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Não destinado aos vivos – Out of an instance of expiration comes a perennial showing

O bolor não é condição da arte, mas pode ser. O pó não é condição da arte, mas pode ser. O falso não é condição da arte, mas também pode ser. A arte não é condição da arte.

Vários destes elementos não deviam ser integrados na arte, mas muitas vezes são. A coleção total do Museu Britânico ronda os 8 milhões de objetos, cerca de 1% está em exposição ao público.[1]

Out of an instance of expiration comes a perennial showing, é a primeira exposição a solo da artista colombiana Gala Porras-Kim em Londres. No espaço Gasworks, a sul do Tamisa, em duas salas íntimas, junta-se uma coleção de falsos artefactos.

Numa sala, uma estética composição abstrata composta por manchas esverdeadas e formas circulares negras ocupa a maior parte da parede em frente à entrada. O que parece ser uma tela por engradar, é, na realidade, um pano de musselina que cultivou esporos de fungos dos arquivos do Museu Britânico – por outras palavras, é bolor. Bolor com o seu quê de Pollock.

Ao mesmo tempo que se menciona Pollock, outras referências a Warhol emergem, talvez dos seus trabalhos menos conhecidos, as pinturas de urina preocupavam-se somente com o processo e aceitavam a impossibilidade do controlo sobre o resultado final. Mould Extraction é um exercício literal em título e conceito, em paz com a sua incerteza, e poderoso na mensagem. Poderoso como cubo de pó compresso recolhido no Metropolitan Museum.

Numa outra sala, uma réplica dum sarcófago do Museu Britânico encontrado em Giza datando de 4500 AC está posicionado sobre um arco com setas que sugerem uma rotação. Os egípcios eram enterrados com a cabeça virada para norte de modo a verem o nascer e o pôr do Sol. A artista sugere esta rotação do artefato original no museu para dar uma vida após a morte mais digna ao seu ocupante.

Esta é só uma das sugestões. Ao lado de várias obras, como folhas de sala, estão cartas que Porras-Kim escreveu ao Metropolitan Museum em Nova Iorque, ao Museu Nacional do Rio de Janeiro e ao Gwangju National Museum na Korea do Sul. Nelas, várias preocupações são expressas quanto à vida após a morte dos ocupantes do museu que nunca poderiam imaginar que os seus restos físicos fossem mote de estudo e objeto para espectadores. A artista menciona até ter tentado contactar um dos defuntos para perceber onde preferia os seus restos mortais, através da leitura de desenhos de tinta derramada sobre uma piscina de água – dos quais uma imagem está exposta. Esta prática foi infelizmente inconclusiva…

No entanto, a peça mais marcante de toda a exposição serve como pano de fundo para o sarcófago. Uma folha imensa pintada na integra a grafite representa a escuridão do interior dos templos. Mastaba scene é descrito como “não destinado aos vivos”, uma crítica à intrusão dos homens modernos nos espaços privados e sagrados dos antigos egípcios. Esta peça é o epítome da exposição. As marcas definidas da grafite transcrevem a presença na escuridão profunda, uma demonstração de força, da existência da mão humana onde a sua intervenção é questionável.

As obras preocupam-se principalmente com a materialidade, são objetos que se expressam pelas suas características físicas e ideias que materializam. O trabalho da artista desafia a instituição de alguns museus em especifico, questionando conceitos de propriedade, conservação, ética e vida após a morte, tanto para as antigas civilizações como para a sociedade contemporânea. Observação que nos faz questionar: que lugar vamos tomar para as sociedades futuras? Será que nos importamos?

Exposição patente até 27 de março no espaço Gasworks, em Londres.

 

[1] Informação retirada do site oficial do museu

Licenciada em Belas-Artes pela Universidade de Lisboa, com um pé em Londres e o coração em Lisboa, atualmente trabalha numa galeria de arte no Reino Unido. Depois de passar pelo mundo da moda, reviu o seu maior interesse na arte. É co-fundadora do Coletivo Corrente de Ar, que se foca na promoção de artistas emergentes e na democratização da Arte Contemporânea. O seu trabalho desenvolve-se em torno da curadoria, da consultoria de arte e da escrita.

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