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FPM #3 Da construção ao imaginário, na Galeria da Fundação PLMJ

A exposição FPM #3 Da construção ao imaginário, realizada na Fundação PLMJ, oferece-nos um percurso repleto de obras de artistas portugueses, e alguns estrangeiros. A ligação entre a arte e a arquitetura é, de algum modo, o tema que mais ressalta à vista, numa primeira impressão junto das obras.

Tendo o desenho, como ponto de partida, entre arte e arquitetura, as transições entre obras, e apesar da diversidade dos meios, manifesta-se de modo subtil. Não fosse o desenho intrínseco às duas disciplinas. O desenho é que pontua, estrutura e até convoca novos sentidos. Por outras palavras, sugere, ao observador, novas semânticas.

Em primeira instância, as obras apresentam-se dentro de uma lógica dos opostos. Estabelecem-se diálogos entre interioridade e exterioridade, ordem e caos, entre o disforme e o calculado, o inesperado e o controlado, como as formas crepusculares, de Inez Teixeira, da série de fotografias No vazio da onda, em relação de proximidade com as composições geométricas de cunho abstrato oferecidas por Pedro Casqueiro, contíguas à série de Vítor Pomar Nem gancho nem anel, 2000.

As obras sucedem-se, assim como a nossa necessidade, sempre inesgotável, de inferir sentidos, ou relações entre as coisas. De um modo ou do outro, as experiências dos artistas revelam familiaridades, acompanham o seu tempo, encontram-se encastradas nas problemáticas da sua época. Esta exposição não seria por isso exceção.

Os desenhos de Adelina Lopes impressionam pela simplicidade das formas. Temos, segundo uma lógica projetual, e de depuração técnica, em linha clara, as projeções de uma árvore, em diferentes alçados. Expressam, num esforço de ação direta com o desenho de arquitetura, uma racionalidade no traçado, que se opõe ao objeto representado: uma árvore. Sabendo que a mesma é orgânica e manifesta irregularidades.

Outra das relações, mas numa perspetiva criadora artística, com a praxis do arquiteto, é a inclusão, na exposição, de estudos prévios do Edifício FPM 41 desenhado pelo arquiteto Ricardo Bak Gordon, e que ocupa a rua Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. Edifício impressionante este que, aliás, alberga, numa das suas salas, a própria exposição. A ideia de construção e revelada pela integração, na exposição, de obras como as de Ding Musa. Uma junta, Cell X, composta por uma estrutura feita de linhas paralelas e perpendiculares, relembram as reflexões de Rosalind Kraus, sobre grelha, e a permanência da estrutura, ou trama nas obras dos artistas do seculo XX, bem como o fascínio pelo racionalismo, pelo construtivismo, pelo desenvolvimento, e a tecnologia avançada.

Além de uma alusão evidente à arquitetura, expressa através das fotografias de Nuno Cera, também podem ser observados exercícios de interioridade, exterioridade, com os interiores da PLMJ, contidos no edifício FPM 41, e a maquetes, fotografadas do exterior, provocando efeitos de ressonância rizomática entre as partes constituintes da obra de Cera, e o resto dos elementos da exposição, que ecoam em obras de outros artistas.

A dicotomia interioridade-exterioridade faz-se ressentir, de igual modo, em obras como O Nazareno, de João Pedro Vale, sobretudo na relação dessa interioridade com o corpo, ou no conforto em Luísa a dormir, de Catarina Botelho, ou ainda na fragilidade manifestada pelos panejamentos que cobrem o habitáculo em Photosynthesis #23, de Tang Kuok Hou.

A exposição está patente na Galeria da Fundação PLMJ até 2 de dezembro de 2022.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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