa um imaginário noturno que transporta consigo também traços de causticidade e de apurada ironia.

Enquanto nos parece entrever os labirintos dos contos das mil e uma noite ou as aventuras do alquimista mais famoso da literatura portuguesa – Paulo Coelho –, descobrimos na escrita do artista esboços de humanidade, dos vícios e instrumentos para se orientar na vida. Tudo são reflexões sobre o tempo e o destino.

Gusmão esclarece esses pontos, por exemplo, descrevendo as consequências em utilizar a meridiana [hora de calor mais intenso, ou sesta] como unidade para medir o tempo. Sem corda nem bateria, sem bater do sino ou do alarme, sem contar sequer os minutos, ela possui uma característica: “Se faz sol, faz sombra; se faz chuva, está-se atrasado”, escreve João Maria.

Lendas, sensações mágicas, estupefação acompanham os espectadores no passeio por Lusque-Fusque Arrebol. Outro trecho imperdível na leitura é dedicado às lamparinas, que denunciam a atitude egoísta e sem-vergonha dos homens: “Há uma que se esfrega com excrementos para fazer aparecer um génio porco, assaz generoso, enquanto que outros são mais sovinas de desejos e, assim como assim, ninguém está satisfeito com o que tem, e por isso é que há lamparinas”. Eis por que vemos tanta gente a esfregar merda nos lampiões de génio, ou seja, em desafiar a sorte, mesmo sem se ter a possibilidade de a mudar.

A mostra na Cristina Guerra é uma Wunderkammer onde o artista dispõe as suas esculturas e fotografias de contornos nas paredes cor de laranja, como se estivessem dentro duma película. Toda a exposição acontece num filme fantasmático, através do qual Gusmão amplia a perceção de estarmos numa ficção curiosa que nos fala dum mundo alheio.

A origem mnemónica e espectral da imagem em movimento, e a investigação que compõe o trabalho do artista, vê-se aqui de maneira poética.

A exposição Lusque-Fusque Arrebol, de João Maria Gusmão, está patente até o dia 9 de abril na galeria Cristina Guerra em Lisboa.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte. Atualmente é Diretor Responsável da revista italiana exibart.com e colaborador para o semanário D La Repubblica. Além de jornalista, fez a edição e a curadoria de vários livros, entre os quais Un Musée après, do fotógrafo Luca Gilli, Vanilla Edizioni, 2018; Francesca Alinovi (com Veronica Santi), pela editora Postmedia books, 2019; Prisa Mata. Diario Marocchino, editado por Sartoria Editoriale, 2020. O último livro publicado foi L'involuzione del pensiero libero, 2021, também por Postmedia books. Foi curador das exposições Marcella Vanzo. To wake up the living, to wake up the dead, na Fundação Berengo, Veneza, 2019; Luca Gilli, Di-stanze, Museo Diocesano, Milão, 2018; Aldo Runfola, Galeria Michela Rizzo, Veneza, 2018, e co-curador da primeira edição de BienNoLo, a bienal das periferias, 2019, em Milão. Professor convidado em várias Academias das Belas Artes e cursos especializados. Vive e trabalha em Milão, Itália.

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