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Entre o que se sabe e o que se encontra: O jogo de matrioskas de Julião Sarmento e Sandra Baía no MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira

Madeira, paisagens vastas, clivosas, demoradas e horizontes infinitos, onde o verde é exuberante e em supremacia, exceto quando em altitude caminhamos por entre as nuvens. Foi assim, neste cenário imenso e escarpado, que inaugurou, quase ao cair do pano de 2021, no MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira, a exposição conjunta de Julião Sarmento e Sandra Baía. Para o espaço foi, na verdade, o hastear da bandeira que marcou a sua reabertura e, assim, se reverteu na celebração, da melhor maneira possível, – pela arte – do programa de comemorações do trigésimo aniversário.

O projeto nasce em 2019, fruto de um convite da região da Madeira a Julião Sarmento que o estende a Sandra Baía e a ambos os curadores. Delineadas em estreita colaboração, todavia sem qualquer intenção de se ligarem umbilicalmente, ambas as exposições – (Un)disclosed de Julião Sarmento com curadoria de Benjamin Weil, e Formas Encontradas de Sandra Baía com curadoria de David Barro – fundem-se pelo território e pela arquitetura do espaço, ainda que deixem transparecer histórias e óticas distintas e pessoais. Tocam-se, contudo, pelo lado performativo pelo qual manobram ou iludem a factualidade, no caso de Julião segundo um aspeto mais visual, no caso de Sandra de forma mais escultórica e pictórica. Um jogo de matrioskas, apelidou-o David Barro, onde se revelam e omitem estruturas presentes, convertidas em novos dados plásticos e formais.

Quem já visitou o museu, por certo terá vivido a sensação libertadora e suprema que é sentirmo-nos entre a infinidade do céu e do mar. Saberá, pois, que a arquitetura do espaço que assim se insinua aberto e sereno, depois nos encaminha a uma descida (entrada) em profundidade para o interior. É quase uma provocação, uma constrição física inegável que convoca, porém, um caráter introspetivo, que assegurará uma leitura mais aprofundada de cada exposição. As idiossincrasias do espaço são, certamente, uma determinante para os visitantes, e foram-no, assumiu o curador Benjamin Weil, para (Un)disclosed. O know-how de Julião Sarmento em arquitetura, que desde sempre evidenciou grande consideração pelo espaço expositivo, unidade complementar ao seu pensamento, particularizou, neste caso, fortemente a planificação do projeto. A cenografia materializou-se como um jogo de ângulos de visão e perspetivas, desenrolando-se num ambiente labiríntico por entre salas maiores, mais pequenas, passagens e corredores de acesso obrigatório, assumidas como parte integrante da narrativa e da experiência. O próprio curador aponta o diálogo ocorrido no e com o espaço: uma narrativa específica para o lugar, com consciência deste e da sua localização; onde vão sendo dadas pistas na forma de silhuetas, e outros referenciais se descortinam à medida que progredimos no recinto. Uma experiência espaço-tempo individual, na qual o artista nos brinda com o vasto universo existente entre as coisas, uma série manipulações chave para acolher e compreender a sua obra. Ainda que, por contradição, essa receção possa conduzir a inadequadas interpretações ou dificultar a aceitação da(s) obra(s), devido à sua difícil e definitiva absorção. Corpos que se insinuam e dissimulam e uma estrutura camuflada em veludo vermelho que deixa a imaginação divagar na obra undisclosed (que empresta título à exposição) faz-nos imaginar: será que vemos tudo? E será que o visto é mesmo o que parece? Uma exposição é, na sua etimologia, mostrar, oferecer – disclosing. Paradoxo. No final, permanecem o mistério e ainda interrogações, numa sensação de que apenas parte do véu é-nos levantado. Uma tensão ininterrupta que reflete sobre o estado das coisas; seja por signos ou por letras – tão frequentemente presentes – explorando a forma como a perceção e o significado são moldados pela linguagem, tanto visual e estética, como literária ou filosófica. Nas palavras de Benjamin Weil “uma viagem sensorial pelo mundo visual do artista”, onde se entrecruzam tempos: obras passadas lidas à luz do presente e justapostas com trabalhos recentes; um estudo de vários sistemas de representação, ou não fosse a experimentação formal uma peça decisiva na investigação visual do artista. No final, a nossa capacidade de compreensão é trémula e exige uma (tardia) contemplação interna, quiçá sem retorno.

Naquela que é a sua primeira exposição póstuma, há um eco que persiste. Há também, mesmo para aqueles a quem lhes passou despercebida, a própria voz do artista a encerrar (ou quem sabe abrir) a exposição, com a peça Tribu. Do meu ponto de vista, tal como o poria Roland Barthes, é este o ponto fulcral de (Un)disclosed – o noema de Julião Sarmento, momento em que me invado pelo espanto do “isto foi”. Foi e veio do seu autor. É aqui que reside a loucura: porque nesse instante, ao ouvir Julião, tomo para mim que essa representação é um garante do passado. E também por isso, uma alucinação: falsa ao nível da perceção, verdadeira ao nível do tempo. Que não está lá, mas existiu realmente. A esta vida que assim me soa eterna, uma única questão permanece: afinal quantas vidas existem?  Afinal o que é morrer?

A arquitetura volta a ser peça fundamental em Formas Encontradas de Sandra Baía, trabalhando a essência dos espaços e dos objetos, aquilo que eles nos devolvem por persistência do seu eco. Ao ativá-los por meio de instalações e esculturas, a artista instiga o espetador à consciencialização da arquitetura do espaço e das suas particularidades, por meio de uma interação inevitável e necessária que favorece a sua compreensão. O contexto é ele mesmo conteúdo para o processo criativo. Todavia, Sandra Baía não se limita a reproduzir o real, preferindo explorar o cenário, segundo um jogo entre o verídico e o ilusório, onde estruturas efetivas se confundem com obras imaginadas propostas in situ, momento em que se fundem ambiente, materiais (e a sua história) e os propósitos artísticos, produtos mentais. Só assim se conseguem destacar certos detalhes ou infraestruturas que de outra forma nunca se assumiriam para lá do seu caráter estritamente estrutural e composicional. Por meio desta apurada perspicácia plástica, a obra paira entre o estar e o não estar, entre o ser presente e ausente, fruto de um minimalismo sóbrio que se concretiza como um ser-(não)lugar que entoa a identidade do contexto no qual se insere. Nestas performances arquitetónicas que estudam e defraudam a veracidade, rompem-se as verdades – um convite à evasão de todas as formalidades e à rigidez do real. Forçosas relações de fisicalidade corpo-espaço, que superaram há muito a restrição da moldura e o aparato do pedestal, resultando hoje, como o referiu David Barro, em “enigmas plásticos” derivados de desconstruções e avivamentos de materiais. Uma condição performativa subjacente a toda a sua obra e que permite à artista trabalhar nos interstícios de várias disciplinas.

À medida que nos aproximamos do museu, perfeitamente inserido no seu envolvente, do qual sobressaí a pedra escura e a fissura das escarpas onde se encontra, pode-se observar um volume escultórico negro a emergir. Mais tarde nos aperceberemos que se trata de uma enorme teia de redes de pesca que preenche um vazio estrutural, concomitantemente a parabenizar o mar que compõe a linha do horizonte e tão bem caracteriza o espaço, enquanto enfatiza a linguagem sustentável de que é feito o discurso e o trabalho Sandra Baía, capaz de reinventar significados ao reutilizar e dar nova vida a materiais. Este constante alerta para a paisagem circundante surge novamente na obra composta pela estrutura em ferro de cinco cadeiras, que nos incentiva a olhar de dentro para fora, acentuando os referentes que extravasam a sua fisicalidade. Um minimalismo racional que comporta um limbo sensorial – estamos simultaneamente no interior e no exterior do edifício e interrogamo-nos o que significa esta ausência de humanidade?

Toda a obra é espacial, alimenta-se do local para se tornar habitável, ora por tensões, tantas vezes criadas por desafios à estabilidade ou por visíveis assimetrias, como pelo recurso a materiais espelhados que nos devolvem a imagem de nós mesmos, disformes, num híbrido imediato com o lugar e o material, como um só. Movemo-nos assim num “outro mundo”, no qual as duas colunas originais se desfocam pela sua duplicação, apenas um detalhe em toda uma atmosfera de sucessivos contornos desfeitos, enganadores, pontuados por gestos que nos levam a vivenciar e a questionar veracidades e os entre definições, ideias e certezas. Sandra Baía demonstra-nos que as formas não são necessariamente inventadas, mas sim (se atentarmos ao que nos rodeia) facilmente encontradas. Nunca se impondo, antes acrescentando ou direcionando, para nos abstrair da realidade e criar outras tantas vivências, mais plásticas, amplas e envolventes.

Até 31 de agosto de 2022, a intemporalidade narrativa e a capacidade ilusória de mascarar o envolvente de (Un)disclosed e Formas Encontradas continuarão a desenhar paisagens dentro de paisagens e a propor sucessivos desafios ao nosso entendimento. Segundo Barthes uma vez: são dois os caminhos da arte, cabendo-nos a nós escolher qual tomar – ou submeter o seu espetáculo ao código civilizado das ilusões perfeitas ou enfrentar nela o despertar da inacessível realidade.

Mestre em Estudos Curatoriais pela Universidade de Coimbra, e com formação em Fotografia pelo Instituto Português de Fotografia do Porto, e em Planeamento e Gestão Cultural, Mafalda desenvolve o seu trabalho nas áreas de produção, comunicação e ativação, no âmbito dos Festivais de Fotografia e Artes Visuais - Encontros da Imagem, em Braga (Portugal) e Fotofestiwal, em Lodz (Polónia). Colaborou ainda com o Porto/Post/Doc: Film & Media Festival e o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Em 2020 foi uma das responsáveis pelo projeto curatorial da exposição “AEIOU: Os Espacialistas em Pro(ex)cesso”, desenvolvido no Colégio das Artes, da Universidade de Coimbra. Enquanto fotógrafa, esteve envolvida em projetos laboratoriais de fotografia analógica e programas educativos para o Silverlab (Porto) e a Passos Audiovisuais Associação Cultural (Braga), ao mesmo tempo que se dedica à fotografia num formato profissional ou de, forma espontânea, a projetos pessoais.

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